José Roberto Geraldine Júnior,  presidente do CAU-SP, fala com exclusividade para a aU sobre o momento atual da entidade, o ensino da arquitetura no Brasil e os efeitos da crise política no setor.

José Roberto Geraldine Júnior, presidente do CAU-SP, fala com exclusividade para a aU sobre o momento atual da entidade, o ensino da arquitetura no Brasil e os efeitos da crise política no setor.

Formado pelo Centro Universitário Moura Lacerda (1989-1994), o novo Presidente do CAU/SP é Mestre em Urbanismo pela PUC-Campinas (2000) e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela FAU-USP (2006). Atuou como docente e coordenador de curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo. Foi Presidente da AsBEA em dois mandatos (2003/2005- 2005/2007) e, nos últimos seis anos, cumpriu mandato como conselheiro federal representante das Instituições de Ensino Superior e coordenador da Comissão Ensino e Formação do CAU/BR. “Sempre dividi de forma equilibrada minhas atividades entre a atuação junto às entidades, o universo acadêmico e a prática profissional como urbanista”. Geraldine recebeu a equipe da aU na sede da entidade e falou sobre as conquistas do CAU-BR nesses 5 anos de profícua trajetória.

O CAU, em 5 anos de história, firmou-se como instrumento indispensável para a valorização do arquiteto no Brasil. Como você avalia o desempenho da entidade desde a sua fundação?

Acompanhei de perto o desenvolvimento do CAU-BR. Cumpri dois mandatos como conselheiro federal e participei ativamente da pré-implantação da entidade, inclusive durante a transição do Confea/Crea para o que temos hoje. 2011 foi um ano em que os colegas das entidades nacionais contribuíram muito para o desenho do que seria o CAU-BR de hoje. O SICCAU (Sistema de Informação e Comunicação do CAU), base que entrou em funcionamento em 22 de dezembro de 2011, foi construído, pensado e estruturado, ao longo de 2011. Entrou no ar para que no início de 2012 os arquitetos não tivessem nenhum tipo de apagão. Foi uma peça-chave para a estruturação do conselho. Ao longo desses 5 anos, presenciamos a criação de uma série de normativas e resoluções para poder organizar os trabalhos do conselho. Somos uma autarquia federal em defesa da sociedade. Estabelecemos parcerias com as entidades nacionais que compõem o nosso colegiado, como a União Internacional dos Arquitetos, e conselhos de outros países. Em 2013, recebemos num seminário em Brasília comitivas de diversas partes do mundo para discutir as boas práticas internacionais de nossa profissão. Promovemos uma série de outras ações, de campanhas de valorização da profissão, conscientização da importância do arquiteto para a sociedade. Essa primeira fase do CAU-BR foi de construção de base sólida para que a entidade possa se desenvolver e avançar. Tudo isso, tendo como pano de fundo um período de instabilidade política e de recessão, que impactaram a construção civil, e por consequência a nossa categoria. Trabalhamos para o desenvolvimento da profissão com ações no âmbito parlamentar. A cada dia, assistimos a tentativas de dividir as nossas atribuições e diminuir o poder de ação dos arquitetos. Isso coloca em risco a sociedade. Recebemos muitas demandas, constantemente solicitações dos municípios para indicação de representantes nos conselhos municipais, entidades e câmaras que pedem manifestação do CAU sobre os projetos de lei. Essa é uma das provas de que que a primeira fase do conselho teve êxito. É importante deixar registrado que o CAU ganhou alguns importantes prêmios de gestão ao longo dessa trajetória. O CAU é sempre citado como referência de gestão pelo Tribunal de Contas da União. Isso tem um peso em termos de transparência.

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Editorial: uma questão de equilíbrio

Gustavo Curcio

Ao longo de minha carreira, tive a honra de conviver com grandes mestres da arquitetura. Dentre eles, meu primeiro professor de projeto, Siegbert Zanettini. Pioneiro no emprego do aço como alternativa ao concreto armado, o arquiteto rompeu com a lógica do movimento moderno e desenvolveu, na unha, a tecnologia da construção metálica no país. Zanettini soube, com maestria, equacionar sua expressiva produção como arquiteto com seu profícuo trabalho na academia. Grandes arquitetos, salvo exceções, transitam bem entre a universidade e o escritório. Talvez daí venham a inventividade e a atualização constantes desses profissionais híbridos.

Encontrar Zanettini quase 15 anos depois de ser seu aluno foi uma lição de que se manter ativo é para poucos. No auge de sua produção e inventivo como de costume, o arquiteto reforçou ideias que há tempos são defendidas como modelo de ensino da arquitetura: a reaproximação com as engenharias e a interdisciplinaridade são as chaves para o êxito na profissão.

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Mais do que abrigar salas de aula, edifício cumpre a missão de servir como equipamento urbano dentro do campus e oferecer áreas de convivência

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Para a ocupação da última grande área livre do seu campus, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) organizou um concurso fechado entre três escritórios convidados. O vencedor foi o paulistano JT Arquitetura, liderado por José Luiz Tabith. O local escolhido teria de comportar um conjunto de edifícios destinado a sediar a Faculdade de Direito, biblioteca central, prédio de ensino multiuso do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA), igreja, restaurante universitário e uma grande caixa d’água escultórica. Após a vitória, o escritório já estava desenvolvendo o projeto preliminar quando surgiram problemas para o licenciamento da área escolhida. Como a solução demoraria algum tempo, a PUC decidiu construir primeiro o prédio da Faculdade de Direito, uma vez que o velho casarão ocupado pela faculdade há vários anos e tombado pelo patrimônio histórico já não comportava a demanda dos alunos. A universidade optou por ocupar um lote menor, com quase 5.000 m², situado entre a Faculdade de Educação Física e suas quadras cobertas de esportes, muito utilizadas pelos alunos.

Diante das especificidades do local e das necessidades programáticas apresentadas pela PUC, o arquiteto Tabith imaginou um projeto que deveria dizer respeito não apenas a um edifício com função específica de ensino, mas que também servisse de equipamento urbano ao campus, como um local agradável de passagens e encontros. “Para tanto, projetamos acessos e percursos nas quatro faces do volume, permitindo diversas formas de transposição pelo edifício, com circulações horizontais e verticais implantadas em torno de uma praça interna descoberta, criada e definida como núcleo da composição”, diz Tabith. Ele acrescenta que o conceito é de justaposição com independência de uso, tanto entre funções quanto entre pavimentos. “O usuário se apropria dos espaços conforme sua necessidade e vontade. A arquitetura proposta permite, ainda, uma integração visual constante, potencializada conforme o espaço é utilizado pelo vazio central”, conclui.

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Projeto espanhol incentiva crianças entre 9 e 10 anos a desenvolver propostas para uma praça e, assim, contribuírem para melhorar o local onde vivem

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O grupo Taller Abierto, comandado por Ana Barreiro, Marta Guirado e África Martínez, ensina arquitetura para crianças em Pontevedra, cidade espanhola na região da Galícia. Em entrevista a AU, Marta Guirado explica que o curso criado por elas, chamado Arquitectura para Niños (www.arquitecturaparaniños.es), não busca transformar crianças em pequenos arquitetos. A ideia é que, desde cedo, os pequenos aprendam a se relacionar ativamente com o local que os cerca e assim possam desenvolver uma visão crítica a respeito de seu habitat. Em sete sessões de uma hora cada, as crianças recebem noções básicas de escala, espaço e urbanística. Em seguida, criam uma proposta para melhorar uma praça próxima à escola onde estudam e discutem os temas que devem figurar no projeto final, construído por todos.

Como começou o projeto de educação e discussão de arquitetura com crianças?
MARTA GUIRADO
 Começou quando fomos selecionados pela Fundação Barrié, que desenvolve o programa EducaBarrié de fomento à educação. Propusemos nossa ideia na categoria Projetos de Colaboração entre Associações e Escolas. Nossa instituição, Taller Abierto, desenvolveu o conteúdo educacional de arquitetura, enquanto a equipe de gestão e os professores Nieves Rodriguez e Justo Fernandez, do Centro Educativo de Ensino Primário e Infantil (Ceip) Praza de Barcelos, criaram as ferramentas de ensino.

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Projetos incentivam a participação infantil no planejamento e na concepção de lugares, contribuindo para o ensino de noções de arquitetura e urbanismo desde cedo

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“Existem três tipos de professores para as crianças: os adultos, as outras crianças e o espaço. O espaço é o terceiro professor.”
Loris Malaguzzi, criador do programa educativo de Reggio Emilia

Cada vez mais iniciativas promovem cursos e oficinas que aproximam as crianças da arquitetura e da compreensão das cidades. No mundo todo, ações partem do princípio de que os pequenos precisam ser educados para o espaço físico e iniciados no que se convencionou chamar de “aprendizagem espacial”.

Equipes multidisciplinares de pedagogos, designers, jornalistas, educadores e artistas, muitas vezes lideradas por arquitetos, formam grupos de profissionais focados em desenvolver metodologias para que os jovens explorem os espaços brincando e, assim, aprendam a partir do uso de materiais e de ferramentas apropriadas.

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Juan Herreros: sobre o ensino, a prática e a cidade híbrida

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Costumeiramente, vê-se com bons olhos a presença de arquitetos da prática compondo a lista de membros do corpo docente de uma universidade. A priori, esta é a informação de grande valor para apresentar o arquiteto espanhol Juan Herreros, sócio-fundador do Estudio Herreros e professor das Universidades de Madri e de Columbia, em Nova York. A questãochave, no entanto, está presente na sua afirmação: “Os projetos dos meus alunos não se parecem com o que produzo no meu escritório”. A frase é tão óbvia quanto estranha para os corpos docentes de várias faculdades de arquitetura brasileiras. Para Juan, dar aulas não é doutrinar, não é a sobreposição do desenho do professor em cima do que é feito pelo aluno. O ensino é associado ao diálogo. Leia mais