A Grande cobertura da ESAF (Escola de Administração Fazendária)

A Grande cobertura da ESAF (Escola de Administração Fazendária)

Pedro Paulo de Melo Saraiva . Brasília, DF . 1973/1974

SOMBRA NA GRANDE COBERTURA
Dentre tantos monumentos construídos em Brasília, é imprescindível reconheceremos aqueles que, além de inaugurar um novo lugar, também foram capazes de concretizar novas fronteiras na arquitetura. Junto a isso, se compreendemos que as relações entre arquitetura e construção são capazes de originar sínteses admiráveis como as que encontramos na Catedral de Oscar Niemeyer ou no Hospital Sarah Lago Norte de João Filgueiras Lima (Lelé), ambas em Brasília, a Escola de Administração Fazendária (Esaf) de Pedro Paulo de Melo Saraiva, na mesma cidade, é mais um exemplo da integridade que uma estrutura arquitetônica – e entendamos aqui o termo no seu sentido mais amplo – pode construir.

Formado na FAU Mackenzie em 1955, onde desde 1992 também é professor, o arquiteto relata com entusiasmo o curto período de 14 meses em que a Esaf foi concebida e construída entre os anos de 1973 e 1974. Considerando a sua escala e o compromisso de tê-la finalizada em um prazo tão exíguo, visitá-la mais de 40 anos depois evidencia a inteligência e a maestria com as quais o projeto foi concebido, permitindo construí-lo com uma agilidade e uma solidez que somente uma ideia dotada de um conhecimento construtivo rigoroso sobre sua materialidade tornaria possível.

A Escola se localiza fora do plano-piloto, no setor de Mansões Urbanas Dom Bosco, sudeste do Eixo Monumental. Criada para aprofundar e aperfeiçoar os conhecimentos teóricos e práticos dos funcionários do Ministério da Fazenda, buscou-se um espaço que acolhesse seu extenso programa respondendo à busca por um trabalho colaborativo entre alunos, professores e funcionários.

É no modo como se insere no sutil declive original do terreno que encontramos o primeiro fundamento dessa estrutura arquitetônica. A construção parece se fundir ao território. Não encontramos nela uma base ou qualquer outro elemento insinuador de um edifício, parecendo se levantar do solo pela ampla escala e leveza de seu desenho.

Temos aqui uma das mais importantes grandes coberturas construídas nesse período. Com 300 m de comprimento e 65 m de largura, a Esaf se revela imponente em sua grandeza. A extensão ao longo da qual contemplamos a sucessão de seus expressivos pórticos nos revela sua escala arquitetônica: uma construção monumental paralela ao solo que se eleva a 6 m de seu plano primário. Aqui vemos reafirmada a mesma poesia estrutural que tanto nos faz encantar a arquitetura de Oscar Niemeyer em Brasília: a leveza do encontro entre arquitetura e paisagem pelos pontos de apoio de suas estruturas.

A sua estrutura principal é composta de um sistema de pilares, vigas e nervuras de concreto armado, suficientemente dimensionado para abrigar todos os espaços previstos. Suas nervuras, espaçadas a cada 1,25 m, vencem vãos de 15 m e 5 m de balanço, alternando entre situações abertas e fechadas, dependendo a que atividade se destina seu interior.

Seus arcos horizontais configuram os elementos de maior expressividade estrutural e plástica. São estes nove arcos de concreto armado, em seu estado bruto e com 30 m de vão que, sombreando o interior da construção, incitam-nos a adentrar e a descobrir a instituição ali debaixo abrigada. Cruzando seus pórticos, descobrimos que é uma dimensão interna que prevalece em seu edifício, reforçada pela luz que invade suas bordas e suas pérgolas, responsáveis pelas sombras tão vitais àquelas condições climáticas.

As calçadas resguardadas da Esaf, com 10 m de largura, são pautadas pelo ritmo de seus pórticos, que alternam seu contato com o solo natural e o grande espelho d’água na plataforma de chegada. Estes passeios permeados por jardins se tornam galerias de transição entre exterior e interior que, por mais imersos que estejamos em seu espaço, sempre nos permite a apreensão da planície na qual estamos inseridos.

DANIEL CORSI. arquiteto pela FAUMackenzie em 2003 e professor dessa mesma instituição desde 2010. Mestre pela FAUUSP em 2012. Sócio-fundador do escritório Corsi Hirano Arquitetos

POR: DANIEL CORSI