Editorial: idílico e sensível

Gustavo Curcio

Talvez a contemporaneidade apresente como principal desafio aos designers e arquitetos a infinita gama de materiais disponíveis para a concepção da forma. Há séculos a pergunta “forma antecede material ou material antecede a forma?” tem suscitado discuções intermináveis. Sobre a determinação do resultado plástico partindo do material, ou viceversa, jamais haverá consenso. Mas, se há quase cem anos, em 1923, Le Corbusier defendia o conceito de arquitetura como “o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, pode-se aferir que, independentemente da matéria-prima ou da técnica construtiva, o que realmente importa são a forma e a maneira como o volume se revela ao espectador.

É nossa missão, como arquitetos, transformar neste século 21 a “máquina de morar”, de Le Corbusier, finalmente na máquina de emocionar. Nisso, o projeto do Studio Fuksas, que ilustra nossa capa, tem 100% de êxito. Impossível ignorar a plasticidade da nuvem revelada em um sonho a Massimiliano Fuksas como a forma ideal para o gigante de 37 mil toneladas de aço – cinco torres Eiffels -, erguido na Cidade Eterna. Poderoso na forma, poderoso na emoção, o La Nuvola reproduz em um típico invólucro racionalista romano toda a organicidade idílica da nuvem que flutua com leveza no átrio translúcido.

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Criado pelo Studio Fuksas, complexo monumental La Nuvola em Roma, na Itália, tem volumetria ortogonal em referência à arquitetura racionalista da década de 1930

“Eu estava no litoral. Nuvens eram sopradas rapidamente pelo céu por um vento forte. Conforme eu olhava para elas, me lembrei de um sonho que eu havia tido, que envolvia construir um prédio sem nenhuma forma cristalizada.” É com essa imagem idílica que o arquiteto Massimiliano Fuksas evoca o momento em que teve a ideia decisiva para o desenho do Nuovo Centro Congressi, o novo centro de convenções de Roma, não por acaso apelidado de La Nuvola (“A Nuvem”, em italiano).

Assinado por ele e Doriana Fuksas, sua mulher e sócia no Studio Fuksas, o complexo combina a aura poética com números impressionantes. Com 55 mil m², segundo os autores, é a maior construção erguida na Itália nos últimos 50 anos. Foi inaugurado em outubro de 2016, mas sua história começou bem antes, em meados de 1998, quando teve início o concurso público para a criação do espaço, cujo júri foi presidido por Norman Foster. Aprovada em 2004, a proposta definitiva conta com auditórios e salas de exibição com capacidade total para mais de 8 mil pessoas, além de um hotel com quase 500 quartos.

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