Despretensiosa na linguagem arquitetônica e construída com materiais baratos e simples, casa projetada para ambulante mobiliza comunidade paraguaia para ser erguida

Luis Villasanti, conhecido como Lui, vende chicletes há 45 anos na saída dos colégios de Mariano Roque Alonso, no Paraguai. Falante, alegre e brincalhão, sempre com uma anedota para contar, é querido por toda a comunidade. Tão querido que, quando falou a um amigo que precisava de uma casa própria, cerca de 1.500 pessoas da cidade se mobilizaram para ajudá-lo a erguer sua residência. Projetada pelo escritório Oficina Comunitaria de Arquitectura (OCA), a Vivienda Lui, como foi apelidada a sua casa, de linguagem arquitetônica despretensiosa, foi erguida com a menor quantidade de elementos arquitetônicos e construtivos possível.

“Os materiais são simples e facilmente encontrados no mercado: piso cerâmico e de cimento, tijolos cerâmicos, telhado de zinco e estrutura metálica”, afirma o arquiteto Luis Godoy, diretor do escritório OCA. Ele conta que a busca do essencial acabou se refletindo na casa, materializada pela arquitetura singela. “É uma linguagem que determina uma riqueza no simples, no humano, no local e no necessário”, conta o arquiteto.

MATÉRIA-PRIMA RECICLADA

Além da simplicidade, o projeto de arquitetura privilegia a flexibilidade espacial por meio de uma planta livre e de aberturas como as duas portas deslizantes (2,50 m x 2,40 m) feitas de páletes de madeira reciclados e estrutura metálica. Quando abertas, as portas permitem ventilação cruzada e ampliam o espaço de 30 m2 para 50 m2, estabelecendo uma continuidade entre o piso cimentício interno e o cerâmico, externo.

Além de ser favorecido pela ventilação cruzada, o conforto térmico é beneficiado pelo isolamento proporcionado pela câmara de ar criada entre o telhado de zinco e o forro de páletes reaproveitados, antes usados como suportes para transportar mercadorias em contêineres. As janelas horizontais fixas, instaladas em diferentes alturas das fachadas, deixam a luz natural entrar, assim como a telha de policarbonato, instalada no centro da cobertura.

PROJETO E ORÇAMENTO MODESTOS

Erguida com apenas US$ 9 mil, dinheiro arrecadado em 45 dias pelos alunos dos colégios onde Lui vende as guloseimas, a casa foi projetada para futuramente funcionar como um quiosque para venda dos doces (na janela da cozinha), quando Lui não tiver mais condições físicas de empurrar seu carrinho por causa da idade.

Para o arquiteto, a Vivienda Lui é mais do que um projeto: é uma lição de vida, uma demonstração de como viver a vida de maneira essencial. “A pergunta a ser feita é: por que tantas pessoas o ajudaram? Lui nos deixa um ensinamento valiosíssimo, que é o de que não há cliente que não possa pagar. Ele nos deixa a lição de que a qualidade humana, o valor pessoal, gera um ativo sumamente importante, que não pode ser poupado em um banco nem ser medido pela economia, mas sim pela vida. É algo que se consegue a partir da alegria, de ser amável, solidário, empático, além de bom comerciante”, conclui Godoy

Por: Valentina Figuerola