Editorial: uma questão de tempo

É fato que o caos político e institucional no Brasil continua. Mas o tal “descolamento” entre economia e política parece dar sinais claros de que o país, independentemente do cenário dantesco de Brasília, tem de continuar a crescer. O setor da construção civil talvez tenha sido o mais judiado entre tantos que sofreram os impactos do torvelinho que assolou o país. É alento andar pelas ruas de São Paulo e enxergar os saudosos tapumes de aço cercando glebas para, enfim, erguer-se novos empreendimentos.

Já falei em edições passadas da oportunidade que nós, arquitetos, perdemos na época áurea do crescimento econômico, já há uns bons dez anos. Tivéssemos aproveitado a injecão sem precedentes de recursos no setor, teríamos revolucionado o mundo com novos modelos de arquitetura inteligente, sustentável, social. O bonde passou,perdemos a chance. Fizemos mais do mesmo.

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Editorial: uma questão de equilíbrio

Gustavo Curcio

Ao longo de minha carreira, tive a honra de conviver com grandes mestres da arquitetura. Dentre eles, meu primeiro professor de projeto, Siegbert Zanettini. Pioneiro no emprego do aço como alternativa ao concreto armado, o arquiteto rompeu com a lógica do movimento moderno e desenvolveu, na unha, a tecnologia da construção metálica no país. Zanettini soube, com maestria, equacionar sua expressiva produção como arquiteto com seu profícuo trabalho na academia. Grandes arquitetos, salvo exceções, transitam bem entre a universidade e o escritório. Talvez daí venham a inventividade e a atualização constantes desses profissionais híbridos.

Encontrar Zanettini quase 15 anos depois de ser seu aluno foi uma lição de que se manter ativo é para poucos. No auge de sua produção e inventivo como de costume, o arquiteto reforçou ideias que há tempos são defendidas como modelo de ensino da arquitetura: a reaproximação com as engenharias e a interdisciplinaridade são as chaves para o êxito na profissão.

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Editorial: idílico e sensível

Gustavo Curcio

Talvez a contemporaneidade apresente como principal desafio aos designers e arquitetos a infinita gama de materiais disponíveis para a concepção da forma. Há séculos a pergunta “forma antecede material ou material antecede a forma?” tem suscitado discuções intermináveis. Sobre a determinação do resultado plástico partindo do material, ou viceversa, jamais haverá consenso. Mas, se há quase cem anos, em 1923, Le Corbusier defendia o conceito de arquitetura como “o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, pode-se aferir que, independentemente da matéria-prima ou da técnica construtiva, o que realmente importa são a forma e a maneira como o volume se revela ao espectador.

É nossa missão, como arquitetos, transformar neste século 21 a “máquina de morar”, de Le Corbusier, finalmente na máquina de emocionar. Nisso, o projeto do Studio Fuksas, que ilustra nossa capa, tem 100% de êxito. Impossível ignorar a plasticidade da nuvem revelada em um sonho a Massimiliano Fuksas como a forma ideal para o gigante de 37 mil toneladas de aço – cinco torres Eiffels -, erguido na Cidade Eterna. Poderoso na forma, poderoso na emoção, o La Nuvola reproduz em um típico invólucro racionalista romano toda a organicidade idílica da nuvem que flutua com leveza no átrio translúcido.

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Editorial: supermoderno é agora

GUSTAVO CURCIO

Em meio à busca incessante por projetos cada vez mais sustentáveis e digitais, parece não existir um discurso coerente de forma e linguagem no Brasil. Tente responder à seguinte pergunta: quais são as principais características da arquitetura brasileira contemporânea? Difícil encontrar uma resposta imediata.

Há pelo menos três décadas estamos em busca de uma nova identidade. Enquanto muitas escolas de arquitetura continuam defendendo ideias corbusianas de 1930, o mundo ultrapassou o modernismo, o pós-modernismo e a hipermodernidade. Mas o próprio conceito do hipermoderno exposto há doze anos por Gilles Lipovetsky (1944-) parece estar superado. Vivemos a cultura do excesso, do sempre mais, e esse aspecto da supermodernidade, termo usado pelo próprio filósofo para definir os dias de hoje, verifica-se de maneira clara na arquitetura. No entanto, o fator Brasil, de entraves de acesso à tecnologia e mão de obra de formação empírica nos impõe, mais uma vez, a um fenômeno peculiar, todo nosso.

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Editorial: ode à cidade

Dois edifícios residenciais na capital paulista mostram que há novas maneiras de construir na cidade seguindo as exigências do mercado imobiliário, mas com bons projetos de arquitetura. No meio de centenas de novos edifícios que repetem fórmulas e padrões, os arquitetos do UNA lograram erguer uma torre de concreto, mesclando robustez e delicadeza; estrutura e função. O Huma Klabin é uma ode à cidade, e faz com que os moradores nunca se esqueçam disso. A vista da urbe em várias camadas entra pelas aberturas do edifício inclusive no corredor de acesso aos apartamentos. Também em São Paulo, Lucas Bittar e Felipe Hsu projetaram o Amoreira, um edifício de linhas singelas, mas funcionais, revelando a verdade dos materiais e gentil com o entorno. Dois projetos publicados em detalhe nesta edição.

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Editorial: os jogos e a cidade

A sede de golfe abre suas visuais à vegetação do campo e aos edifícios do entorno no espaço que será público após o fim dos Jogos; a Arena do Futuro com seus elementos pré-fabricados irá, literalmente, sumir na paisagem para se transformar em quatro escolas públicas a partir de 2017. Começamos nossa cobertura dos Jogos Olímpicos com esses dois projetos que mostram um pouco a cara que o Rio de Janeiro deu ao seu legado, o primeiro assinado pela dupla Pedro Rivera e Pedro Évora, do Rua Arquitetos, vencedor de concurso; o segundo com o consórcio RioProjetos 2016, que reúne os escritórios Oficina de Arquitetos, Lopes Santos & Ferreira Gomes Arquitetos e Paulo Casé Planejamento. Para analisar o que está acontecendo no Rio – e isso inclui a Olimpíada e também as mudanças na área do porto, como reportamos da edição passada com os projetos do Museu do Amanhã e da praça Mauá -, conversamos com Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e curador do pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Veneza.

“Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.”

Pablo Neruda, em Últimos Poemas

Com grande foco nas mudanças do centro carioca, Fajardo desafia os arquitetos a se unirem para recuperar imóveis antigos na região. “É preciso que os arquitetos tenham interesse pelo papel e pela incumbência de cuidar da cidade que existe. O mercado imobiliário não sabe recuperar edifícios, isso não desperta interesse”, nos diz em entrevista. Fajardo também nos conta suas ideias sobre a mostra na bienal, com projetos em que ativistas e membros de comunidade são o estopim para mudanças na arquitetura e no espaço urbano. São esses projetos que terão os holofotes no pavilhão brasileiro, na busca por trazer exemplos para responder à provocação do diretor da bienal, Alejandro Aravena: apresentar casos que, apesar das dificuldades e resignações, proponham e façam algo; arquiteturas que, apesar da escassez de meios, intensificam o que está disponível em vez de reclamarem do que está faltando.

E como falar de Aravena sem citar o surpreendente Pritzker deste ano. Anunciado dia 13 de janeiro – dois meses antes do que costumam fazer -, o prêmio foi para um arquiteto relativamente jovem, com 48 anos, e que foca seu trabalho em provocações. Seja na construção de uma habitação social não comum entre os projetos do tipo, em que o morador deve completar sua construção, seja em seus discursos que chamam o arquiteto para atuar e se aproximar do que a sociedade precisa. Como a resgatar um laço há muito perdido e um papel que o arquiteto pode e deve fazer muito bem nesses tempos de mudanças: pensar e fazer a cidade mais igualitária.
BIANCA ANTUNES