Aula de projeto: Clínica Muricy, em São Paulo

Boa parte do que conhecemos como Escola Paulista de Arquitetura caracterizou-se por residências paulistanas localizadas em bairros de baixa densidade como Pacaembu, Morumbi, Alto de Pinheiros, entre outros. Hoje, ainda que as preocupações dos arquitetos venham recaindo sobre grandes temas sociais e coletivos em busca de maiores adensamentos e compactação das cidades, a casa e outras pequenas edificações permanecem como referências para experimentação e valorização das práticas de projeto com ênfase na construção de valorosos posicionamentos estéticos. Com a evolução da cidade e novas formas de ocupação confirmadas por transformações na legislação de uso e ocupação do solo, bairros como Alto de Pinheiros, com baixa densidade, ruas arborizadas e ajardinadas, além de arsenal substantivo de obras modernas predominantemente residenciais, vêm transformando seus usos sem perder suas principais características físicas,  identificadas por pequenas edificações autônomas que conservam em suas linhas muitos dos princípios da arquitetura moderna, das estratégias compositivas e de experimentações materiais relevantes.

Surge assim, na Avenida Pedroso de Moraes, a Clínica Muricy, cujo programa é focado em tratamentos capilares e procedimentos estéticos de alto desempenho. Na perspectiva da construção da paisagem – uma das principais dimensões públicas da arquitetura – os elementos inseridos pós-concretagem são simples  e preservam a plasticidade definida pela estrutura. O branco dos painéis rebate-se no piso de pedras portuguesas também brancas e nas esquadrias da mesma cor do delicado muro/portão em alumínio anodizado branco com fechamento de vidro junto ao passeio.

A seguir os principais pontos do projeto.

IMPLANTAÇÃO

forma adotada para a implantação foi privilegiar seu assente em uma via em região nobre de planície e que está se transformando de uma modernidade residencial para a contemporaneidade.
A via-endereço conta com fluxo importante de veículos e boa infraestrutura urbana.

No nível térreo, se encontram, além da recepção, estacionamento, consultórios e sala de cirurgia totalmente aberta visualmente, por meio de grandes vidros, para a extensa área verde nos fundos.
O acesso ao interior é feito por meio de suave rampa que, assim como os sanitários e os vãos das portas, atende às normas de acessibilidade. Para atendimento das demandas programáticas da clínica e dos fluxos adequados, bem como da necessidade de rigorosa assepsia conforme padrões da Anvisa, a sala de cirurgia não contempla acessos cruzados, as torneiras possuem acionamentos por sensores, a área de expurgo é externa a essa sala e o espaço de armazenagem do lixo está situado em local de fácil acesso, entre outros itens específicos.

Já no pavimento superior, a clínica contou com um projeto flexível para usos e operações dados pelos ambientes projetados. Atendendo ao momento e demandas atuais, foram projetadas área para tratamento, assepsia,  administração, vestiário, sala de atendimento e sala do médico principal.

Todos os ambientes de permanência possuem iluminação natural nas fachadas frontal e direita a partir da Avenida Pedroso de Moraes e contam com a proteção e o controle passivo através dos
brises de chapas de alumínio perfuradas verticais móveis e molduras de concreto, bem como um terraço que dá visão ao jardim posterior no pavimento térreo. Destaca-se também a disposição  a
passarela que faz a conexão das duas alas do pavimento superior e ainda serve de apoio para a escada metálica que conecta os pavimentos térreo e superior.

Com dois pavimentos aparentes e a parte de serviços no subsolo, a área de acesso dos clientes e profissionais no dia a dia compõe-se por térreo e pavimento superior, ficando o refeitório, os depósitos e a casa de máquinas no subsolo. O projeto prevê boas condições de iluminação e ventilação, para garantir a salubridade e conforto dos ambientes no subsolo. Para a cobertura, acessada por alçapão, foi especificado teto verde, objetivando a diminuição da temperatura interna, redução do consumo de energia e melhorias relativas ao isolamento acústico da edificação. Nesse mesmo nível ainda está locada a caixa d’água, totalmente protegida por elementos vazados de concreto Neorex de modulação quadrada com 40 cm de lado.

Para a drenagem das águas pluviais foi especificado sistema de manta impermeabilizante Alwitra com pingadeiras metálicas nas bordas. Na face inferior da laje superior da moldura executou-se pingadeira por meio de um friso obtido na concretagem, tradicional solução recorrente na arquitetura paulistana.

FORMA E DESENHO DAS ENVOLTÓRIAS

A plasticidade da obra, conforme mencionado na apresentação, é dada pela suspensão do volume principal com molduras de concreto associadas aos planos de aberturas e que acaba por definir envoltórias com geometrias regulares. Além das molduras, destaca-se a empena inferior de alvenaria de blocos de concreto encabeçadas com rufos no limite superior.

s brises expressam a materialidade móvel do projeto, abertos ou fechados, controlando a iluminação natural e a permeabilidade visual das faces sudoeste [frontal] e sudeste, composto por aletas
de placas de alumínio perfuradas brancas.  E trabalham inscritos internamente às molduras em concreto aparente acopladas ao volume primário. A laje inferior da moldura é lida como continua ao piso do pavimento superior (veja a seguir detalhamento das molduras e platibandas).

O volume principal, conformado por uma caixa prismática suspensa, mostra-se por sua face frontal, que constrói a testada principal paralela ao passeio e delimita o acesso de pedestres e vagas para automóveis, cujo ingresso se dá através do portão principal de correr. Esse, por sua vez, é materializado por vidros encaixilhados em perfis de alumínio, pintados com tinta anodizada na cor branca. A face esquerda, que correspondente ao acesso principal de pedestres, revela um jogo de formas que confronta com a fachada oblíqua dos fundos. A leveza e a transparência dos vidros com a massa e desafios dos vãos e vazios são dados pelo reticulado de concreto aparente,  bem como um amplo jardim que atinge os limites dos fundos.

RAMPA DE ACESSO

Para acessar a clínica tem-se o atendimento total à norma de acessibilidade NBR 9.050. O desnível de 1 m da calçada à recepção é feito por rampa com patamar de descanso e na qual se tem as especificações do piso com elementos de sinalização tátil e corrimão de tubo de aço.

ESCADA PRINCIPAL INTERNA

A escada principal foi projetada de chapa  dobrada dupla de aço, conformada para se obter um perfil plissado, sendo o miolo preenchido e especificado em manta termo-acústica para garantir conforto acústico. O piso da escada é de revestimento cerâmico tipo porcelanato, assim como os demais pisos, atendendo com segurança e acessibilidade do pavimento térreo ao superior. A peça destaca-se pela sua expressão arquitetônica e estética como um elemento escultural e central. A saída e a chegada da escada são demarcadas com elementos táteis adesivos de aço inox.

Os guarda-corpos são de vidro temperado laminado, compostos com o corrimão tubular de aço inox.

Para dar maior profundidade ao jardim interno, no pavimento térreo, foi projetada uma placa de espelho que se delimita até o patamar, arrematada com junta e gaxeta de neoprene.

Através da planta do pavimento térreo, representada no corte ao lado, a otimização especial é dada por um detalhe simples em que parte do patamar avança na sala de cirurgia. Para este arremate apresenta-se o detalhe de projeto, onde se percebe no prolongamento da seção da viga a seção de gesso cartonado e junta de fechamento com gaxeta de neoprene.

Para o encontro do patamar e a alvenaria que divide os ambientes recepção e cirurgia, projetou-se dois perfis paralelos complementados por gaxetas de neoprene. As gaxetas de neoprene são recomendadas nessas juntas para compatibilizar materiais distintos em comportamentos mecânicos e físicos como a forma de distribuição de esforços, vibrações, dilatações etc.

GUARDA-CORPO DO TERRAÇO = VARANDA

O guarda corpo do terraço, para proporcionar transparência e permeabilidade visual, foi projetado de vidro laminado temperado com fixação e sustentação estruturada, tipo safe glass. A borda
superior da viga dá o apoio lateral ao guarda-corpo e possui um rufo metálico para proteger a face vertical da viga de respingos de água da chuva.

AS VIGAS COMO LIMITES DA FORMA DA EDIFICAÇÃO

Em oposição à geometria regrada da vista frontal da edificação, a vista posterior é privilegiada por um paisagismo minimalista. A angulosidade do terreno desafia as destacadas vigas em balanço, materializadas por concreto aparente e combinadas com vedações de vidro e alvenarias.

As vigas transparecem como delimitação espacial e inserção da obra na manta verde que se estende do jardim aos muros. As vigas paralelas em fitas soltas horizontais são os limites das caixas de vidro, coroadas por um jogo de vazios e coberturas em vidro. No piso superior as bordas do terraço são sustentadas pelas vigas V205 e V210 e  uma cobertura em vidro sobre as vigas V304 e V308, (veja plantas de fôrmas dos pavimentos superior e cobertura e detalhamentos descritos a seguir).

ELEMENTOS ESTRUTURAIS DE CONCRETO

Em destaque com linha tracejada estão as indicações das abas e beirais e que se encontram descritos a seguir e que se projetam no nível da cobertura como lajes em balanços: frontal e lateral esquerda do acesso principal em laranja, lateral direta amarela da fachada de serviços. Das plantas de fôrmas destacam-se:

1) Lajes maciças com espessura uniforme em ambos os pavimentos com 15 cm.

2) A partir da planta de fôrma fica clara a preocupação de se modular os painéis das fôrmas adequando-se esforço estrutural e etapa construtiva, vide hachuras em laranja nas extensões das vigas V206, V2010, V305 e V308, bem como sendo indicados cortes uniformes e equidistantes.

3) As indicações de aberturas, vazios e elementos construtivos específicos como as abas que definem os beirais. Do detalhamento destas vigas pode-se apontar e retomar conceitos importantes para a aplicação das estruturas em concreto que lhes garantem um desempenho adequado estrutural e de durabilidade.

1) Na representação técnica são mostradas na viga em elevação as identificações de seus apoios, pilares e vigas que se conectam a viga em análise e, normalmente com as disposições das armaduras longitudinais acima, as armaduras negativas que absorvem normalmente os esforços de tração na face superior e abaixo, as positivas em que os esforços de tração atuam na face inferior da viga.

a. Ao centro da elevação as linhas tracejadas representam as armaduras de pele, também denominadas de costela, que possuem a função de vigas com altura igual ou superior a
60 cm, absorvendo esforços devido a possíveis fissurações na superfície exposta e também devido às retrações do material. Por norma, NBR 6118, esta armadura deve ser de 0,10%  da área da alma para cada face e de 5 cm2/m, correspondendo ao limite superior de armadura na extensão da altura da face da viga segundo a revisão de 2014 dessa norma.

b. Cada barra de aço é  detalhada e se projeta para fora do desenho da elevação onde são indicados o seu nome, o diâmetro, quantidade, comprimentos e dobras.

c. No detalhamento das armaduras transversais, denominadas estribos, encontra-se especificado o nome da peça dobrada, a quantidade, a bitola = diâmetro da barra e seu espaçamento por metro. Bem como, lateralmente são demonstrados cortes da seção da viga com a disposição das bitolas longitudinais cortadas e o detalhamento do estribo com suas especificações e da qual se tem sua forma de dobra e comprimentos.

2) As vigas junto à fachada posterior do pavimento superior e cobertura, respectivamente V210 e V308, são as que possuem um vão = tramo de maior extensão de cerca 11,40 m e outro com cerca de 6,40 m. a. Nos tramos maiores, ~11,40 m, observa-se que possuem uma armadura positiva de maior seção de aço, mas também contam com a colaboração da armadura na posição negativa absorvendo as tensões de compressão junto com o concreto, o que se denomina em  dimensionamento e detalhamento de armadura dupla.

Como complemento a esta adoção de dimensionamento e detalhamento pode-se destacar comparativamente que em aulas de pré-dimensionamentos estas vigas poderiam ser indicadas com cerca de 95 cm (1/12 vão), mas notem que foram definidas com seção de 15X70 cm no piso superior e 15X60 cm na cobertura e com fck=30MPa. b. Destacados com um quadro em vermelho nas elevações de detalhamento das armaduras: da extremidade a direita das elevações das vigas do pavimento superior e da intersecção entre V210 & V205 e igualmente para as vigas da cobertura, V308 & V304, nota-se estribos abertos também denominados de armadura de suspensão que servem para absorver os esforços de cisalhamento e o mesmo se nota na extremidade à esquerda,
mas neste serve para os esforços que se transferem a aba de extensão das vigas V201 – da planta de forma do pavimento superior e V301 – da planta de fôrma da cobertura, ambas alinhadas
ao eixo estrutural A.

3) As vigas da lateral direta da edificação e locadas no pavimento superior e cobertura, V205 e V304, são de vãos moderados de 5 e 3,50 m, quatro apoios em pilares e um balanço. Nota-se
que no detalhamento, em destaque na elevação, há uma nota informando que as vigas e lajes serão ancoradas entre si quando concretadas.

ABAS E BEIRAS

Das indicações da planta de fôrma onde as abas e beirais correspondem: frontal em tracejado em laranja, lateral direta tracejado em amarelo – serviços e lateral esquerda verde – acesso principal,
descreve a seguir as característicassegundo suas posições destacadas da planta na próxima página:

DA FACHADA FRONTAL E LATERAL ESQUERDA DO ACESSO PRINCIPAL – TRACEJADO LARANJA

O beiral da fachada frontal em continuidade com as lajes do pavimento superior possui um recorte para fixação da base do quadro dos brises e, para escorrimento das águas pluviais, há o detalhe da pingadeira.

Para a conformação da caixa locada no andar térreo, a moldagem é única e na base da viga tem-se uma laje de menor comprimento, por esta condição e estar protegida pela laje em balanço superior não há pingadeira e sim uma inclinação da face superior que tem na borda espessura de 10 cm e junto a viga de apoio de 15 cm. Como se trata de peças monoliticamente unidas e armaduras que se ancoram entre si, há que se tomar a devida atenção na montagem das armaduras e como destacada em observação (OBS:) para que se realize a montagem conjunta entre peças. A armadura negativa da laje superior da caixa, como se apresenta em linhas tracejadas, é em leque e sua extensão conforma-se em estribo da viga de apoio dos beirais. O l aço tem a f unção estrutural de evitar que o e mpuxo, força resultante dos esforços de tração nas armaduras, não ocorra no vazio. Como estratégia construtiva há a indicação de manutenção dos escoramentos das lajes beirais até a completa cura do pavimento, devido à necessidade de obtenção da resistência estrutural especificada e em razão aos esforços entre lajes em fronteira.

LATERAL DIREITA – SERVIÇOS – TRACEJADO AMARELO

Da mesma forma o beiral da fachada lateral direita contempla armaduras negativas e p ositivas e a s eção neste caso é somente como beiral e apoio para o quadro dos brises, portanto possui  ma armadura mais simples, sem ser em laço, mas apresentando os detalhes de nicho para fixação do quadro dos brises e a pingadeira. Abaixo, à direita, o detalhamento das armaduras negativas que definem o canto onde se iniciam as abas: detalhe A.

ESCADA INTERNA PLISSADA

A escada interna que conduz a ligação dos pavimentos superior e subsolo, destinada aos médicos e serviços é em concreto armado aparente, contemplando nas duas faces corrimãos tubulares de aço inox.O revestimento do piso e o rodapé são de porcelanato ficando o espelho em concreto aparente.

POR SASQUIA OBATA
Docente dos cursos de arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e dos cursos de arquitetura e urbanismo e engenharia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Doutora em arquitetura, mestre em engenharia civil e Pós-Doutora em engenharia da produção em sistemas produtivos sustentáveis. Publicou o livro Construção Verde – Princípios e Práticas na Construção Residencial.

POR JOSÉ AUGUSTO ALY
Arquiteto graduado, mestre e doutor pela FAU-USP e professor da FAU da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 2001. Atualmente é coordenador de Cursos de Educação Continuada da mesma unidade daquela universidade. Além das atividade acadêmicas dirige o Escritório JAA+ Arquitetura e Consultoria SSL.

POR MARCIO PORTO
É formado em arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui mestrado pela FAU-USP, onde, a partir da dissertação de mestrado, publicou o livro O Processo de Projeto e a Sustentabilidade na Produção da Arquitetura (março/ 2010). Atuou em grandes escritórios de arquitetura em Nova York e na Califórnia. Marcio também realizou e coordenou projetos de diferentes portes como residências, fábricas, hotéis, escolas e centros administrativos. Atualmente, é sócio-diretor do escritório de arquitetura Sidonio Porto Arquitetos Associados, ganhador de vários prêmios do segmento e participante assíduo de exposições nacionais e internacionais como as Bienais de Arquitetura. Marcio também é professor de projeto da FAU Mackenzie desde 2013.