Herdeiro artístico de Burle Marx, Haruyoshi Ono manteve a tradição de mosaicos na composição de jardins. Entre seus trabalhos mais recentes, destacam-se os museus do Amanhã, da Imagem e do Som e de Arte Moderna, no Rio de Janeiro

A arquiteta e doutora Klara Kaiser Mori1, professora livre-docente da FAU- SP, não esconde a emoção ao falar sobre o falecimento do arquiteto e diretor-geral do Burle Marx Escritório de Paisagismo, Haruyoshi Ono, aos 73 anos, no dia 21 de janeiro de 2017. “Ainda está difícil de acreditar, de aceitar. Além do relacionamento profissional, tínhamos uma amizade de mais de 40 anos. Ele era uma pessoa muito querida”, lamenta a arquiteta.

Recém-formados em arquitetura, Klara e o marido foram colaboradores do escritório de paisagismo de Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, por cinco anos, no começo da década de 70. Na sequência, Klara foi integrante, por indicação de Marx, do conselho consultivo do Sítio Burle Marx, após sua doação ao Iphan. Nesse período, as famílias Mori e Ono estreitaram os laços de amizade e discutiam em um ambiente de liberdade e interação os rumos da arquitetura e do paisagismo no país. “Em 2016, por ideia de Haruyoshi, visitamos o maravilhoso jardim da residência Edmundo Cavanelas, em Petrópolis. Foi uma viagem inesquecível”, conta. Segundo Klara, Ono costumava promover reencontros anuais entre os remanescentes das equipes que trabalharam no escritório nos anos 1970 e 1980.

A época marcou a própria trajetória do carioca, filho de japoneses. Haruyoshi Ono estudava na então Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e ingressou na empresa em 1965, como estagiário. Ele voltava da faculdade quando viu nas obras de criação do Parque do Flamengo uma placa da Burle Marx & Cia Ltda. O jovem estudante resolveu anotar o número para arriscar um pedido de estágio com o famoso paisagista. A estratégia deu certo e ele permaneceu ali até tornar-se sócio, em 1968, ao se formar em arquitetura. Haru, como era carinhosamente chamado pelos mais próximos, era uma pessoa e um profissional como poucos e sempre atuou na área de criação de projetos. Assim como seu mestre, também se interessava pela arte do mosaico, tendo realizado diversos painéis.

“Quando Burle Marx começou a praticar a arquitetura moderna, pensava-se no todo de um projeto, e Ono herdou essa tradição”, afirma Klara. A arquiteta conta que naquele momento um projeto de paisagismo de um jardim era integrado e os mosaicos, como revestimento ou ornamento, faziam parte desse processo único. “Haruyoshi era um artesão e tinha uma excelente capacitação técnica para pensar no conjunto de elementos que compõem um jardim sem fatiá-los entre diversos profissionais, como ocorre hoje.” Ela explica que o paisagista observava a arquitetura não como um objeto de edificação, mas como uma forma de diálogo com o próprio ambiente, onde o céu, a vegetação e o clima fazem parte dessa composição. “O mosaico responde por um acordo integrado com o local projetado.”

Durante todo o período em que esteve com Burle Marx, Ono se consolidou como seu herdeiro artístico. Depois da morte do mestre, em 1994, Ono se tornou o titular do escritório e deu continuidade à criação e à elaboração de projetos em espaços públicos, comerciais e particulares, tanto no Brasil quanto no exterior. “Ele realizava um trabalho estupendo no escritório e foi um grande professor de todos nós, reunindo ao seu redor muitas pessoas de concepções e pensamentos distintos”, diz Klara. A arquiteta afirma que todos que conviveram com ele se abriram para as questões políticas levantadas e defendidas por Burle Marx em relação às terras brasileiras e seus frutos como um patrimônio cultural e estético do país. “Mesmo com essa herança, Haruyoshi tinha luz própria e um prazer em utilizar seu imenso talento para produzir coisas belas.” Em entrevista concedida em 2012 a Antônio Agenor Barbosa e Stella Rodriguez2, Ono revelou a dificuldade em suceder Burle Marx: “Após a morte de Roberto, concluímos os trabalhos pendentes onde ele estava à frente. Houve um intervalo de tempo, uma pequena interrupção de uns três a quatro anos em que nós tivemos muita dificuldade de conseguir novos trabalhos. Eu não tinha a experiência de divulgar o escritório; não era como o Roberto, que saía muito, conversava, tinha um relacionamento social muito grande. Por causa disso tivemos, de fato, uma série de dificuldades após a morte dele. Alguns arquitetos, conhecidos nossos, amigos, nos ajudaram bastante nessa época. E, aos poucos, fomos conseguindo pequenos trabalhos e reconquistando o espaço”.

O arquiteto participou de projetos grandiosos, como o famoso calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana; o Parque da Cidade de Brasília, na capital federal; a Fazenda Vargem Grande, na cidade paulista de Areias; o Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte; e um retrofit do Kuala Lumpur City Centre Park, na Malásia. Sobre este último projeto, Ono contou2: “Fomos convidados a projetar esse trabalho quando o Burle Marx já estava muito doente. Ele foi duas vezes para lá com muita dificuldade e sem poder ajudar muito. Mas a figura dele era importante, porque os donos do empreendimento se apoiavam no nome dele. Nessa época éramos seis arquitetos efetivos, além dos estagiários e desenhistas e, naturalmente, tínhamos que manter essa turma toda. Conseguimos entregar o trabalho; fizemos um bom trabalho e ficamos satisfeitos. Esse projeto terminou em 1997, foi executado e entregue ao público após a morte dele”.

Depois do trabalho na Malásia, o escritório realizou projetos de diferentes escalas, desde pátios internos de edifícios até grandes intervenções, como vilas olímpicas. Ono conduziu o projeto do Parque da Maré, no caminho do Aeroporto do Galeão, e o do Parque da Lagoa Rodrigo de Freitas, ambos na capital fluminense.

No mobiliário urbano do Rio de Janeiro, Ono fez parte da concepção do paisagismo dos museus do Amanhã, da Imagem e do Som e de Arte Moderna; bem como do Parque Ilha Pura, na Vila dos Atletas, para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. “Quando montava equipe própria, Haruyoshi sempre mantinha o hábito de partilhar ensinamentos e discutir os projetos em conjunto. Mesmo os estagiários faziam parte desse processo”, conta Klara. A arquiteta esclarece que os conceitos de suas crenças e desafios na criação de espaços coletivos de qualidade, de acolhimento e de democracia permanecem vivos em outros artistas e profissionais. “É uma contribuição que deve ser mantida”, completa Klara.

1. KLARA KAISER MORI
Professora livre-docente aposentada pela Universidade de São Paulo. Formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo dessa instituição, onde também defendeu seu mestrado, doutorado e livre-docência. Suas pesquisas focam o processo de formação do espaço brasileiro, abarcando desde a conquista originária, por Portugal, até as transformações que lhe foram impressas pelo projeto socioeconômico de país independente e a interpretação crítica da atual etapa de apropriação do território nacional. Iniciou suas atividades didáticas em 1977. Trabalhou em regime de turno completo (RTC) junto ao Departamento de Projeto da FAU-USP de 1989 a 2015, lecionando disciplinas obrigatórias e optativas de planejamento e de paisagismo do curso de graduação, e orientando trabalhos de conclusão de curso. Integra o grupo de pesquisa Economia, Sociedade e Território da área de concentração Planejamento Urbano e Regional do curso de pós-graduação da mesma faculdade, ministrando aulas e orientando trabalhos de mestrado e doutorado. Sua experiência profissional abrange as áreas de planejamento físico-territorial – com ênfase no desenvolvimento das infraestruturas e de paisagismo. Foi colaboradora do escritório de paisagismo de Roberto Burle Marx por cinco anos e integrante, por sua indicação, do conselho consultivo do Sítio Burle Marx, após sua doação ao Iphan. Trabalhou durante 14 anos na Companhia do Metropolitano de São Paulo – Metrô. Trabalhou durante sete anos na Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo. É sócia da empresa Koiti Mori e Klara Kaiser Arquitetos Associados. Tem uma produção gráfica contínua. (Texto extraído da Plataforma Lattes em 21 de março de 2017).

2. Entrevista realizada em 17 de julho de 2012 por Antônio Agenor Barbosa e Stella Rodriguez, publicada em O Thau do Blog. Acesso em 5 de março de 2017: http://othaudoblog.blogspot.com.br/

Por Alexandra Gonsalez