Editorial: os jogos e a cidade

A sede de golfe abre suas visuais à vegetação do campo e aos edifícios do entorno no espaço que será público após o fim dos Jogos; a Arena do Futuro com seus elementos pré-fabricados irá, literalmente, sumir na paisagem para se transformar em quatro escolas públicas a partir de 2017. Começamos nossa cobertura dos Jogos Olímpicos com esses dois projetos que mostram um pouco a cara que o Rio de Janeiro deu ao seu legado, o primeiro assinado pela dupla Pedro Rivera e Pedro Évora, do Rua Arquitetos, vencedor de concurso; o segundo com o consórcio RioProjetos 2016, que reúne os escritórios Oficina de Arquitetos, Lopes Santos & Ferreira Gomes Arquitetos e Paulo Casé Planejamento. Para analisar o que está acontecendo no Rio – e isso inclui a Olimpíada e também as mudanças na área do porto, como reportamos da edição passada com os projetos do Museu do Amanhã e da praça Mauá -, conversamos com Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e curador do pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Veneza.

“Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.”

Pablo Neruda, em Últimos Poemas

Com grande foco nas mudanças do centro carioca, Fajardo desafia os arquitetos a se unirem para recuperar imóveis antigos na região. “É preciso que os arquitetos tenham interesse pelo papel e pela incumbência de cuidar da cidade que existe. O mercado imobiliário não sabe recuperar edifícios, isso não desperta interesse”, nos diz em entrevista. Fajardo também nos conta suas ideias sobre a mostra na bienal, com projetos em que ativistas e membros de comunidade são o estopim para mudanças na arquitetura e no espaço urbano. São esses projetos que terão os holofotes no pavilhão brasileiro, na busca por trazer exemplos para responder à provocação do diretor da bienal, Alejandro Aravena: apresentar casos que, apesar das dificuldades e resignações, proponham e façam algo; arquiteturas que, apesar da escassez de meios, intensificam o que está disponível em vez de reclamarem do que está faltando.

E como falar de Aravena sem citar o surpreendente Pritzker deste ano. Anunciado dia 13 de janeiro – dois meses antes do que costumam fazer -, o prêmio foi para um arquiteto relativamente jovem, com 48 anos, e que foca seu trabalho em provocações. Seja na construção de uma habitação social não comum entre os projetos do tipo, em que o morador deve completar sua construção, seja em seus discursos que chamam o arquiteto para atuar e se aproximar do que a sociedade precisa. Como a resgatar um laço há muito perdido e um papel que o arquiteto pode e deve fazer muito bem nesses tempos de mudanças: pensar e fazer a cidade mais igualitária.
BIANCA ANTUNES

Rua Arquitetos projeta Sede do Campo Olímpico de Golfe no Rio de Janeiro

Rua Arquitetos projeta Sede do Campo Olímpico de Golfe no Rio de Janeiro

À sombra da polêmica ambiental que envolveu a escolha do sítio, jornais e revistas não perceberam a notável arquitetura que ali surgia. Comparada à imensidão da planície que a envolve, é comedida a dimensão da sede do campo de golfe das Olimpíadas do Rio de Janeiro. É a escala correta para uma edificação que se permite ser atravessada pela paisagem exuberante: não somente o vento a corta livremente, mas o olhar permanece desimpedido para admirar o gramado entremeado por pequenas dunas e circundado pelo manguezal que o separa da lagoa de Marapendi. O que vemos é uma espécie de miragem da Barra da Tijuca idealizada por Lucio Costa: a planície natural a perder de vista – é verdade que em um estado menos selvagem do que o imaginado pelo mestre – e um aglomerado de edifícios altos brotando ao longe nessa baixada. Leia mais