15ª Bienal de Arquitetura de Veneza: na linha de frente

15ª Bienal de Arquitetura de Veneza: na linha de frente

“O front somos nós, a América”, diz Paulo Mendes da Rocha. “Estamos em plena guerra – no sentido de urgentes transformações para evitar a rota do desastre. Não tem sentido tanta sabedoria construir cidades desastradas.” O arquiteto de 87 anos está sentado na biblioteca do Pavilhão Central no Giardini, em Veneza, com o olhar apontado para um jardim projetado por Carlo Scarpa, no lado de fora. Falta um dia para Paulo Mendes da Rocha ser premiado com o prestigioso Leão de Ouro pelo conjunto da obra. Seu linguajar bélico não é gratuito.

Atrás dele estendem-se os galpões, salas e pavilhões nacionais que compõem a 15a mostra de arquitetura da Biennale – aberta ao público de 28 de maio a 27 de novembro de 2016. Arquitetos de todas as partes do mundo foram alistados pelo curador chileno Alejandro Aravena – o primeiro latino-americano no cargo – para exibirem suas armas: projetos que “relatam da linha de frente” (em inglês, report from the front).

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Quinta Monroy 12 anos depois: uma análise da habitação social de Alejandro Aravena

Quinta Monroy 12 anos depois: uma análise da habitação social de Alejandro Aravena

1 – Doze anos depois da entrega das casas, a maioria dos habitantes originais ainda permanece no bairro, ampliando a habitação social que receberam, como pretendia o projeto de Aravena – Quinta Monroy foi a primeira aplicação prática do sistema defendido pelo arquiteto, de construir metade da casa para que o morador a termine

Começa fevereiro, o verão avança e dona Praxedes Campos se prepara para percorrer, novamente, os 2,3 mil km que separam sua casa em Iquique da vila de Santa Bárbara, onde nasceu e acaba de passar suas férias. A parada de quatro dias em Santiago ajudou a diminuir a viagem, ver o médico que trata de suas lesões depois que foi atropelada – a recuperação vai bem – e também para fazer uma visita e cumprimentar pessoalmente “seu arquiteto”, que acabava de ser anunciado vencedor do Prêmio Pritzker 2016. Leia mais

Editorial: construir mudanças

Quinta Monroy, o conjunto de habitação social em Iquique, Norte do Chile, foi o primeiro projeto de Alejandro Aravena e de seu “do tank”, o Elemental, em que a ideia de construir metade da casa para que o morador construísse o restante foi colocada em prática. Dentro desse sistema, outras variáveis estiveram em jogo, como a participação dos moradores no processo de projeto (a busca pela resposta correta a ser respondida) e a manutenção do grupo de vizinhos no mesmo lote em que moravam há 30 anos. Como primeiro projeto, também pode ser visto, hoje, como um campo de pesquisas sobre erros e acertos, e sobre como os moradores se apropriaram do conjunto. Foi assim que Patricio Mardones Hiche analisou a Quinta Monroy no artigo da Interseção desta edição: 12 anos depois de sua inauguração, conversou com moradores e situou a experiência de Aravena dentro da história da habitação social chilena. As fotos foram feitas por Michael Quezada, fotógrafo de Iquique, em fevereiro de 2016 especialmente para a AU. Leia mais

Editorial: os jogos e a cidade

A sede de golfe abre suas visuais à vegetação do campo e aos edifícios do entorno no espaço que será público após o fim dos Jogos; a Arena do Futuro com seus elementos pré-fabricados irá, literalmente, sumir na paisagem para se transformar em quatro escolas públicas a partir de 2017. Começamos nossa cobertura dos Jogos Olímpicos com esses dois projetos que mostram um pouco a cara que o Rio de Janeiro deu ao seu legado, o primeiro assinado pela dupla Pedro Rivera e Pedro Évora, do Rua Arquitetos, vencedor de concurso; o segundo com o consórcio RioProjetos 2016, que reúne os escritórios Oficina de Arquitetos, Lopes Santos & Ferreira Gomes Arquitetos e Paulo Casé Planejamento. Para analisar o que está acontecendo no Rio – e isso inclui a Olimpíada e também as mudanças na área do porto, como reportamos da edição passada com os projetos do Museu do Amanhã e da praça Mauá -, conversamos com Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e curador do pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Veneza.

“Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.”

Pablo Neruda, em Últimos Poemas

Com grande foco nas mudanças do centro carioca, Fajardo desafia os arquitetos a se unirem para recuperar imóveis antigos na região. “É preciso que os arquitetos tenham interesse pelo papel e pela incumbência de cuidar da cidade que existe. O mercado imobiliário não sabe recuperar edifícios, isso não desperta interesse”, nos diz em entrevista. Fajardo também nos conta suas ideias sobre a mostra na bienal, com projetos em que ativistas e membros de comunidade são o estopim para mudanças na arquitetura e no espaço urbano. São esses projetos que terão os holofotes no pavilhão brasileiro, na busca por trazer exemplos para responder à provocação do diretor da bienal, Alejandro Aravena: apresentar casos que, apesar das dificuldades e resignações, proponham e façam algo; arquiteturas que, apesar da escassez de meios, intensificam o que está disponível em vez de reclamarem do que está faltando.

E como falar de Aravena sem citar o surpreendente Pritzker deste ano. Anunciado dia 13 de janeiro – dois meses antes do que costumam fazer -, o prêmio foi para um arquiteto relativamente jovem, com 48 anos, e que foca seu trabalho em provocações. Seja na construção de uma habitação social não comum entre os projetos do tipo, em que o morador deve completar sua construção, seja em seus discursos que chamam o arquiteto para atuar e se aproximar do que a sociedade precisa. Como a resgatar um laço há muito perdido e um papel que o arquiteto pode e deve fazer muito bem nesses tempos de mudanças: pensar e fazer a cidade mais igualitária.
BIANCA ANTUNES