Ampliações e reformas em hospitais pedem obras limpas, rápidas e silenciosas, que interfiram o mínimo possível no ambiente ao redor. No detalhamento do projeto, a facilidade de assepsia e a manutenção, além de um viés humanizado, devem ser levadas em consideração

Organismos pulsantes e extremamente dinâmicos, os hospitais pedem constantes intervenções arquitetônicas, seja para que possam acompanhar a evolução das tecnologias médicas e se adaptar a novos procedimentos, seja simplesmente para ampliar a capacidade de atendimento. “Um hospital nunca vai estar 100% pronto, nem mesmo no dia da inauguração: assim que as atividades tiverem início, as demandas vão aparecer uma atrás da outra”, pontua a arquiteta Cássia Cavani, diretora do Cavani Arquitetos.

Apesar do funcionamento constante, um dos maiores desafios da arquitetura hospitalar é o fato de seu ambiente de atuação ser extremamente desfavorável à realização de uma obra: que local poderia ser mais sensível a barulho, sujeira, odores e movimentação excessiva de máquinas e pessoas do que um espaço voltado a cuidados médicos? “Todas as escolhas de projeto devem visar à menor interferência possível no ambiente”, afirma Lauro Miquelin, CEO do L+M, especializado em arquitetura de saúde. “Realizar uma intervenção em um hospital em funcionamento é como trocar uma turbina com o avião voando”, acrescenta.

METODOLOGIA RACIONAL
Reformas precisam ser pensadas em etapas de execução e implantação bastante fracionadas, a fim de interditar um pequeno trecho de cada setor por vez. No caso da reformulação completa de um centro cirúrgico, por exemplo, a estratégia é começar a obra isolando apenas uma sala de operações e, somente quando estiver liberada para o uso, partir para a próxima. O esquema a conta-gotas se justifica por fatores de economia e eficiência, já que diminuir a capacidade de atendimento é sempre mau negócio, tanto para os hospitais privados quanto para os públicos.

Pelo mesmo motivo, na especificação de sistemas e materiais privilegiam-se sempre aqueles que ofereçam maior durabilidade e confiabilidade, baixa necessidade de manutenção e rapidez de instalação e eventual reparo ou substituição e possibilidade de expansões. Quando se tem a oportunidade de pensar em todos esses fatores ainda na fase de construção do hospital, as intervenções futuras serão facilitadas.

“A criação de um pavimento técnico acima de áreas críticas, como centros cirúrgicos e UTIs, é extremamente desejável”, exemplifica o engenheiro Raymond Liong Hown Khoe, diretor de projetos da MHA Engenharia. “Apesar de o metro quadrado de um hospital ser muito caro, nossa experiência comprova que possibilitar esse acesso direto às instalações de infraestrutura em áreas críticas climatizadas não só é vantajoso para minimizar a interferência no ambiente como também necessário do ponto de vista de sua assepsia”, completa o especialista.

DETALHES DE PROJETO
Do ponto de vista da distribuição do programa, a arquitetura hospitalar precisa pensar, principalmente, no fluxo de visitantes, funcionários, pacientes, medicação, alimentos e resíduos. Esses são alguns dos principais elementos cuja circulação deve ser cuidadosamente planejada – alguns deles não podem se cruzar sob nenhuma hipótese, outros apresentam suas principais demandas relacionadas a processos de centralização e distribuição, muitos precisam percorrer determinados trechos de forma extremamente ágil.

Semelhante complexidade é verificada com relação aos sistemas de elétrica, hidráulica, dados, ar-condicionado, gases medicinais e combate a incêndio. Quando um projeto é concebido do zero, o desenho do complexo já é previsto de acordo com tais fluxos. Em casos de ampliação, um dos maiores desafios é compatibilizar a nova área com as estruturas existentes.

No detalhamento do projeto, alguns sistemas e materiais oferecem inquestionáveis vantagens, sendo considerados verdadeiros clássicos da arquitetura hospitalar. É o caso do drywall, que permite a execução e a remoção de ambientes internos de forma rápida e limpa. Manta vinílica no piso, papel vinílico ou revestimento laminado nas paredes e portas e kits prontos de PVC para portas e batentes são escolhas tradicionais de revestimentos, uma vez que oferecem instalação prática, bom comportamento acústico e, principalmente, facilidade de manutenção e assepsia.

O arremate é dado pelo conceito de ambientação humanizada, que hoje é consenso quando o assunto é arquitetura hospitalar: os espaços precisam ser não apenas funcionais, mas também agradáveis, a fim de proporcionar a melhor experiência possível a pacientes e acompanhantes, muitas vezes contribuindo de forma decisiva na recuperação do doente. Clima acolhedor, iluminação natural e conforto de hotelaria são alguns dos itens indispensáveis. “O mais bonito em arquitetura de saúde é que se parte de uma demanda absolutamente estressada para se chegar a um objetivo que precisa ir muito além da técnica, propiciando estados emocionais positivos”, avalia Lauro Miquelin.

Aplicação e novos conceitos

Referência em atendimento de alta complexidade, o Hospital 9 de Julho vem passando por constantes modernizações e ampliações para atender ao extenso programa de seu plano diretor. Entre as intervenções realizadas, cujo desenvolvimento de projeto e compatibilização está a cargo do escritório Cavani Arquitetos, estão a ampliação do setor de internação, com construção de uma torre com dez pavimentos e sete subsolos, e a reformulação de áreas de serviços e apoio, incluindo pronto-socorro, centro cirúrgico e recuperação pós-anestésica, diagnóstico por imagem, cozinha, farmácia e governança. Um dos destaques é a nova UTI humanizada, que oferece suítes individualizadas – onde os pacientes podem receber acompanhantes e se beneficiar do conforto de um ambiente privativo e banhado de luz natural, ao mesmo tempo que contam com modernos recursos tecnológicos de monitoração ininterrupta.

Parceria no longo prazo

Do ponto de visto arquitetônico, a história do Hospital São Camilo – Unidade Pompeia pode ser dividida em antes e depois de iniciada a parceria com a Zanettini Arquitetura. Datada de 1999, a primeira intervenção capitaneada pelo escritório de Siegbert Zanettini contemplou a reforma da fachada, incluindo a criação de marquises de aço e vidro, que modernizaram a identidade visual do prédio. Dessa solução, veio o convite para a elaboração do plano diretor do complexo, que resultou em um trabalho para muito além da questão estética, envolvendo o planejamento de fluxos e outras questões técnicas, além de um direcionamento detalhado para as intervenções futuras. Concebido para quadruplicar a capacidade de atendimento, o plano vem sendo colocado em prática, e já incluiu a construção de dois novos blocos pautados pelos conceitos de humanização e ecoeficiência – a terceira fase do bloco 2 acaba de ser entregue.

Crescimento sustentável

A expansão do complexo hospitalar Sírio-Libanês contemplou a criação de duas novas torres – uma com 20 andares e outra com 14 -, erguidas sobre o hospital já existente, além da construção de uma terceira, com 16 pavimentos, implantada no terreno vizinho, e de uma série de interligações que fazem comunicação e unificam todos os blocos. Com projeto do escritório L+M, a intervenção acrescentou 72 mil m² de área construída ao hospital, que passou de 350 leitos para 710. Detentor do selo Leed Gold, mais alto nível de certificação ambiental emitida pelo U.S. Green Building Council, os novos blocos contam com diversos elementos sustentáveis, a exemplo de estação de tratamento de água cinza para reúso em torres de resfriamento e bacias sanitárias, e elevadores com regenerador.

Por: Carine Savietto