Editorial: construir o futuro

Não há tempos mais propícios para pensar o futuro do que o início de ano. Nesta edição de janeiro, pensamos o futuro de maneiras diversas. A mais proeminente traz a discussão literalmente em seu nome: o Museu do Amanhã. Aguardamos a finalização do projeto do espanhol Santiago Calatrava no Centro do Rio de Janeiro para publicar em detalhes o projeto de arquitetura, trazendo de cortes do auditório a especificações da cobertura e das aletas que se movem de acordo com a luz solar. A museografia já instalada nos revela a relação do conteúdo da mostra com as curvas internas do edifício, e como o prédio se coloca como receptáculo de um conteúdo que pretende instigar os visitantes a pensar sobre sua pegada na Terra – e a responsabilidade que têm sobre o futuro do planeta em uma época de aquecimento global e catástrofes naturais. O Museu do Amanhã, aliás, inicia uma fase de inaugurações no Rio de Janeiro – 2016 é ano de Olimpíada e de transformações urbanas na cidade.

“A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguimos salvar”
Mia Couto
, em Mulheres de cinza

A praça Mauá, em frente ao Museu e parte do projeto Porto Maravilha, é um dos exemplos positivos de mudança urbana, com o incentivo do uso do espaço público e de ocupação de áreas centrais. Nesta edição trazemos também uma entrevista com Saskia Sassen, socióloga e professora da Universidade de Columbia que discute a relação entre cidade e economia desde 1991 quando lançou seu livro A cidade global, em que analisa os papéis de Tóquio, Nova York e Londres. Nesta conversa, Saskia retoma suas análises da década de 1990 e fala sobre as cidades atuais e a privatização dos espaços públicos. Temas importantes para pensarmos as urbes do futuro.

BIANCA ANTUNES

Socióloga Saskia Sassen expõe as complexidades da cidade global e sugere formas de resistência

Socióloga Saskia Sassen expõe as complexidades da cidade global e sugere formas de resistência

Com mais frequência do que é evidente, o crescimento das cidades passa a ser regido pelo chamado sistema econômico global do capitalismo neoliberal. Por um lado, tal tendência torna as fronteiras nacionais mais fluidas e abre o mercado para um mundo de oportunidades financeiras. Por outro, tem sido a fonte de certas angústias. O fato de pequenas propriedades privadas darem lugar a modelos corporativos de propriedade, por exemplo, tem profundas implicações em conceitos de igualdade, democracia e justiça. Quando grandes empreendimentos substituem ruelas e praças, os espaços públicos, onde as pessoas podem ter as suas vozes na construção cultural da cidade, deixam de existir. A cidade então torna-se uma espécie de banco de investimentos. Os interesses daqueles sem poder não são mais refletidos na governança. Preocupações deste gênero têm sido o foco de pesquisa da socióloga Saskia Sassen, que acredita na colaboração do arquiteto com outras disciplinas para criar formas de resistência. Nascida na Holanda e radicada nos Estados Unidos, onde é professora da Universidade de Columbia, Saskia possui uma forte conexão com a América Latina – foi criada na Argentina. Seus livros, referências em assuntos relacionados à globalização, à imigração e a tecnologias de rede, incluem Sociologia da Globalização (editora Artmed) e Expulsões (que deve sair no Brasil pela editora Paz e Terra em 2016). Saskia também passa grande parte de seu tempo em congressos e debates pelo mundo. Foi em um destes eventos, desta vez em Londres, que a socióloga conversou com a redação de AU. Leia mais