Notícias do mundo da arquitetura

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Megacondomínio de uso misto resgata sensação de pertencimento no centro de São Paulo

Inóspito. Assim é hoje o centro de São Paulo. Basta fazer um passeio a pé por ali, num domingo de manhã, para sentir sua aridez: as ruas e as avenidas ficam desertas, sem vida nem alma, se comparadas com o movimento de pessoas que por lá trabalham durante a semana. Daqui a três anos, no entanto, essa situação vai mudar. Prevê-se para 2020 a entrega do Complexo Júlio Prestes 1 , um megacondomínio de uso misto que começou a ser construído em fevereiro na Região da Luz. Cravado no terreno de 18 mil m² que um dia abrigou a antiga Rodoviária de São Paulo, o empreendimento terá 94,6 mil m² de área construída e englobará conjunto habitacional, praça, escola de música, creche e lojas. É esperado na região – batizada de Cracolândia desde o fim da década de 1990 – um impacto positivo. “Temos centros urbanos em esvaziamento habitacional quando a cidade deveria ser uma mescla de trabalho e habitação”, pondera o arquiteto e urbanista Alvaro Puntoni, professor de projeto da FAU-USP.

Puntoni defende que a cidade precisa crescer para dentro, onde já existe infraestrutura – e não para fora. “Programas que criam casas em lugares afastados de centros urbanos acabam formando verdadeiros guetos.”

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Editorial: zonas de fronteira

GUSTAVO CURCIO

A clareza com que Jane Jacobs expôs as ideias antimodernas em Morte e Vida das Grandes Cidades – ainda na década de 1960 – parece perfeita meio século depois. “O uso misto é o caminho para garantir a pujança da cidade”, defendeu à época. Jacobs definiu conceitos-chave atemporais para o planejamento urbano, que nasceram da observação das regiões degradas de grandes cidades. Assim, chamou de zonas desertas de fronteira as áreas em torno de linhas que interrompem a conexão da cidade, como trilhos de trem e grandes avenidas.

Basta percorrer a região da Ceagesp, no bairro da Vila Leopoldina, na Zona Oeste de São Paulo, para entender o fenômeno urbano: à beira da Marginal Pinheiros, no perímetro do terreno de 700 mil m2 que abriga o entreposto paulistano, está o “deserto”. A chave para requalificar pontos da cidade como esse é, sem dúvida, a discussão.

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Secretário da Habitação do estado de São Paulo fala sobre o Complexo Júlio Prestes, um espaço de 94,6 mil m² em construção na Região da Luz. O projeto é uma aposta na revitalização dessa área central com unidades residenciais, espaços comerciais e escola de música

Secretário da Habitação do estado de São Paulo fala sobre o Complexo Júlio Prestes, um espaço de 94,6 mil m² em construção na Região da Luz. O projeto é uma aposta na revitalização dessa área central com unidades residenciais, espaços comerciais e escola de música

Quem tem mais de 60 anos lembra com saudades da região dos Campos Elíseos, que se estende do Bom Retiro, ao lado do Centro de São Paulo, até a Barra Funda. Primeiro bairro projetado da capital paulista, o local surgiu com a inauguração da estação de trens São Paulo Railway, nos anos de 1870, e o serviço de abastecimento domiciliar de água da Cia. Cantareira. Também foi a primeira área considerada nobre, porque era lá que os ricos fazendeiros de café foram morar no fim do século 19, aproveitando a proximidade com a estação de trem Sorocabana, atual Júlio Prestes.

Até o fim da década de 1940, a elite ocupava casarões e sobrados na região e passeava no imponente Parque da Luz, aberto em 1825. Ali ficava o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do governo do estado, e a Estação da Luz, inaugurada em 1901, com a maior parte de suas estruturas importadas da Inglaterra. A deterioração da Região da Luz começou na década de 1950, e a instalação da antiga estação rodoviária, em 1961, contribuiu para essa decadência.

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