Com experiência de quatro décadas na readequação da arquitetura colonial, Renato Tavolaro mostra como intervir — por meio de releitura do patrimônio histórico ou inserção de elementos contemporâneos — de forma coerente

Formado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie no fim a década de 1970, desde menino Renato Tavolaro se encantou pela estética sui generis do colonial português no Brasil. “Lembro-me, ainda menino, como me espantava com a grandiosidade da arquitetura durante visitas à fazenda com o meu pai”, conta. A carreira iniciada como desenhista, ainda durante a graduação, encontrou caminho na trajetória entre São Paulo e Paraty, celeiro de grande parte da produção de Tavolaro.

Reconhecido pelo estilo e traçado próprios, o arquiteto tem como marca a intervenção consciente, que com maestria vence os desafios da linha tênue da adaptação do colonial aos tempos modernos. O diálogo entre o velho e o novo, para Tavolaro, é primordial. Para isso, avalia com critério o limite da intervenção. A linguagem, a escolha dos materiais e o restauro fiel às origens são alguns dos elementos essenciais à sua arquitetura. Trabalha com a oposição – inserindo elementos completamente “estranhos” à estética original – e a recuperação fiel da planta original. “Assim, deixo claro ao observador o que é intervenção e o que é original”, explica.

Os desafios ao longo da profícua carreira, que não se resumem apenas ao retrofit, se mostraram desde o início. Recém-formado, foi encarregado de elaborar proposta de adaptação e restauro de um emblemático casarão no centro histórico de Paraty para uma pousada de 45 apartamentos. A Pousada do Ouro, localizada na antiga Rua da Praia, hoje Rua Dr. Pereira, preserva a fachada típica do século 18 e teve êxito na intervenção proposta por Tavolaro.

A chave para o sucesso do arquiteto está no acompanhamento acirrado dos trabalhos durante a execução do projeto. “É essencial ter muito critério antes de intervir nesse tipo de edificação”, alerta. A bagagem acumulada ao longo dos 40 anos de carreira dá subsídio à resolução de problemas que passam pela contenção de estruturas à beira da ruptura – com o apoio de equipe de engenheiros – e chega a detalhes de mobiliário e decoração. “Procuro, sempre que possível, assumir o projeto integralmente, até a fase de decoração”, conta.

Conte-nos como o restauro entrou em sua trajetória.
Antes mesmo de me formar, fui chamado para fazer um trabalho de restauração em Paraty. Era uma casa que estava com problemas estruturais. Eu fiz o projeto. Já na fase de execução, eu conheci o mestre de obras, que, embora fosse analfabeto e não soubesse ler uma planta de arquitetura, tinha uma longa experiência no trabalho com as casas da cidade – e uma memória incrível. Foi um momento de transição em Paraty. Muita gente comprou casas antigas, quase em ruínas, no centro histórico, e eu comecei a assumir um projeto atrás do outro. Foi então que resolvi, junto com um sócio – ex-colega de faculdade – me fixar lá. Alugamos a casa que eu tinha restaurado e começamos a expandir o escritório com as obras de recuperação. Nós projetávamos e acompanhávamos as obras. Construíamos mesmo. E atravessávamos a cidade de bicicleta.

Como começou seu interesse pela cidade? Você é de lá?
Não, eu sou natural de São Paulo. Mas na época da faculdade fazíamos muitas viagens a Paraty, justamente pela questão da arquitetura original da cidade. Eu tinha também um parente que comprou terras naquela região e me chamou para fazer casa. Logo em seguida, a prefeitura constatou que uma casa, bem maior, estava com risco de desmoronamento. Então, fui chamado para transformá-la em uma pousada. No meio da obra, o proprietário perguntou: “Mas quem vai cuidar dessa pousada?”. Aí eu respondi: eu. Eu arrendei a Pousada do Ouro. Eu não fiz só a arquitetura, mas todo o projeto de decoração. Nessa época, eu morava mais lá do que em São Paulo. Eu fiquei 18 anos ali. Mas, com a morte do meu sócio, eu desisti de ficar por lá e resolvi tocar as coisas de São Paulo. Então eu deixei a pousada. Em Paraty, já naquela época, eu já tinha saído um pouco do centro histórico e ido trabalhar na região de encostas.

O equilíbrio entre a estrutura original e as intervenções contemporâneas define a linguagem do arquiteto

“Reconhecido pelo estilo e traçado próprios, o arquiteto tem como marca a intervenção consciente, que com maestria vence os desafios da linha tênue da adaptação do colonial aos tempos modernos. O diálogo entre o velho e o novo, para Tavolaro, é essencial”

Fale sobre outros trabalhos emblemáticos na região.
Recentemente eu fiz um trabalho de restauro e modernização de um projeto meu de 1981. A casa passou, nesse meio-tempo, por três proprietários, e o último me chamou para fazer esse trabalho. Eu tive a orpotunidade de modernizar um projeto meu. É uma casa que ocupa dois terrenos. Eu refiz a casa em que já tinha trabalhado. A construção ao lado chegou a cair. Então, ganhei o terreno anexo. Conversei com a equipe do patrimônio histórico e nós viabilizamos um projeto adjacente em forma de terraço, do tipo varanda. Essa casa tem uma porta e duas janelas. Em Paraty, a gente mede o tamanho das casas pela quantidade de portas e janelas.

Ao longo de todos esses anos, como o senhor avalia a mudança no perfil dos clientes?
O cliente da década de 1970 é completamente diferente do cliente de hoje. O estilo de vida contemporâneo se reflete na conformação dos espaços. A integração dos ambientes é o pedido mais comum. Nessa minha casa que refiz, esse foi o primeiro pedido do cliente: juntar a cozinha e a sala. As famílias mudaram. Hoje muita gente gosta de cozinhar, de estar junto nesse momento. A lógica hoje é inverter os usos: uma área técnica pode dar origem a um dormitório, por exemplo.

“É claro que as questões relativas ao patrimônio devem seguir uma cartilha de regras. No entanto, para que haja sucesso nas intervenções, é fundamental que cada caso seja olhado separadamente, considerando suas particularidades. Bom senso é a chave para interpretar as regras de preservação arquitetônica do patrimônio sem engessar os projetos de modernização.”

Da recuperação ao projeto de mobiliário, a atuação de Renato Tavolaro passa por minucioso acompanhamento da execução
A marquise metálica se projeta como o limite entre o velho e o novo

O senhor é um vanguardista quando se fala em retrofit no Brasil. As suas intervenções modernizam o imóvel sem ferir o patrimônio. Qual é o limite da interferência?
Isso depende do critério estabelecido pelo profissional. A leitura cuidadosa da construção original é a chave para descobrir a nova vocação do imóvel. A área sob cobertura de uma casa de Paraty pode dar origem a um dormitório. Mas, para isso ocorrer, é necessário introduzir uma interferência no telhado para dar respiro ao cômodo. É aí que o critério entra em cena: o ideal é evidenciar a intervenção como um elemento colocado posteriormente, com uma linguagem contemporânea, que o destaque do conjunto. A outra opção, na minha opinião equivocada, seria tentar reproduzir uma janela com estilo colonial. É aí que a interferência destrói o original. Em vez de mascarar a intervenção, prefiro torná-la evidente. É claro que as questões relativas ao patrimônio devem seguir uma cartilha de regras. No entanto, para que haja sucesso nas intervenções, é fundamental que cada caso seja olhado separadamente, considerando suas particularidades. Bom senso é a chave para interpretar as regras de preservação arquitetônica do patrimônio sem engessar os projetos de modernização. Por exemplo: a regra diz que é possível fazer aberturas no telhado, desde que viradas para a parte interna do lote, sem interferir na fachada do imóvel. No entanto, isso não significa que o arquiteto pode chegar lá e estucar uma mansarda em estilo holandês no meio do centro histórico de Paraty. Nesse caso, o ideal é levantar uma pestana discreta no telhado. O mesmo vale para cópias de estilos. Muita gente copiou nas intervenções o desenho das janelas da casa de D. João, que é única em Paraty. Quando eu fiz a Pousada do Ouro, eu encontrei um sobrado autêntico, virgem. Naquele caso, eu substituí fielmente toda a parte deteriorada, preservando a estética e os materiais originais. As intervenções contemporâneas servem justamente para abrigar as instalações de infraestrutura, fundamentais para o funcionamento do hotel.

Diante das limitações da questão de infraestrutura hidráulica e elétrica, qual é então o seu critério de interveção?
Eu sempre interfiro o mínimo possível na construção original. O assoalho de madeira do primeiro andar é originalmente o forro do andar debaixo. O problema está na movimentação que ocorre naturalmente em estruturas de madeira. Com o tempo, abremse frestas entre os sarrafos. Nesse caso, eu soluciono dois problemas sem alterar o aspecto original da construção. Com um sanduíche sobre a estrutura do forro, com tratamento termoacústico, eu resolvo a questão da privacidade e aproveito para passar a tubulação da infraestrutura elétrica e hidráulica. Toda vez que tenho dúvidas sobre a eficácia da camuflagem das intervenções eu opto pelo contrário, que é justamente evidenciar o novo. Esse é o caso de estruturas de concreto ou aço. Isso faz com que o observador entenda de cara o que é velho e o que é novo.

“Eu gosto, em primeiro lugar, de evidenciar o autêntico. Em Paraty, essa autenticidade está justamente no uso da pedra como elemento estrutural. Em muitos casos, opto por descascar as paredes para mostrar a pedra original.”

A estrutura original do casarão da fazenda foi envolvida por estrutura nova, com base de pedra aparente e barrotes sequenciais de madeira. A releitura caixilharia colonial reforça a memória do edifício

Quais são os principais materiais usados nessas interveções?
Eu gosto, em primeiro lugar, de evidenciar o autêntico. Em Paraty, essa autenticidade está justamente no uso da pedra como elemento estrutural. Em muitos casos, opto por descascar as paredes para mostrar a pedra original. O emboço, com a maresia, se destrói com o tempo. É comum ouvir dizer que as paredes estão “chorando”. É a umidade salgada que brota pelas paredes e destrói o revestimento. Evidentemente, faz-se um trabalho de impermeabilização e tratamento das fundações, para bloquear a subida da água por capilaridade. Mas, como partido de projeto, é um bom caminho deixar as paredes nuas, para evitar que o emboço acabe.

Aço, madeira e pedras: as intervenções de Tavolaro evidenciam elementos naturais com traço marcante. Em meio à profusão de detalhes de estrutura original dos dos edifícios restaurados, o traço contemporâneo cria nova linguagem em torno do antigo

De que forma o senhor garante a qualidade da execução de projetos?
Eu tenho uma equipe em Paraty que trabalha comigo há anos. O mestre de obras está numa família que atua nesse negócio até hoje. A terceira geração deles está bem capacitada. Um neto é engenheiro e uma neta é arquiteta. Eles trabalham comigo e garantem o acompanhamento da obra em tempo real. Isso não significa que eu esteja longe da obra. Eu acompanho a obra full time. Presencialmente ou de forma remota, com ajuda da tecnologia, vou e volto de Paraty inúmeras vezes ao longo do processo.

Qual é, então, a chave para valorizar a memória no retrofit colonial?
Eu projetei a revitalização de uma fazenda exatamente pela minha experiência de restauro. Era o casarão de uma fazenda colonial. Os proprietários queriam uma ampliação. Todo o anexo eu fiz com linguagem contemporânea, numa estrutura que abraçou os dois lados da estrutura original. Nesse caso, mantive a estrutura principal de pedra e trabalhei uma releitura da linguagem colonial com barrotes de madeira aparente. Na cobertura, eu optei por aço aparente. Mas a conversa entre todos esses elementos é fundamental. Envolver a estrutura original devidamente preservada com o novo é justamente a chave para valorizar e colocar em foco o patrimônio histórico.

Por Marília Muylaert