Com projeto de Jean Nouvel, primeiro Museu do Louvre fora da França, em Abu Dhabi, é inaugurado

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Foi inaugurado no início do mês o primeiro Museu do Louvre fora da França, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O projeto da sua arquitetura foi feito em 2006 pelo vencedor do Prêmio Pritzker, Jean Nouvel, em uma área de 24.000 m² e sob uma cúpula de 180 metros de diâmetro.

Combinando arquitetura moderna e inspiração de tradições de algumas regiões, o design reflete o desejo de criar um museu universal, no qual diversas culturas são apresentadas juntas. Dois terços do museu são cobertos pelo domo branco, uma característica emblemática da arquitetura árabe, evocando mesquitas, mausoléus e madraçais. “Eu queria que esse edifício espelhasse um território protegido que pertence ao mundo árabe e à sua geografia”, explicou Jean Nouvel.

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Jean Nouvel diz, orgulhoso, “foi meu mestre”, quando aponta para Claude Parent na capa da 411a edição da Architecture d’aujour d’hui, que trouxe aos jornalistas que foram conhecer a torre Rosewood, empreendimento do Grupo Allard na antiga Cidade Matarazzo, região central de São Paulo. Com participação fundamental na recuperação da revista, que estava prestes a fechar, Jean Nouvel aprendeu muito de seu fazer arquitetônico a partir da experiência vivida ao lado do modernista francês no fim dos anos de 1960.

Mais de quatro décadas desde sua admissão em primeiro lugar na Escola de Belas Artes de Paris, as obras de Jean consagraram-no entre os arquitetos mais representativos da arquitetura francesa e mundial. Mas o reconhecimento por suas soluções inovadoras não fazem o arquiteto acreditar ser essencial a projeção da identidade do autor em um trabalho – para ele, há de se fazer um cruzamento de visões entre o que acredita o profissional e o que reivindica o espaço em que se constrói. “É catastrófico quando a gente anda pelo mundo e vê que não há mais raiz”, lamenta.

A cidade de São Paulo materializa-se em sua mente como um quebra-cabeças de peças faltantes. Uma das colaborações que o francês levanta na tentativa de amenizar o caos da metrópole é densificar de forma inteligente os locais mais favorecidos, de modo que sejam acrescidas ao espaço transformações e complementaridades capazes de enriquecê-lo sem estragá-lo. Este, inclusive, é o que considera o desafio da geração de arquitetos do século 21: às novas gerações, com novas técnicas às mãos, cabe fugir de paródias e trabalhar em espaços construídos anteriormente com urgência. Aos recém-chegados e aos que estão por vir, que sejam arquitetos mais humanistas e menos tecnocráticos. Confira a conversa que Jean Nouvel teve com a AU.

Como é sua rotina de trabalho e a do ateliê? 
Eu tento no meu dia a dia trabalhar de manhã em casa pensando nas questões sobre as quais tenho que fazer uma síntese. Paradoxalmente, acordo e logo volto pra cama. Coloco as bolinhas no ouvido, a máscara para dormir. Deito e espero que venha o assunto. Coloco um assunto na caixinha e espero virem as respostas. E depois, quando vêm, faço uma hora de ginástica e começo com um almoço tardio. Então começa meu dia. Depende do programa do dia, trabalhamos até às 21h ou 22h, e depois vem o jantar. Faço como os espanhóis – almoço duas da tarde, janto dez da noite. Esse sou eu. Mas tem a equipe que trabalha comigo que gira em torno disso. Tenho uma assistente pessoal e um assistente e arquiteto. Aí eu vejo todos os projetos ao mesmo tempo, viajo e faço coisas demais. Tenho chefes de projeto, mas sou o arquiteto autor, sou quem supervisiono tudo. Todos os projetos Jean Nouvel são projetos Jean Nouvel.

Você mencionou na coletiva quais seriam os desafios dessa nova geração de arquitetos. Você trabalha com muitos jovens no seu escritório? Como é essa relação?
Temos uma agência bem diferente. Existem muitos jovens arquitetos que querem fazer estágio lá e que ficam dois, três, cinco anos. Mas não querem ficar a vida inteira lá, então há sempre uma renovação. São 22 nacionalidades e uma brasileira, a Suzana. Mas depende da época. Quando há projetos localizados, contratamos mais pessoas ligadas e envolvidas com o desenvolvimento local desses países.

Temos em São Paulo uma grande discussão sobre o zoneamento urbano. Bairros centrais estritamente residenciais querem continuar sendo apenas residenciais…
Vocês têm razão em discutir isso. É uma catástrofe.

Se a cidade continuar sendo decidida por tecnocratas e políticos que nada entendem de urbanismo, e se acharmos que tem que ter um know-how independente da arquitetura, não vai dar certo

Como você enxerga essa construção e a transformação das cidades? Para você, como deveria ser a cidade ideal?
Não tem cidade ideal, não pode ter. Não existe a cidade preferida. É como seres humanos – é difícil classificá- los, não funciona assim. Como podemos comparar Nova York com Tóquio, com Berlim, com Londres, com São Paulo? Não dá para comparar. O que precisamos desenvolver é uma idiossincrasia, um caráter que faça com que cada cidade seja incomparável. Atualmente as cidades estão ficando as mesmas, muito parecidas. Os centros históricos estão concentrados e, em volta, fica um monte de construção autista.

Como você percebe a evolução do trabalho do arquiteto ou seu modo de ver arquitetura nesses mais de 40 anos de trabalho?
Não melhorou, mas não perdemos a esperança. E não vai melhorar em algumas décadas. É preciso tempo para corrigir. Eu espero que melhore, na verdade. Mas precisa de uma conscientização muito grande que está difícil de provocar. Se a cidade continuar sendo decidida por tecnocratas e políticos que nada entendem de urbanismo, e se acharmos que tem que ter um know-how independente da arquitetura, não vai dar certo. Ficamos muito tempo nessa ideologia dominante do século 20, em que achamos que o sistema funcionalista pode acontecer como a cidade. Já tenho experiência da minha vida e vejo que não melhorou, sinto muito. Então é preciso poder ter diferentes casos no mundo. Existem cidades europeias, principalmente, e algumas americanas já muito constituídas. Mas aí é uma questão de mutação, de transformação. Há cidades que estão sempre em hiperdesenvolvimento, sempre em urgência, sempre refazendo os erros anteriores porque isso dá muito dinheiro para as empresas. Mesmo que sejam feitas besteiras, se dá dinheiro, tudo bem. Fazem muitas estradas, para muitos carros, porque a cidade vai crescendo e vai se estendendo continuamente… Acaba ficando até ridículo, mas os políticos acham isso normal. Temos novos saberes e há de se ter cada vez mais autonomia e desmaterialização. Esse é o caminho. Autonomia. Eliminar as redes físicas, no sentido material. Isso vai acabar gerando uma outra cidade.

Você assumiu a Architecture d’aujour d’hui quando ela estava prestes a fechar… 
Não assumi, só ajudei a salvar a revista e não está muito bem agora. Estamos mudando o editor chefe, mas a salvamos. Este é meu mestre, Claude Parent [apontando para a capa da revista]. É o arquiteto com quem trabalhei nos anos de 1960 e quem me ensinou tudo. Ele é muito importante na França. Toda a arquitetura era oblíqua e composta por inclinações.

Precisamos desenvolver uma idiossincrasia, um caráter que faça com que cada cidade seja incomparável. Atualmente as cidades estão ficando muito parecidas

Qual a importância que você vê nas revistas de arquitetura hoje e que caminhos você acha que elas devem seguir, nesse mundo em que as informações rápidas da internet estão dominando a experiência de leitura de muitos arquitetos?
Acho muito importante. Não vemos mais arquitetura nas revistas. Ficamos em um modelo antigo, velho. Não dá mais para mandar os fotógrafos aos lugares. A fotografia arquitetônica também está doente e é preciso ter outros meios. Tem que complementar isso com a internet, com vídeos.

E qual seria a posição do produto revista mesmo diante da internet?
Tem que se adaptar. É poliproduto. Um pequeno jornal, ou bimestral ou trimestral. Mais um site. Várias coisas ao mesmo tempo. Não tem mais meios de manter só uma revista.

Você disse em uma entrevista que tem o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, em sua mesa de cabeceira. Como descobriu Fernando Pessoa, um dos principais autores de língua portuguesa, e por que esse livro?
Ah, sim. Mas eu não estou desassossegado [brinca]. O livro é algo que levanta meu ânimo. Deparei-me casualmente com o livro, é um dos grandes autores do nosso tempo. Adoro livros em que posso abrir em qualquer página. Mas o apreço não é só por isso. Tem uma poesia de uma profundidade muito grande.

Qual a sua relação com a cor preta? Por que sempre está de preto?
Por questões estéticas e ligadas à morfologia. Gosto da noite. O preto simboliza a noite e o mistério. A profundidade absoluta e a eternidade. E é isso.

POR: GIOVANNA GHELLER FOTO: MARCELO SCANDAROLI