Carlos Bratke, o legado em vidro e aço do arquiteto da Berrini

O arquiteto e urbanista Carlos Bratke, responsável por criar os contornos futuristas e reluzentes das torres de aço e vidro da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin, em São Paulo, morreu em 9 de janeiro de 2017, após um mal súbito. Ele tinha 74 anos e vinha de uma família dedicada à arquitetura. Filho do modernista Oswaldo Bratke (1907-1997), Carlos rompeu com a tradição do concreto e seguiu um estilo completamente distinto do trabalho de seu pai.

Nascido em São Paulo, em 20 de outubro de 1942, formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, em 1967, e fez pós-graduação em Planejamento e Evolução Urbana na Universidade de São Paulo (USP). Atuou como vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) de 1988 a 1989, e como presidente da entidade entre 1992 e 1993. Também foi diretor do Museu da Casa Brasileira (MCB) entre 1992 e 1995 e presidente da Fundação Bienal de São Paulo de 1999 a 2002.

Carlos Bratke iniciou sua carreira ainda nos anos 1960 sob a influência da chamada “escola paulista de arquitetura”, na qual imperava o uso do concreto aparente como forma de expressão de força e equilíbrio das edificações. Nos anos 1970, fez parte da primeira geração de arquitetos de São Paulo a contestar os dogmas da arquitetura moderna. Ele integrava o chamado grupo dos “não alinhados”, formado por Tito Lívio Frascino, Vasco de Mello, Roberto Loeb, Pitanga do Amparo, Eduardo Longo e Artur Navarrete.

A arquitetura de Carlos Bratke criou uma nova paisagem na metrópole paulistana, que se destaca pelo desenho arrojado e pelo uso de materiais e técnicas inovadores. Carlos configurou um diferencial estético e construtivo no campo da arquitetura empresarial, sobretudo nas torres corporativas no bairro paulistano do Brooklin. E trouxe uma inquietação: obrigou o mercado imobiliário a também inovar. Apenas na região da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, importante artéria da Zona Sul, que ele ajudou a consolidar nos anos 1980, projetou mais de 60 desses empreendimentos de aço e vidro, alguns deles importantes marcos da região, como o edifício Bandeirantes, um dos primeiros naquela avenida, no qual um bloco de ângulos retos é ladeado por estruturas circulares de concreto. O edifício Plaza Centenário, na Marginal Pinheiros, construído de 1989 a 1996, revestido de alucobond e vidros laminados refletivos, acabou se tornando um dos símbolos de São Paulo, e ficou conhecido popularmente como Robocop.

Em entrevista concedida à revista aU, em 2009, o arquiteto comentou que o Plaza Centenário era um de seus projetos favoritos. “Algumas obras utilizo como reflexão, e uma delas é o Robocop. Gosto dele porque é uma referência que marcou a região”, afirmou na época. Segundo o arquiteto, ele mudaria muita coisa naquele edifício. “Até mesmo esteticamente, mas acho que, sem fazer muita ginástica, consegui resolver muito bem o problema de insolação e iluminação. Gosto muito do Morumbi Plaza, perto da Ponte do Morumbi; e também da casa onde eu morava, no Morumbi, já demolida, toda de pré-moldado de concreto. Mas eu não fico pensando qual a obra mais bonita que já fiz. Ainda quero fazer a mais bonita!”

Além da intensa atividade projetual, que incluiu tipologias como casa, escola, shopping center, hotel, cemitério, igreja, parque, centro cultural, edifício residencial, Carlos fez incursões em outras áreas. Exímio desenhista, desenvolvia seus projetos tanto com o lápis quanto com a caneta. Ele lecionou nas faculdades de arquitetura da Universidade Mackenzie e de Belas Artes, e escreveu livros, como Carlos Bratke (2009), publicado pela editora J.J. Carol, no qual o arquiteto apresenta soluções em inovações técnicas adotadas em oito obras construídas e um projeto em fase de construção. Em 2005, sua trajetória de vida e os projetos mais marcantes foram parar nas páginas da obra Carlos Bratke – Arquitetura, uma coleção organizada por Maria Helena Pugliesi.

Na entrevista para aU, em 2009, o arquiteto criticou a geração anterior à sua, mas demonstrou ver com otimismo o rumo da profissão no Brasil. “Passou uma fase muito ruim, que foi a geração que sucedeu à minha. Os arquitetos tinham muita teoria, criticavam tudo, mas não produziam nada. Hoje esse pessoal está todo encostado no governo. Mas essa geração que está aí agora é de prática profissional mesmo, está entrando na luta pra valer”, declarou.

Por: Alexandra Gonsalez