Design do móvel popular: metodologia do projeto do mobiliário para a Nova Classe Média

Muito se discute sobre a casa popular na academia voltada ao estudo de design e arquitetura. Mas o que define uma casa como tal? Quais são as razões ou características que fazem de uma habitação uma casa popular? A definição mais comum transcende o significado básico encontrado nos dicionários para o termo popular: “Relativo ou pertencente ao povo. Que é usado ou comum entre o povo. Que é do agrado do povo”. (Aurélio, 2014) Mas o próprio dicionário traz como definição para o adjetivo o significado atrelado ao termo popular quando usado junto da casa: “Vulgar”. No Brasil, entende-se por casa popular a moradia de baixa renda. “Muitos são os nomes usados para designar essa forma de construção: casas domingueiras, casas de periferia, casas próprias autoconstruídas, casas de mutirão.” (Bonduki, 1998) Se popular é então, na essência, o relativo ao povo, tem-se, portanto, a casa da maioria, da maior faixa de renda brasileira, como objeto de análise. No contexto da década de 2000, com ênfase na política habitacional incentivada pelos governos Lula e Dilma, maioria significa Nova Classe Média (que será definida a seguir). Habitação popular é “a moradia proletária, ocupada pelos trabalhadores urbanos”. (Folz, 2003)

Este artigo expõe a análise da inserção do móvel popular na casa popular brasileira e considera essa a moradia da Nova Classe Média, que representa hoje a maioria da população brasileira. Móvel popular é o mobiliário inserido na casa popular, e tem suas características específicas no contexto nacional. Seu design (forma, função) é específico e define a qualidade do uso dos ambientes dessa habitação. A tese de doutorado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo expôs os resultados de pesquisa acadêmica aplicada e demonstrou a capacidade de atuação de arquitetos e designers junto à Nova Classe Média brasileira.

GUARDA-ROUPA CONFETTI, DA MEU MÓVEL DE MADEIRA NOTA: Este artigo apresenta os resultados de pesquisa de pós-doutorado realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

O design trabalha fundamentalmente visando unir a função de um determinado objeto à plasticidade da sua forma. Podese dizer que a funcionalidade é resultado de uma boa plasticidade da forma. Essa é a mais comum definição de design. O designer, entretanto, é responsável por muitos outros atributos do objeto criado. Esses consistem na forma, na estrutura, nos materiais empregados, no mecanismo, no acabamento, e muitas vezes nas suas embalagem e publicidade.

Essa definição, entretanto, exprime muito mais o aspecto teórico do design do que realmente aquilo a que deveria se propor. A verdadeira definição do desenho industrial deve ser vista como “(…) um processo de eleição de critérios de eficiência social e de uso do produto, de racionalização dos recursos disponíveis e de meio de transferência dos resultados das pesquisas científicas ao sistema produtivo”. (Bonsiepe, 1980)

Um dos principais aspectos relacionados à atividade projetual do designer trata da simplicidade que o produto deve apresentar. Cabe ao designer buscar no projeto de um objeto de uso comum eficiência econômica máxima. O importante é aliar o conceito de simplicidade e economia à estética e à plasticidade da forma. Essa é a árdua tarefa a ser desempenhada pelo profissional.

É dever do designer levar em conta, quando projeta, a praticidade e eficácia do produto. Entretanto, a forma e a aparência determinam diretamente o indivíduo para o qual é destinado o objeto a ser desenvolvido. No caso do mobiliário, objeto de análise desta pesquisa, deve-se considerar principalmente a configuração da moradia na qual será inserido o produto.

Tomas Maldonado, em uma de suas conferências, no ano de 1963, afirmou: “O desenho industrial é uma atividade que consiste em determinar as propriedades formais de um objeto produzido industrialmente”. Em seguida, ele explica o que seriam essas propriedades formais: “(…) por propriedades formais não se deve entender somente as características exteriores, mas, sobretudo, as relações funcionais e estruturais que fazem com que um projeto tenha uma unidade coerente (…)”.

A definição proposta por Maldonado se completa quando adiciona-se à criação da forma de maneira funcional e prática, o contexto de inserção do objeto. O contexto socioeconômico, a estrutura tecnológica empregada e a complexidade do produto determinam de maneira decisiva suas características finais.

Ao desenhista industrial, competem as partes dos produtos com as quais o usuário entra em relação direta perceptiva e operativamente. Tendo como base esse aspecto da atividade do designer, pode-se perceber a importância de conhecer o perfil do indivíduo ao qual o mobiliário é destinado. Nesse sentido, a escolha de um usuário desse ou daquele objeto pode determinar a qualidade de uso do espaço que ele tem disponível em sua moradia.

Design e arquitetura são os objetos de estudo desse trabalho. Sabe-se que inúmeros conceitos já explorados num cenário arquitetônico podem ser aplicados ao campo do desenho industrial. O arquiteto, no entanto, pode se expressar da maneira que desejar, e a técnica será submetida à sua proposta. Já o designer deve se preocupar muito com a técnica, pensando que a proposta de um móvel muito diferente das formas de produção já empregadas pode não conseguir a execução do seu produto, ou encarecê-lo de maneira considerável. Contudo, tanto o arquiteto quanto o desenhista industrial devem se preocupar com o ambiente cultural para o qual estão projetando. A cultura determina a real necessidade do objeto e a adaptação por parte do usuário ao tentar manipular ou utilizar o produto do projeto. Esse aspecto pode ser observado em ambas as áreas.

“A atuação do designer/arquiteto pode influenciar de maneira positiva o aproveitamento dos espaços internos da moradia popular brasileira, mesmo que se faça uso do mobiliário e dos equipamentos disponíveis em lojas populares para o projeto e disposição funcional dentro do espaço construído.” (Curcio, 2015)

A proposta de um estudo das habitações mínimas e da qualidade do mobiliário utilizado pelos indivíduos reafirma a real necessidade de um arquiteto/designer preocupado com as questões ligadas ao social.

A busca de soluções de problemas tão urgentes numa sociedade como a brasileira deve ser cultivada por todo tipo, de profissional. Dessa forma, levantou-se, dentre uma série de possibilidades do designer/arquiteto atuar socialmente no campo do mobiliário, a publicação de matérias veiculadas em mídia impressa, especificamente no meio revista.

Um trabalho deste cunho, desenvolvido numa Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, contribui para a formação de cidadãos diferenciados, preocupados com o desenvolvimento de toda a sociedade brasileira, utilizando todo o conteúdo obtido ao longo de sua formação universitária, programa de mestrado e doutorado, também para o bem comum.

As unidades habitacionais de interesse social têm sofrido com a redução de seu espaço interno ao longo dos anos. Nos últimos dez anos, programas de habitação desenvolvidos pelo governo federal como o Minha Casa Minha Vida têm democratizado o processo de aquisição de moradias de baixo custo, produzidas em parceria com grandes empreiteiras e a prefeitura dos municípios. Trata-se de um auxílio ao crédito que incentiva a produção de moradias populares pela iniciativa privada. Dessa forma, busca-se suprir o déficit habitacional sem a dependência total do sistema público de produção de moradia. Nota-se, entretanto, que o mobiliário disposto nos ambientes, sejam eles produzidos pela iniciativa privada, autoconstruções ou unidade habitacionais de governo, não se adapta devidamente à configuração dos espaços internos.

O crescimento desgovernado e caótico das metrópoles brasileiras influencia de maneira decisiva o comportamento de toda a população, incluindo os indivíduos que habitam moradias autoconstruídas ou produzidas por programas governamentais. As necessidades humanas de cada população devem ser supridas inclusive através do uso dos objetos que compõem o seu respectivo lar. Nesse sentido, cabe a esta proposta de trabalho a análise da essência do pensamento de concepção de projeto intrínseco à atividade projetual do designer e a avaliação da possibilidade de atuação do arquiteto na melhoria do aproveitamento desses espaços. “A contribuição dos projetistas, dos designers, tanto na concepção do empreendimento quanto na concepção de ações para integrá-lo ao tecido urbano (vizinhança) é essencial para o sucesso na construção de moradias(…)” (Bismarchi, 2013)

Em perspectiva análoga, Francis Beaucire discute a conformação da metrópole contemporânea em La Forme des Villes et le Développement Durable, afirmando: “(…) la ville éclatée qui s”est construite sur le terrain tourne le dos à la ville dense et diverse souhauitée par la plupart des urbanistes”1.

A colocação de Beaucire abre uma discussão para a existência de um paralelo interessante entre a constituição física da metrópole como objeto de suposta unidade e a produção de objetos para as então definidas partes que compõem esse único organismo funcional. As metrópoles brasileiras, ilustrando-se a tese principalmente com fenômenos peculiares às extremidades da cidade de São Paulo, caracterizam-se dentre outras coisas pela criação de imensos conjuntos habitacionais dispostos à margem do tecido urbano já existente, gerando assim uma segregação dessa porção de “cidade” em detrimento ao todo já definido como perímetro urbano. Segundo a professora Marli Namur, do departamento de Planejamento Urbano e Regional da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, tem-se: “(…) há uma clara diferença entre a teoria e a concepção ideal do desenvolvimento urbano. A principal diretriz deve levar em conta a eliminação dos chamados vazios urbanos. Caso não seja possível ocupá-los como prioridade, deve-se implantar o conjunto imediatamente à margem da trama urbana, dando continuidade à periferia, eliminando os espaços vazios”2.

A continuidade ou a descontinuidade de um determinado trecho urbano construído indica também uma mudança de estado no âmbito cultural. Há, nesses casos, mudança social, mudança de costumes, mudança de vida. Na maioria deles, esse fenômeno indica segregação urbana e delimita duas ou mais concentrações populacionais de natureza socioeconômica distinta. Dessa forma, pode-se entender a consequência desse aspecto urbanístico no mobiliário utilizado por tais populações nos diferentes casos.

Ao longo dos últimos dez anos verificouse um enriquecimento da população brasileira mais carente. Segundo estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo em agosto de 2008, 17,4 milhões de pessoas ingressaram na Nova Classe Média brasileira entre 2002 e 2008. O mesmo estudo ainda afirma que 97% da população era formada por essa Nova Classe Média, o que representava 45% da renda gerada no país. Segundo o Salão Imobiliário de São Paulo, 50% da venda de imóveis em 2009 foi de unidades consideradas populares (com valor inferior a R$ 115.000). A presente pesquisa tem como objeto de estudo famílias com renda familiar entre R$ 1.064 e R$ 4.561. A área média das unidades habitacionais analisadas gira em torno dos 50 m2 e varia de acordo com a região de estudo.

Muitos autores colocam o trabalho do designer como fruto da busca de um equilíbrio estético entre a função, a forma e a necessidade. O estudo da obra de Gui Bonsiepe3 e aponta para a necessidade de um projeto de mobiliário de interesse social, foco principal deste trabalho, que teve como bases conceituais diferentes fontes, sendo elas o trabalho como discente do Programa de Pós-Graduação em Design e Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a orientação e as investigações da professora Maria Cecília Loschiavo dos Santos e os estudos bibliográficos e de campo realizados durante a vigência desta pesquisa. O contato com pesquisadores do design e núcleos de pesquisa paulistas, brasileiros e europeus também contribuiu para o enriquecimento dos resultados apresentados.

NOVA CLASSE MÉDIA: DADOS SOCIOECONÔMICOS
O acesso da população ao crédito e a consolidação da Nova Classe Média no Brasil foram amplamente divulgados como elementos de impulso ao crescimento do país nos últimos anos, principalmente entre 2000 e 2012. “Ainda que de forma bastante irregular, o crescimento do PIB (produto interno bruto) foi suficiente para alavancar o consumo, respaldado pelo controle da inflação e pelo regime de metas de inflação adotados pelo governo federal desde 1999.” (Passos, 2013) O regime de metas de inflação – que usa a taxa de juro para conter o aumento de preços – desestimula o consumo por meio do crédito e desacelera a abertura de financiamentos. Isso acaba por influenciar diretamente a intenção de compra e, consequentemente, contribui para a estabilização de preços.

Foi exatamente pelo raciocínio inverso que o governo federal nos últimos anos não adotou como prioridade o regime de metas da inflação. O estímulo ao emprego e a redução das desigualdades sociais foram as principais bandeiras políticas do governo federal, recém-reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas) por tirar o Brasil do mapa mundial da fome. A partir de 2002, promoveu ações sociais que estimularam o consumo da camada mais pobre da população. Grande parte desse grupo não tinha emprego formal e passou a ter carteira assinada. Ao mesmo tempo, através de uma política de redução de encargos, desonerou diversos setores de bens de consumo duráveis (principalmente eletrodomésticos da linha branca, como fogões, geladeiras e micro-ondas) com o objetivo de estimular o consumo, ao mesmo tempo que promoveu a expansão do crédito no país.

“Essas medidas surtiram efeito na redução do desemprego e no aumento da ocupação formal, o que estimulou a produção industrial em boa parte da década. O reflexo da inflação controlada, em boa parte da década, e o aumento do rendimento promoveram novamente o consumo e o ciclo se renovou até meados de 2008, quando uma grave crise financeira internacional aconteceu e prejudicou a manutenção do crescimento econômico dos quatro anos anteriores.” (Passos, 2013)

O aumento da distribuição de renda, a consolidação da ocupação formal entre os mais pobres, a estabilidade da moeda e o crescimento da produção industrial e do consumo consolidaram a inclusão das massas como principal resultado da política do governo federal, com a redução da pobreza no país e melhorias para a população mais carente.

“(…) nos últimos anos, as classes que mais se beneficiaram, proporcionalmente falando, com o aumento de renda e do consumo foram aquelas mais próximas da base da estrutura social brasileira.” (Scalon, Salata, 2012)

O perfil desse consumidor tem sido objeto de estudo da indústria e do setor de serviços. Evidência desse fenômeno é a criação do Instituto Data Popular, aberto em 2001 para desenvolver pesquisas sobre as classes C, D e E. “No intuito de atender o consumidor de baixa renda, as empresas precisam entender sua realidade, suas necessidades e desenvolver estratégias específicas.” (Barki, 2006)

Segundo Rocha e Silva (2008), para ter acesso a esse mercado é necessário criar produtos e processos voltados especialmente para atender às necessidades desse grupo de consumidores, por meio de soluções inovadoras e criativas, a preços acessíveis, usando novos canais. Analisar os efeitos estéticos no mobiliário popular é o principal objetivo deste pós-doutorado. É justamente nesse ponto que as revistas segmentadas, que passaram a ser consumidas depois da estabilização da moeda e tiveram sua explosão na década de 2000, despertaram interesse das marcas – indústria e distribuidoras de varejo – para a publicidade. Assim, projetos editoriais voltados para a Nova Classe Média tiveram financiamento para seus respectivos lançamentos.

Prahalad4 (2010) listou 12 princípios para garantir o sucesso de empresas com foco nas classes populares:

Concentração em preço e desempenho, pois esse mercado não depende tão somente de preços baixos.
A inovação requer resolver os problemas dos consumidores com tecnologias novas.
Como os mercados são imensos, as soluções precisam ser adaptadas.
Reduzir a intensidade dos recursos, isto é, utilizar soluções que possam ser recicláveis e sustentáveis.
Nem sempre o que serve para um cliente de maior rendimento servirá com adaptações simples ao de menor rendimento.
As inovações em processos e produtos são cruciais nos mercados de baixa renda.
O projeto de produtos e serviços deve levar em conta a infraestrutura deficiente em áreas remotas.
A ambientação dos clientes com o uso dos produtos também é um fator crucial.
Os produtos devem funcionar em ambientes hostis.
A heterogeneidade da base do consumidor em termos culturais e educacionais constitui um desafio.
O consumidor precisa ter acesso à inovação, caso contrário ela não perdurará.
A evolução das particularidades e da função ocorre em alta velocidade. É necessária ampla arquitetura do sistema.

Segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo federal, vinculada ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Nova Classe Média tem renda mensal domiciliar entre R$ 1.064,00 e R$ 4.561,00. Entre 2004 e 2010, cerca de 32 milhões de pessoas ascenderam à categoria de classes médias (A, B e C) e 19,3 milhões saíram da pobreza. Os 94,9 milhões de brasileiros que compõem a Nova Classe Média correspondem a 50,5% da população – ela é dominante do ponto de vista eleitoral e do ponto de vista econômico. Detinha 46,24% do poder de compra (dados 2009) e supera as classes A e B (44,12%) e D e E (9,65%).

Foi em 2009 que a Nova Classe Média ultrapassou os 50% da população brasileira. Para efeito comparativo, em 1992 correspondia a 34,96%.

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Data Popular em 2010, o poder aquisitivo da Nova Classe Média corresponde a 45,75% da renda brasileira. No setor de construção civil, corresponde a 68% dos consumidores (varejo).

Segundo Bismarchi (2010), o modelo de execução das políticas federais de habitação popular adotado a partir de 2002 é reflexo do desenvolvimento histórico do sistema capitalista no Brasil e da relação do Estado com a iniciativa privada. Esse modelo colocou a construção da moradia nas mãos da iniciativa privada – representada pelas construtoras dos empreendimentos – e transferiu ao Estado o papel de financiador, através de um banco (antes o BNH, agora a Caixa Econômica Federal), tanto das construtoras quanto das famílias que buscam adquirir sua casa própria (Bonduki, 1983). Esse aspecto impactou diretamente a configuração da moradia, que deixou de seguir padrões preestabelecidos – herança de ideais modernistas na essência com os projetos de Le Corbusier, na França – e passou a seguir modelos comerciais. Houve, dessa forma, uma aproximação da casa popular (no sentido estético-funcional) com a configuração antes restrita às classes mais abastadas. “A Caixa Econômica Federal tornou-se a principal responsável pelo fomento das políticas federais de desenvolvimento urbano e habitação em 1986, quando incorporou o extinto Banco Nacional da Habitação (BNH), no mesmo período em que se organizavam as discussões em nível internacional da necessidade de alteração dos rumos do sistema capitalista vigente, culminando na divulgação do, anteriormente citado, Relatório Brundtland e sua definição de desenvolvimento sustentável.” (Bismarchi, 2010)

Não à toa, as aspirações da Nova Classe Média giram em torno da casa e seus equipamentos. Em pesquisa realizada pelo Marplan5 em 2009 – restrita a essa faixa da população – obteve-se o seguinte resultado:

6,8 milhões de brasileiros pretendiam construir ou reformar o imóvel residencial.
2,3 milhões pretendiam comprar eletrodomésticos ou equipamentos eletrônicos.
2 milhões planejavam adquirir eletrônicos.
1 milhão pretendia comprar ou trocar de imóvel (casa, apartamento etc.)
1 milhão pretendia adquirir um computador desktop ou portátil (laptop).

CADEIRA UMA, CRIADA PELA EQUIPE DO ESTÚDIO OPPA, COM EQUIPE DE DESIGNERS PRÓPRIOS. O PROJETO GANHOU O PRÊMIO DE DESIGN/BRASIL 2012.

A CASA DA NOVA CLASSE MÉDIA
Há pelo menos seis décadas, metrópoles brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro assistem à construção de unidades habitacionais econômicas – de dimensões reduzidas, nos padrões modernistas de planta tipo enxuta, ortogonais -, conforme descrito por Lemos (2002). “A classe média, que nunca iria sujar as mãos em obras de qualquer natureza, viu-se cada vez mais angustiada, sem recursos que minorassem a falta de moradias por alugar ou comprar. (…) certamente, à medida que se restringe a área construída, diminui o número de compartimentos. Até hoje, desde o início da verticalização ocorrida nos anos 1950, a classe média ainda é cliente de apartamentos mínimos de sala-quarto, banheiro e cozinha, mas só que agora essas moradas deverão ser construídas com fino ou finíssimo acabamento, alguns até com pé-direito duplo e não se chamam mais treme-treme6 ou JK, de janela e kitchenette.” A percepção exposta por Lemos e a compilação de projetos apresentada por Sampaio (2002) em A Promoção Privada de Habitação Econômica e a Arquitetura Moderna 1930-1964 são evidências, mesmo no ambiente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da mudança de pensamento no que se refere à implementação de políticas públicas de habitação. Se até a década de 1990 a produção de habitação de interesse social foi conduzida por agentes ligados ao poder público – em parceria com empreiteiras privadas para a construção das unidades -, o ano de 2009 significou um divisor de águas nesse processo. Apesar de terceirizar parte dos processos de produção, os projetos e a tipologia das unidades na grande maioria das vezes foram (e são) regulados por tais agentes como, no caso de São Paulo, Cohab e CDHU. “O Minha Casa Minha Vida passou a encabeçar a atuação do governo federal na provisão habitacional, promovendo, em sua esteira, mudanças no próprio marco do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS). Uma das mudanças mais importantes foi que o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS), o principal instrumento de efetivação do SNHIS, mantido com recursos do Orçamento – Geral da União (OGU), praticamente deixou de apoiar a provisão pública de habitação de interesse social.” (Krause, Balbim e Lima, 2013)

O que antes servia apenas para a classe média descrita por Lemos (2002) no prefácio do trabalho supracitado deu lugar à nova política de incentivo e financiamento de unidades habitacionais por bancos estatais e construção realizada por empreiteiras privadas. Embora o financiamento da construção das unidades habitacionais tenha sido ao longo dos anos bancado por bancos estatais, o modelo implantado pelo programa Minha Casa Minha Vida entregou à Caixa o regulamento das tipologias segundo um grupo de pré-requisitos exigidos para a aprovação da verba do financiamento e viabilização da obra. A Nova Classe Média que se consolidou a partir da década de 1990, sobremodo após a estabilização econômica proporcionada pelo Plano Real, passou a representar, ao contrário da descrição acima, a parcela emergente da população que teve acesso ao crédito e, por meio do incentivo fiscal e financiamento barato, chegou à realização da casa própria. Nota-se que o grupo analisado por este trabalho é caracterizado pela faixa de renda já apresentada anteriormente, que se enquadra nas chamadas Faixas 2 e 3 de atendimento, preestabelecida pelo programa Minha Casa Minha Vida, com foco em famílias de renda mensal de R$ 1.600 a R$ 3.275, e R$ 3.275 a R$ 4.300, respectivamente.

Mas ao contrário do modelo habitacional praticado até a década de 1990, herdeiro das plantas ortogonais e modelo corbusiano, essa nova configuração teve impacto na tipologia e espaço interno das moradias, e segue hoje os padrões de mercado, com plantas recortadas e excesso de varanda (incorporada depois do Habite-se ao corpo do apartamento e não contabilizada na área útil junto à prefeitura). Sendo assim, como modelo dessa nova configuração da moradia inclusiva, buscou-se – durante a pesquisa de doutorado – no showroom de apartamentos decorados em empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida o padrão aspiracional da casa equipada, decorada por arquitetos e designers de interiores. O resultado da análise foi o reflexo da escassez de equipamentos adequados ao espaço e orçamento reduzido. Nos apartamentos decorados, abusa-se de eletrodomésticos de alto padrão, armários feitos sob medida e móveis de luxo, encontrados em lojas voltadas ao mercado de classe A e B. Não obstante o padrão (proposital) equivocado do arranjo, nota-se a incoerência com o programa de necessidades da família típica pertencente a essa nova classe. Os apartamentos de dois ou três dormitórios, que variam de 40 m2 a 80 m2, em média, são decorados com um dormitório de casal, outro para duas crianças e, na maioria das vezes, o terceiro dormitório (quando existe na tipologia original) é revertido para a sala de estar, dando sensação de amplitude para a área social.

As lojas de mobiliário, atentas ao movimento e à nova demanda gerada pelos apartamentos, munidas da redução de IPI (Imposto sobre produtos industrializados) sobre móveis e linha branca, atacaram o novo perfil de consumidor emergente. Linhas de modulados mais enxutos, com profundidade reduzida de 45 cm para 35 cm, no caso dos móveis para cozinhas, começaram a surgir como alternativas em varejistas populares. Da mesma forma, o comércio digital trouxe novas possibilidades para o consumidor cada vez mais ligado à informação pela internet. Não por acaso, uma versão adaptada da clássica poltrona Swan, projetada por Arne Jacobsen em meados de 1950, está há pelo menos cinco anos nas prateleiras das Casas Bahia, revestida de tecido estampado e acessível através de crediário em dez vezes. Esses são apenas alguns dos resultados mais evidentes desse fenômeno nas características dos móveis populares. Tem-se verificado que a velocidade da informação e a explosão dos meios de comunicação são fatores responsáveis pela aproximação dos padrões estéticos entre as classes A e B e a Nova Classe Média. Na prática, da mesma forma que as lojas de departamento colocam estilistas de renome como Alexandre Hercovitch para assinar suas coleções – os modelos originais são restritos ao público AAA -, as lojas de mobiliário popular apropriaram-se da estética clean e modelos de tradição modernista em seus portfólios. Linhas populares de papel de parede, por exemplo, trazem a assinatura de Marcelo Rosembaum, designer de interiores pop – ele teve um quadro do tipo antes e depois no programa Caldeirão do Huck, exibido pela Rede Globo aos sábados -, e são vendidas em home centers (como Leroy Merlin, C&C, Dicico e Telhanorte).

As mudanças na relação do usuário com o espaço também sofreram fortemente as influências dessa revolução trazida pela internet. A apropriação dos meios digitais como geradores de opinião facilitou a difusão de conceitos e popularização de modelos predefinidos de habitação. Nunca o termo design foi tão publicado por veículos de comunicação voltados para a Nova Classe Média. Sinônimo de bom gosto, passou a fazer parte do texto da publicidade de móveis, eletrodomésticos e equipamentos para a casa. Uma das mais populares lojas virtuais de móveis, a Meu Móvel de Madeira, com fábrica sediada em Rio Negrinho, Santa Catarina, surgiu em 2006 com a proposta de fornecer móveis sustentáveis, com design de qualidade, a preço acessível. Em março de 2012, a marca firmou um acordo com o curso de design do Núcleo Universitário de Rio Negrinho e promove concursos entre os alunos para ter, de graça, o projeto de novas peças. Em contrapartida, os vencedores têm suas criações incorporadas à linha de produtos da marca. Segundo notícia publicada em outubro de 2014 no jornal O Estado de S. Paulo, a empresa faturou R$ 25 milhões em 2013. Recentemente, incorporou à linha de móveis e objetos de decoração quadros, almofadas, adesivos e outros adereços para casa. A iniciativa da marca, seguida de concorrentes mais recentes como o portal Oppa – que coloca sob a descrição do produto o perfil e uma breve biografia do designer que assina o projeto da peça -, reflete a nova maneira de o varejista se relacionar com os clientes: os ambientes e os objetos devem transmitir verdade nas configurações apresentadas como modelo. O showroom das unidades Minha Casa Minha Vida exibe a mesa posta, a despensa cheia e almofadas sobre os sofás, e tem como objetivo fazer o observador se sentir na própria casa. “Se é verdade que edifícios e móveis descritos por nós como belos evocam a felicidade, escondem a real necessidade desses objetos. Ordenamos nossas coisas para criar uma atmosfera de humor e ideias que refletem nossa própria personalidade.” (Bottom, 2006)

Cristaleira Dina, da OPPA, produzida a partir de chapas de madeira pínus envernizada e mdf laquado. Estratura: 1 porta, 2 gavetas e 3 prateleiras feitas de vidro transparente e com espessura de 8 mm 

A análise do interior da habitação popular, com ênfase na aplicação dos conceitos de arquitetura de interiores por meio de revistas, permite, portanto, a retomada do conceito proposto por Bonsiepe (1980) como definição para o design: “(…) um processo de eleição de critérios de eficiência social e de uso do produto, de racionalização dos recursos disponíveis e de meio de transferência dos resultados das pesquisas científicas ao sistema produtivo”. Seja pelas políticas de inclusão através do consumo promovidas após a estabilização econômica do país com o Plano Real, seja pelo acesso ao crédito ou pelo financiamento a juros baixos a partir do programa Minha Casa Minha Vida, pode-se inferir que a democratização do design, ou socialização do design, nunca esteve, num cenário brasileiro, tão avançada. É incontestável, diante das evidências levantadas por este trabalho – desenvolvido ao longo de 12 anos -, o aumento do poder de escolha da população no momento da compra de objetos, móveis e equipamentos para o lar, num cenário sem precedentes quando se fala de Brasil. O laboratório usado para os experimentos de criação de ambientes mobiliados e equipados fazendo-se uso dos produtos disponíveis no mercado varejista de móveis populares brasileiros, sobre planta-tipo colhida de unidades habitacionais modelo do programa Minha Casa Minha Vida, comprovou, na prática, a viabilidade do projeto da habitação e o aumento significativo do aproveitamento do espaço, respeitando-se o programa de necessidades adaptado à nova estrutura da família brasileira. O uso de revistas como manual de design e referência na escolha, adaptação e posicionamento dos objetos no espaço da habitação popular constitui, sim, elemento diferencial para o cumprimento da definição de Bonsiepe (1980) para o design. Bem dispostos e proporcionais às dimensões do espaço construído, os móveis atingem efetivamente a “ef iciência social e de uso do produto” proposta pelo autor. Por isso, com o sem projeto, com ou sem a conscientização de um processo racional e sustentável de fabricação do mobiliário, com ou sem acesso pleno à casa própria, a classificação da maioria absoluta da população brasileira na categoria de Nova Classe Média desmistifica e neutraliza o estigma da base da pirâmide com o acesso democrático aos bens. Sendo assim, a utopia proposta por Le Corbusier (1933) realiza-se, em parte no Brasil, paradoxalmente. “Não se deve submeter os interesses coletivos aos privados. A minoria que desfruta dos privilégios de um classe social economicamente favorecida não deve ditar as regras do cotidiano da grande massa social. Cada indivíduo deve ter o mínimo de condições para uma vida digna, visando principalmente à sua satisfação pessoal.” Aqui, foi por meio dos interesses privados que um governo autodenominado de esquerda permitiu o acesso da grande maioria da população – Nova Classe Média brasileira – aos equipamentos e mobiliário que compõem a casa.

ESTUDO DE CASO 1: OPPA DESIGN LTDA.
A Oppa Design Ltda. é uma empresa fabricante e vendedora de mobiliário, fundada em 2011. Tem sede no município de Barueri, São Paulo. Surgiu um ano após o lançamento da revista Minha Casa, da Editora Abril, com proposta de móveis de baixo custo – assinados por designers. A questão da autoria do projeto, inexistente em lojas convencionais de varejo de mobiliário popular, é evidente no layout do portal Oppa (www.oppa.com.br), principal ferramenta de exposição e venda do portfólio de produtos da marca. Na parte inferior da página de exposição de cada produto há uma barra informativa sobre o designer ou estúdio de design responsável pelo projeto do produto. Estão entre os projetistas da marca o Estúdio Oppa, formado por designers exclusivos da marca sob coordenação de Mauricio Siquinelli Nakane, Marcelo Rosenbaum, Mariana Ramos, Ricardo Inneco, Claudio Sibille, Bernardo Senna, Mariana Valentim Marun e Bruna Octaviano. Junto do nome do autor do projeto, a arquitetura do site descreve a formação e a linha de projeto do profissional, além de detalhes da formação e eventuais premiações recebidas.

Cadeira Sim, de Mauricio Siquinelli Nakale, de 2016. Perspectiva e vista frontal do objeto

Durante esta pesquisa, foi entrevistado o designer Mauricio Siquinelli Nakane, responsável pelo Estúdio Oppa, formado em 2013 em Design de Produto pela Universidade Paulista (Unesp). O designer foi finalista do Prêmio Inova Whirlpool em 2010, premiado no Salão Design de 2011 com o projeto da Mesa Mínima, recebeu menção honrosa no Salão Design com o Cavalete Tango e foi premiado no Objeto Brasil com o projeto da Cadeira SIM, analisada durante este trabalho.

O projeto da cadeira SIM é marcado pelo sistema de base desmontável que permite armazenamento para transporte do produto com volume inferior à metade da conformação montada do móvel. “Para este produto, não bastou solucionar a montagem das peças, o que seria tarefa fácil, não fosse nossas exigências internas de ser sutil, não ter ferragens à mostra, e a solução que pensei, uma vez que era responsável pelo projeto, foi de simular a dobradiça de uma porta”, explicou o designer durante entrevista realizada pelo autor desta pesquisa.

Na linha de armários, a Oppa Design Ltda. trabalha principalmente com a madeira reflorestada do tipo pinus como base para a estrutura das peças. Um dos objetos mais icônicos do portfólio da marca é a estante Duna, criada a partir de uma releitura de móvel colonial. Segundo Siquinelli, trata-se de uma “releitura moderna de um móvel típico colonial. A técnica da moldura de madeira usada para construir painéis observada em móveis de marcenaria tradicional foi adaptada a uma linha de produção seriada”. A inovação em termos de design está na inversão dos varões frontais para economia de espaço. Assim, o móvel tem profundidade menor do que a convencional.

 

Projeto da cadeira sim, de autoria do designer Mauricio Siquinelli Nakane, de 2016. Está à venda pelo portal www.oppa.com.br por 10x R$79,89 ou R$699,99 à vista (preços pesquisados em dezembro de 2016).

ESTUDO DE CASO 2: MEU MÓVEL DE MADEIRA – COMÉRCIO DE MÓVEIS E DECORAÇÃO S/A8
A Meu Móvel de Madeira foi criada em 2006 com o discurso de “fábrica de móveis sustentáveis”. Precedeu o lançamento das revistas populares de arquitetura e design em quatro anos com uma proposta de venda dos objetos 100% por plataformas online. Possui fábrica própria na cidade de Rio Negrinho, interior do estado de Santa Catarina, e investe pesado em comunicação digital por redes sociais, e-mail marketing e comunicação ativa com mailing de clientes. Desde o início da produção dos ambientes em estúdio para a revista Minha Casa, a marca contribuiu com o envio e montagem de peças e investiu em publicidade nos canais digitais da revista junto ao portal www.casa.com, que agrega todos os títulos de arquitetura da Editora Abril. Segundo dados da PayPal Brasil (Loja virtual de móveis em SC ganha mercado com linha mais sustentável, in Portal G1, acessado em 24 de novembro de 2016: http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/sc-que-da-certo/noticia/2016/09/loja-virtual-de-moveisde-sc-ganha-mercado-com-linha-mais-sustentavel.html), o e-commerce brasileiro cresceu 21% entre 2015 e 2016: “Conectada com as novas tendências tecnológicas e com a preocupação de demonstrar aproximação e se importar com o cliente, a loja virtual da Meu Móvel de Madeira, de Rio Negrinho, foi uma das pioneiras em vender móveis sustentáveis pela internet”. A reportagem entrevistou na ocasião o diretor da fábrica que começou como um braço da Irani Celulose, Ronald Heinrichs: “(…) trabalhamos com a proposta da surpresa, não de entregar apenas um produto, mas sim de oferecer uma experiência. Queremos o acolhimento do nosso cliente, se ele comprar ou não é uma consequência”. Em 2011, a Meu Móvel de Madeira, para otimizar lucros e processos, fechou sua fábrica própria e passou a trabalhar com fornecedores parceiros com a proposta de agregar valor aos produtos. Em 2016 eram 30 fábricas agregadas fornecendo para a marca, sendo que 90% delas se localizavam na cidade de São Bento do Sul. A cadeira Lapa, campeã de vendas da marca, figurou como elementochave da capa da edição de aniversário de primeiro ano da revista Minha Casa, em projeto assinado pelo designer Marcelo Rosenbaum.

Durante esta pesquisa, foi realizada entrevista com a designer Grasielli Leite, formada em Design de Produto pela Univille e pós-graduada em Design Estratégico pela PUC-PR. Foram analisados os projetos Cadeira Apê, que tem como nome comercial o apelo ao primeiro imóvel do consumidor. É a peça mais barata do catálogo de móveis da marca.

Feita de madeira pinus reflorestada com pintura epóxi, suporta até 80 kg. Segundo a designer Grasielli Leite, a concepção do projeto está baseada, primordialmente, na questão de montagem e compactação do móvel durante o transporte. Em entrevista ao autor desta pesquisa, realizada em fevereiro de 2017, disse: “Em nosso primeiro rascunho já pensamos como o item será desmontado e suas formas de fixação. Exatamente por isso que é tão importante que o próprio designer monte sua criação, pois em alguns casos no papel alguma junção nos parece simples e nas peças físicas se tornam difíceis. Nós queremos que alguém que nunca montou nada antes tenha uma experiência positiva e continue se aventurando junto com a MMM.”

A questão do do-it-yourself, nesse caso, é apenas teórica. A grande maioria dos móveis da marca é entregue e montada por empresas terceirizadas mediante pagamento de taxa de montagem opcional pelo consumidor. Sobre a questão da terceirização da produção, adotada como modelo pela marca desde 2011, Grasielli reforçou a importância do acompanhamento da execução dos protótipos durante a fase de concepção e testes dos novos projetos. “A MMM não produz nenhum objeto, todos os nossos projetos são executados por nossos fornecedores parceiros com nossa curadoria em todo o processo. Assim, conseguimos produzir os mais variados itens de acordo com a capacidade de cada parceiro.”

Foram analisados outros itens do catálogo da Meu Móvel de Madeira, devidamente documentados na iconografia da pesquisa. Estão entre os objetos a cama Balli, campeã de vendas da marca em 2016, o guarda-roupa Confetti, 100% de pínus reflorestado tingido e envernizado, e a cadeira Lapa, que ilustrou a capa da edição do primeiro aniversário da revista Minha Casa, da Editora Abril.

CONCLUSÃO
Segundo Mike Featherstone (1995), o desejo por determinados produtos se dá, entre outros fatores, pelo “fetichismo de consumo”. A preocupação direta com aparências superficiais não mostra claramente significados subjacentes evidentes, que servem para ocultar deliberadamente, graças aos domínios da cultura e do gosto, a base real das distinções econômicas. O móvel, como qualquer elemento de consumo, constitui parâmetro de avaliação dos próprios indivíduos em suas posições sociais. O mobiliário nada mais é que “o meio pelo qual fazemos conhecer a nossa posição social”. (Le Corbusier, 1930, p. 113)

Cadeira Apê, de autoria da designer Grasielli Leite, está à venda pelo portal www,meumoveldemadeira.com.br por 7 x R$32,61 ou R$ 229,00 à vista (preços pesquisados em dezembro de 2016), tem as seguintes dimensões: 90 cm x 41 cm x 44,4 c. Suporta até 80 kg e pesa 6,1 kg. Os componentes estruturais são feitos de pínus reflorestado com pintura epóxi

Se “o design para muitos se restringe ao aspecto estético do produto, e quase todas as indústrias moveleiras não incorporam esse fator em sua produção industrial” (Folz, 2002, p. 104), o mercado brasileiro de comércio eletrônico já despertou interesse em nova estratégia de difusão de produtos, valorizando o design das peças e expondo, inclusive, o perfil do designer que concebeu o projeto (lojas virtuais Meu Móvel de Madeira – Comércio de Móveis e Decoração S/A, aberta em 2006 com venda exclusivamente online, e Oppa – Oppa Design Ltda., lançada em 2011 com recursos de fundos de investimento norteamericanos), cabe à revista valorizar esse novo canal de vendas, colocando-o em patamar diferenciado dos demais itens de mobiliários vendidos pelas grandes redes de varejo. Se, como afirma Folz (2002, p. 107), a estabilidade econômica trouxe para o mercado de móveis novas parcelas de consumidores ligados à Nova Classe Média – o que incrementou, principalmente, a produção de móveis populares em escala industrial (uma vez que a produção por encomenda aumenta o custo do produto) por médias e grandes empresas -, cabe ao editor buscar, com o auxílio de arquiteto ou designer, orientar o uso dos objetos seriados para melhor adaptá-los ao ambiente da habitação popular.

Se até a década de 1990 “o planejamento do espaço interno tinha por objetivo diminuir a desproporção existente entre o número de integrantes de uma família e o espaço disponível para morar” (Folz, 2002, p. 121), qualquer iniciativa desenvolvida a partir da década de 2000 deve considerar o novo modelo de família brasileira, com número reduzido de pessoas, principalmente no cenário das grandes metrópoles.

AUTORES
PROF. DR. GUSTAVO ORLANDO FUDABA CURCIO
Professor de Design no Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Graduação (2006), mestrado (2009), doutorado (2015) e pós-doutorado (2017) pela mesma instituição. Possui experiência na área de design de mobiliário, estética do design e elaboração de projetos gráficos. Atuou como editor de arte, design e decoração e foi colunista no núcleo Casa e Construção, da Editora Abril. Dirigiu a redação das revistas Ronnie VON, Ameizing, Acontece/Scania e Na Poltrona, na RMC Editora. Dirige as redações das revistas Téchne, Construção Mercado, Infraestrutura Urbana, Equipe de Obra e aU – Arquitetura e Urbanismo, publicadas pela Editora PINI. É autor dos livros Madeira: Matéria-Prima para o Design e Antonio De Mitry: na Prática, a Teoria É Outra.

PROFa. DRa. MARIA CECÍLIA LOSCHIAVO DOS SANTOS
Professora titular de Design da Universidade de São Paulo e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Graduação (1976), licenciatura (1977), mestre (1985) e doutora (1993) em filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Obteve o título de livre-docente pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (2003). Coordenadora adjunta de mestrado profissional da área de Arquitetura, Urbanismo e Design da Capes, designada pela Portaria 175/2016. Orientadora em dois programas de pós-graduação da Universidade de São Paulo: na FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e no Procam – Programa de Ciência Ambiental, presidente (2012-2013). Presidente da Comissão de Pós-Graduação do Instituto de Energia e Ambiente-USP (2012-2013). Presidente da Comissão de Cultura e Extensão – CCEx do IEE – USP (2011-2012).Pós-doutorado: University of California, Los Angeles, School of Public Policy and Social Research (1995-1997); Nihon University, Tóquio (1999); Centre Canadien d”Architecture, Montreal (2001); University of California, Los Angeles, School of Public Affairs (2007-2008). Pesquisadora visitante Waseda University, Tóquio (2001); Tokyo Zokey University (2006); Indian Habitat Center, Nova Délhi (2006); Tama Art University (2008); University of Tokyo (2009); Loughborough University (2012); San Francisco State University (2012); University of Boras (2013); University of South Australia (2015); Amsterdam University of Applied Sciences (2016). Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FSP-USP (2007-2013). Membro do Laboratório de Sustentabilidade em TIC, da Escola Politécnica da USP. Membro do Conselho editorial: Estudos em Design, Design em Foco, Design Philosophy Papers. Exerce atividades de coordenação e assessoria científica nas principais agências de fomento brasileiras, com destaque para seu papel como membro do Comitê de Assessoramento do CNPq e da Capes para a área de design.

NOTAS

1 Francis Beaucire, professor da Universidade de Cergy-Pontoise, criador e diretor do laboratório de Mobilidade, Redes, Território e Meio Ambiente da mesma instituição. Tradução “(…) a cidade espontânea, que se constrói sobre um terreno, vira as costas para a cidade densa e diversa desejada pela maioria dos urbanistas”.
2 Trecho extraído de entrevista realizada pelo autor da pesquisa em abril de 2005.
3 Gui Bonsiepe estudou design na HFG-Ulm (Hochschule für Gestaltung, Ulm) (1955-1959), onde atuou também como professor titular do Departamento de Design Industrial e Comunicação Visual, até o seu fechamento, em 1968. Após isso, mudou-se para a América Latina. No Chile, assessorou pequenas e médias empresas (1968-1970) e criou a área de Desenvolvimento de Produtos no Comitê de Investigações Tecnológicas (1971-1973). Na Argentina, criou a área de Desenvolvimento de Produtos, no Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (1974-1976). No Brasil, criou e coordenou o Laboratório Brasileiro de Desenho Industrial – lbdi, em Florianópolis (1984-1987). Trabalhou em escritórios de projeto e foi docente em diversas universidades latino-americanas, europeias, norte-americanas e asiáticas, como a Escola Superior de Desenho Industrial – ESDI (Rio de Janeiro), Universidade de Ciências Aplicadas (Köln) e Universidade das Artes (Zurique). Ocupou a vice-presidência do International Council of Societies of Industrial Design – ICSID (1973-1975). Publicou diversas obras sobre design industrial e comunicação visual, destacando-se: Teoria e Pratica del Disegno Industriale (Milão, 1975), Interface – Design neu Begreifen (Mannheim, 1995), Design: do Material ao Digital (Florianópolis, 1997), Historia del Diseño en América Latina y el Caribe (cocoordenador, São Paulo, 2008).
4 Coimbatore Krishnarao Prahalad, ou C.K. Prahalad (1941-2010), como ficou conhecido, foi um indiano-americanizado, doutor em administração por Harvard, professor titular de estratégia corporativa do programa de MBA da Universidade de Michigan, conselheiro do governo indiano para empreendedorismo e autor de livros muito procurados. Foi considerado o mais influente pensador do mundo dos negócios. Escreveu The Multinational Mission: Balancing Local Demands and Global Vision e o best-seller Competindo pelo Futuro, com Gary Hamel, publicado em 20 idiomas. O Futuro da Competição e A Riqueza na Base da Pirâmide também se tornaram rapidamente grandes sucessos de vendas, e são algumas das suas últimas obras.
5 Marplan é uma pesquisa de mídia feita pelo grupo Ipsos de pesquisa, que é um dos líderes globais no fornecimento de pesquisas em marketing, propaganda, mídia, satisfação do consumidor e pesquisa de opinião pública e social. O Marplan relaciona os hábitos de mídia(ler revista, jornal, assistir à televisão etc.) com os hábitos de consumo (que marca de tênis eu uso, qual o carro em que ando etc.), e com esses dados o contato publicitário pode decidir o melhor meio para o seu cliente. A pesquisa é trimestral, reúne dados dos meios: revista, jornal, TV, rádio, internet, teatro, cinema, mobiliário urbano, outdoor. Acontece através de um questionário feito “face to face” e é muito utilizada para os meios impressos.
6 O edifício São Vito, popularmente conhecido como treme-treme, foi um prédio residencial de 27 andares, localizado na Avenida do Estado, número 3.170, na Baixada do Glicério, em São Paulo. Sua construção foi iniciada em 1954 e finalizada em 1959. O edifício foi esvaziado em 2004 pela então prefeita Marta Suplicy e o seu processo de demolição iniciado e finalizado na gestão de Gilberto Kassab. A demolição durou cerca de seis meses e foi concluída em maio de 2011.
7 Trecho extraído de Minha Casa Minha Vida, Nosso Crescimento: onde Fica a Política Habitacional?, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Expõe a avaliação de Cleandro Krause, Renato Balbim e Vicente Correia Lima Neto sobre os três primeiros anos do programa Minha Casa Minha Vida.
8 A primeira loja física da marca – que será aberta em Curitiba (PR) – tem previsão de inauguração para 2 de maio deste ano.

BIBLIOGRAFIA

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