Ícone do Parque Farroupilha e da arquitetura moderna brasileira, Auditório Araújo Vianna tem retrofit do MooMAA implementado parcialmente

De anfiteatro ao ar livre a uma das mais modernas salas de espetáculos da capital gaúcha, o Auditório Araújo Vianna, no Parque Farroupilha, é dono de uma respeitável trajetória de mais de meio século, entrelaçada com a memória da própria cidade.

Concebido durante o movimento de vanguarda da arquitetura moderna brasileira, na década de 1950, o projeto nasceu das pranchetas dos arquitetos Carlos Maximiliano Fayet e Moacyr Moojen Marques, então funcionários da Divisão de Urbanismo da Secretaria de Obras da prefeitura de Porto Alegre. Decretada a desativação da primeira versão do auditório, que ficava na Praça da Matriz (veja a linha do tempo), a dupla teve como missão colaborar com a escolha de um local para a sua implantação, desenvolver o projeto arquitetônico e administrar a obra.

O novo auditório, com capacidade para 4.500 pessoas, não demorou a cair nas graças do público, e começou a ser conhecido como uma das mais importantes casas de rock e MPB do Sul do país. Desde sua inauguração, em 1964, exibiu lendárias apresentações musicais, e também manifestações políticas, assembleias, palestras e até as primeiras edições do Fórum Mundial Social, a partir de 2001.

TOPOGRAFIA GARANTE VISIBILIDADE
Tecnicamente, a proposta de Fayet e Moojen teve como um dos principais trunfos a topografia de declive acentuado na área da plateia, conquistada com movimentação artificial de terra, que garantiu excelente visibilidade a todos os assentos. O projeto de acústica foi elaborado pelo engenheiro Roberto Paulo Richter, que desenhou uma eficiente concha acústica de formato geométrico invulgar, marcada por planos fracionados com faces de reflexão em várias direções.

No que diz respeito à volumetria, o anfiteatro foi baseado na criação de uma sequência de paredes soltas, sem fechamento, sob uma marquise unificadora em formato ovoide: a solução foi pensada para favorecer a evacuação após o término dos espetáculos, permitindo a saída de uma plateia lotada em menos de cinco minutos.

COBRIR OU NÃO COBRIR, EIS A QUESTÃO
Em relação à polêmica de proteger ou não o auditório de intempéries, os autores do projeto sempre se posicionaram contrários a essa ideia: “Primeiro, porque o céu e as estrelas eram sua cobertura natural. Segundo, porque qualquer fechamento acrescentaria volume à construção, contrariando a diretriz original, que procurou desde o início mimetizá-la na paisagem do parque”, declara Moacyr Moojen Marques.

“Em que pese as limitações de utilização e o desconforto ocasionado periodicamente pelas características climáticas de Porto Alegre, as excelentes condições visuais e acústicas para a plateia do anfiteatro em uso ganham singularidade com a presença subliminar do céu na cena do espetáculo. Não é em todos os dias do ano que se pode banhar no mar, ou se sentar à frente do fogo. Mas assistir a um espetáculo, em uma noite de verão, com o ar fresco no rosto e as estrelas no olhar é uma qualidade que faz outras limitações fazerem sentido”, completa o arquiteto Sergio Marques, filho de Moacyr e seu parceiro no escritório Moojen & Marques Arquitetos Associados (MooMAA).

Esse, porém, foi um dos capítulos mais controversos da história do Araújo Vianna, debatido durante mais de 30 anos entre o poder público e a população. Um primeiro estudo da cobertura foi esboçado já em 1976, mas não saiu do papel. No fim da década de 1980, despontaram propostas sobre novas maneiras de pensar e utilizar o espaço, motivando a prefeitura para que, em 1994, fosse realizado um projeto definitivo de cobertura, a cargo dos autores da proposta original.

Por restrições de orçamento, a solução empregada foi a instalação de um sistema de membrana tracionada, espécie de lona adaptada à forma já existente. “A cobertura foi armada com uma estrutura espacial em pórtico, apoiada no solo em quatro pontos mínimos, dispostos assimetricamente para compensar o desnível interno”, detalha Sergio Marques. Na mesma obra, foram realizados a recuperação da plateia com novas poltronas e um recondicionamento geral do auditório.

Em 1996, o Araújo Vianna, agora coberto, foi reinaugurado com um histórico show de João Gilberto, e funcionou nessas condições até o limite de durabilidade da lona que, segundo um laudo técnico da Secretaria Municipal de Obras e Viação, perdeu sua validade em 2002. O material nunca foi substituído e, sob o risco de acidentes, o espaço acabou fechado pela prefeitura em 2005, permanecendo sete anos de portas fechadas.

PRESENTE E FUTURO
A reviravolta se deu a partir de 2007, com a publicação de um edital de licitação para a recuperação do auditório envolvendo a primeira parceria público-privada do setor cultural de Porto Alegre. A empresa Opus Promoções foi a vencedora da concorrência, ficando encarregada de executar a obra em troca da licença de uso de 75% das datas anuais do auditório por um período de dez anos.

Novamente, o MooMAA foi contratado para repensar o auditório, em uma intervenção que teve início em 2008 e prosseguiu até a sua segunda reinauguração, em 2012, com as obras parcialmente realizadas. Convertido em um teatro para 3.500 pessoas, o Araújo Vianna foi finalmente coberto de maneira apropriada: recuperado, o pórtico metálico construído na década de 1990 passou a suportar, em vez de uma lona tensionada, uma cobertura rígida formada por uma rede de treliças com forro de madeira termoacústico, sobreposta por uma manta de borracha.

O projeto incluiu ainda o fechamento lateral de todo o auditório com painéis metálicos pivotantes; a reconstrução e a ampliação do palco com a neutralização da concha acústica, sem contudo eliminá-la; a atualização das instalações elétricas e hidráulicas; a incorporação de arcondicionado central; a recuperação de toda a área da plateia, com restauro das poltronas projetadas por Fayet e Moojen na primeira reforma; a restauração de toda a retaguarda do auditório (administração, camarins, salas de ensaio etc.); a adequação à acessibilidade universal; e a criação de novos bares, banheiros e bilheterias.

Entre os itens previstos no projeto e ainda não executados, estão o paisagismo e a pavimentação de toda o entorno do auditório; a iluminação arquitetônica interna e externa para todo o complexo (realizada em partes); e o projeto de um estacionamento subterrâneo, com serviços de drive-in e piscina pública sob o Estádio Ramiro Souto, adjacente ao auditório.

Linha do tempo

1927Junto à Praça da Matriz na ágora de Porto Alegre, é construída a primeira versão  1  do Auditório Araújo Vianna, anfiteatro a céu aberto delimitado por pérgulas e com bancos de praça como assentos. Projeto de José Wiederspahn e Arnaldo Boni.

1958
Os arquitetos Carlos Maximiliano Fayet e Moacyr Moojen Marques elaboram os primeiros estudos para a criação de um espaço em substituição ao anfiteatro da Matriz, que será desativado para dar lugar à nova sede da Assembleia Legislativa do estado.

1964
O Auditório Araújo Vianna é inaugurado no Parque Farroupilha  2.

1996
Implementação do primeiro projeto de cobertura, com solução temporária de lona tensionada.

1997
O Parque Farroupilha é tombado como patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre juntamente com todos os seus equipamentos inclusive o auditório  3 .

2005
Fechamento temporário do Auditório Araújo Vianna por motivos de segurança.

2012
Reinauguração do Araújo Vianna como uma sala de espetáculos, com nova cobertura rígida, fechamento lateral, ampliação do palco e reformulação completa das instalações  4 .

 

o futuro
O projeto segue em aberto e o Araújo Vianna continua vivo, à espera dos complementos das próximas intervenções já planejadas.

Por Carine Savieto