Editorial: zonas de fronteira

GUSTAVO CURCIO

A clareza com que Jane Jacobs expôs as ideias antimodernas em Morte e Vida das Grandes Cidades – ainda na década de 1960 – parece perfeita meio século depois. “O uso misto é o caminho para garantir a pujança da cidade”, defendeu à época. Jacobs definiu conceitos-chave atemporais para o planejamento urbano, que nasceram da observação das regiões degradas de grandes cidades. Assim, chamou de zonas desertas de fronteira as áreas em torno de linhas que interrompem a conexão da cidade, como trilhos de trem e grandes avenidas.

Basta percorrer a região da Ceagesp, no bairro da Vila Leopoldina, na Zona Oeste de São Paulo, para entender o fenômeno urbano: à beira da Marginal Pinheiros, no perímetro do terreno de 700 mil m2 que abriga o entreposto paulistano, está o “deserto”. A chave para requalificar pontos da cidade como esse é, sem dúvida, a discussão.

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Uma área com cerca de 700 mil m2 na Zona Oeste da cidade de São Paulo é ocupada pela Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), a maior central de abastecimento do país e da América Latina, por onde circulam diariamente 50 mil pessoas e de 12 mil a 15 mil veículos, a maioria caminhões. Lá, todos os dias são comercializadas 12 mil toneladas de frutas, verduras, legumes, temperos, pescados e flores, entre outras mercadorias que chegam de 1.500 cidades. Dois mil permissionários empregam cerca de 15 mil funcionários, dos quais 5 mil são carregadores que chegam a consumir 40 milhões de litros de água durante uma jornada de trabalho.

Esse “território da comida” que se formou no fim da década de 1960, quando foi proposto o deslocamento do abastecimento da cidade da região central para um local mais distante, na várzea do Rio Pinheiros, ao longo do tempo possibilitou a consolidação de redes sociais e de empregos: as favelas que circundam a Ceagesp, onde vivem aproximadamente 5 mil famílias, têm em geral, no mínimo, um vínculo empregatício com o entreposto ou vivem da sucata ali produzida, ou ainda fornecendo produtos que sustentam a produção, por exemplo, das caixas de madeira destinadas ao armazenamento.

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