Ampliação do hotel Tierra Chiloé, do Mobil Arquitectos, camufla prédio na ilha chilena

O grupo de hotéis Tierra (Patagônia, Atacama e Chiloé) tem como uma de suas marcas a arquitetura adaptada  às técnicas locais e o mimetismo da implantação ao cenário natural de cada um dos ecossistemas nos  quais as unidades foram construídas. Recentemente, o Tierra Chiloé — que passou por ampliação que dobrou a capacidade de 12 para 24 apartamentos — foi destacado pela
Condé Nast Traveler Hot List, na lista de Travel + Leisure e em Fodor’s 100, surpreendendo por sua arquitetura vanguardista, que resgata, segundo o jure, a identidade do arquipélago de Chiloé. Além de um grande número de ilhas de menor tamanho, a região, situada ao sul do Chile, compreende a Ilha Grande de Chiloé, a quinta maior da América do Sul (depois da Terra do Fogo e as ilhas brasileiras de Marajó, Bananal e Tupinambarana).

O arquipélago tem uma população de cerca de 150 mil pessoas, e uma superfície de 9.181 km².

Obra da Mobil Arquitectos (Sebastián Morandé, Patricio Browne e Antonio Lipthay), o hotel foi construído em 2011 com o nome de Refugia, com uma superfície de 1.250 m², implantado em um terreno de 10 hectares com saída para o mar. “O hotel foi concebido como um novo ambiente da própria natureza, adicionado à paisagem local”, contam os arquitetos. Segundo os profissionais, o projeto é uma combinação dos elementos naturais e de técnicas de construção do próprio local, aliados ao design contemporâneo e à tecnologia.

A arquitetura inspirada nas tradicionais “palafitas” da ilha (casas construídas sobre pilotis à beira-mar) tem um desenho geométrico sustentável, que oferece um ambiente íntimo e acolhedor. Após um estudo minucioso sobre as condições climáticas e topográficas do terreno, os arquitetos do hotel chegaram a uma proposta que otimizou o uso de fontes naturais de energia. “O volume não interfere na paisagem local, mas invoca a materialidade e a cultura da ilha onde foi construído. Privilegiou–se, sobretudo, as vistas do Oceano Pacífico e da Cordilheira dos Andes”, contam os arquitetos.

Seguindo as antigas técnicas chilotas de carpintaria, o hotel, que tem estrutura mista metálica e de concreto armado — além de muros de contenção de cortina atirantada —, foi revestido com as clássicas telhas de madeira de alerce, em um trabalho realizado junto à comunidade local. Alerce é uma espécie milenar do sul do Chile de lento crescimento e da família das araucárias. Leve e re-sistente à umidade, é de fácil manejo por ser macia e apresenta pequena capacidade mecânica à flexão, considerada resistente em relação ao peso. Devido à grande exploração, pode ser encontrada atualmente apenas em áreas específicas da Cordilheira dos Andes e na Ilha de Chiloé.

O Projeto

“A implantação foi pensada do forma a promover uma espécie de ponte imaginária que conecta os elementos naturais dos dois lados e não altera a topografia original da gleba.” Essa ponte, segundo os arquitetos, suspende para o segundo plano os apartamentos, que tem o belverde privilegiado, e coloca as áreas comuns sob uma cobertura que proteja o observados para longe e promove a máxima entrada de luz. A lógica do design de interiores reforça a cultura local e promove a relação entre interior e exterior, com uma mescla de memória local e valorização de paisagem ao redor.

VOLUME SUSPENSO

Sobre pilares de concreto armado, o volume revestido de telhas de madeira — recurso estético que resulta em conforto térmico — parece flutuar sobre o talude. A topografia permanece intacta, salvo pelos muros de contenção, erguidos por segurança. A cobertura das áreas comuns, que é a base dos apartamentos dispostos no segundo nível, se projeta sobre a ribanceira e dá um efeito de marquise que emoldura a paisagem. O  contraste de luz entre dentro e fora promove a valorização do cromatismo  natural em torno do hotel. A caixilharia discreta dá  estanqueidade à fachada e bloqueia o vento excessivo vindo mar. Fixada sobre a base de concreto, estende-se esguia até os limites da  cobertura revestida de madeira. A paleta de cores limita-se ao cinze natural do concreto, ao tom avermelhado da alerce.

DADOS DA OBRA
ÁREA CONSTRUÍDA 2.552 m² (sendo 1.274 m² da ampliação)
CONCLUSÃO DA PRIMEIRA FASE 2011
CONCLUSÃO DA AMPLIAÇÃO 2017 (segunda ala)

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA, INTERIORES E DECORAÇÃO Marcos Bertoldi
CÁLCULO ESTRUTURAL Tramo Engenharia
CONSTRUÇÃO Construtora Greenwood
ARQUITETURA Mobil Arquitectos — Sebastián Morandé, Patricio Browne, Antonio Lipthay, Lorena Perez e Maria Jose Martinez
COLABORADORES Sylvain Eymard-duvernay e Martin Basch
CONSTRUÇÃO: Constructora Lahuen
INSPEÇÃO TÉCNICA DA OBRA Juan Eduardo Mujica, Octavio Ayancan e Fabian Ketterer
ILUMINAÇÃO Greene-düring Iluminación
INTERIORES Alexandra Edwards e Carolina Delpiano

POR GUSTAVO CURCIO