Editorial: perdemos o timing

Assistimos ao maior fenômeno de empoderamento financeiro – mesmo que momentâneo e baseado em alicerces duvidosos – e desperdiçamos a oportunidade, como arquitetos, de criar algo novo, de fato, para a habitação de interesse social no Brasil

O professor e escritor indiano C. K. Prahalad, antes de lançar o livro A Riqueza na Base da Pirâmide, em 2003, concedeu entrevista à revista Exame. O pesquisador da Universidade de Michigan estudou 12 casos de empresas que obtiveram êxito nos negócios com o público que ele chamou de base da pirâmide. Dentre os objetos de análise, escolheu uma grande rede varejista de móveis e eletrodomésticos brasileira. Sobre a empresa, disse: “O fundador da companhia começou com a ideia de servir aos pobres. Estava à frente dos outros. Hoje, são mais de 300 lojas, que atendem a mais de 10 milhões de consumidores. A rede ajuda o consumidor a poupar e comprar. Também tem um sistema tecnológico sofisticado para apoiar o negócio”. Em seu livro, o pesquisador evidencia o papel importante, na economia brasileira, desse tipo de comércio e a relevância nas cifras totais do varejo do país. “Maior prova de que o consumidor de baixa renda valoriza marca é o caso dessa varejista, maior vendedora de produtos Sony no Brasil.” Com apelo aspiracional, a empresa tornou-se a maior do setor no país.

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Editorial: vida urbana

A cidade que se descortina no vão livre de um edifício revela o quanto a contribuição da arquitetura para qualificar os espaços urbanos pode ir além do perímetro do projeto. Tal inspiração serviu de mote ao Edifício 1232, residencial do escritório curitibano Arquea e que ilustra a capa desta edição. Com o térreo pontuado apenas por uma escada de acesso aos pavimentos superiores, o olhar de quem passa pela calçada atravessa todo o lote, criando um interessante diálogo com a cidade.

A obra confirma o quanto o trabalho do arquiteto se norteia pela ideia de que a vida acontece no tempo e no espaço e de que, se o tempo corre alheio a nós, o mesmo não ocorre com os espaços. Cabe a esses profissionais a função primordial de planejar o que ocorre entre uma construção e outra – mais precisamente, nos lugares onde parte significativa da vida se dá, por onde as pessoas andam, passeiam, chegam ao trabalho, buscam os filhos na escola, compram pão. A partir deste pensamento integrado, que coloca as questões urbanas no cerne da atividade arquitetônica, diluem-se os limites entre espaço público e privado, entre cidade e prédio, proporcionando uma combinação que enriquece a experiência do convívio e o fascínio que a paisagem pode exercer.

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Habitação social no Brasil e os desafios gerados pelo déficit habitacional

Habitação social no Brasil e os desafios gerados pelo déficit habitacional

Os desafios gerados pelo déficit habitacional atravessam a história moderna e contemporânea do Brasil. No entanto, alguns momentos parecem ser mais propícios (ou urgentes) para tratar desse assunto. As questões sociais da arquitetura atualmente assumem uma posição destacada na crítica e na mídia especializadas da área: em meados de 2015, a Bienal de Veneza consagra como curador o arquiteto chileno Alejandro Aravena (AU 259), cuja principal produção centra-se na habitação popular (AU 264) e que colocou como foco para esta bienal a busca de práticas que enfrentem desigualdades sociais, precariedades técnicas e outros desafios de caráter similar. No começo de 2016, este arquiteto foi laureado pelo prêmio Pritzker.

São reflexões que atestam que a questão da habitação permanece passível de múltiplas entradas e aproximações, e que certamente permanecerão em pauta. Um balanço dos fenômenos e das transformações ocorridas nos últimos anos faz-se necessário para continuarmos enfrentando os problemas sociais que ainda afligem o Brasil.

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