Projeto de reforma para a nova sede de agência de viagens em Minas Gerais revela design criativo de fachada, identidade visual e missão corporativa

O edifício escolhido pela Trade Turismo em Uberlândia (MG), na principal via comercial da cidade, era uma verdadeira caixa de vidro exposta à avenida, submetida a forte insolação sobre todas as suas faces, das primeiras horas da manhã até o final da tarde.

Para as equipes do Aguirre Arquitetura e do Studio Porto Arquitetura, que trabalharam em conjunto na reforma, o primeiro grande desafio era propor uma solução de fachada que contornasse o efeito estufa e os gastos excessivos com refrigeração – inevitáveis – que o uso comercial geraria.

“Pensamos, de imediato, que era preciso dizer ao cliente para não locar aquele prédio. Mas ele já estava locado. Restou-nos, então, transformar o problema no trunfo do projeto”, relata o arquiteto Alexandre Aguirre.

“Era algo nada sustentável. O local não era próprio para fachadas completamente envidraçadas – tudo estava protegido por persianas, o que bloqueia a luz, mas não o calor. Por outro lado, os vidros eram fixos, e não havia ventilação cruzada.”

O primeiro passo seria proteger interiores da insolação severa e do ruído da avenida. O cliente pedira por uma fachada diferenciada, imponente, por estar num importante centro comercial.

A proposta arquitetônica tinha de dar ênfase ao negócio: em estilo contemporâneo, o objetivo era valorizar e unir premissas básicas da arquitetura – a estética e a função. O conceito deveria comunicar ao público, pela própria linguagem arquitetônica, o core business e a missão empresarial.

A resposta veio na forma de uma segunda pele metálica, como uma capa, que não poderia ser totalmente opaca, para não furtar luz natural dos espaços internos de recepção e de trabalho.

Assim, a arquitetura debruçou-se sobre o design de painéis de aço perfurados (microfuros) que, além de permitirem a passagem da luz em intensidade bem mais controlada, traçam a imagem digitalizada de um mapa-múndi sobre a fachada, visto a distância.

“Trata-se de chapas metálicas de aço microperfuradas e pintadas de branco. Escolhemos o branco-fosco porque ele reflete a insolação, reduzindo ainda mais o aquecimento interno; e o acabamento fosco garante, por outro lado, que essa reflexão não seja brilhante – ou incômoda aos olhos de quem passa pela avenida”, explica Aguirre.

Essa segunda pele é afixada a um sistema metálico, como um esqueleto de perfis finos (metalon) que mantém a nova fachada, em média, a 20 cm de distância da original. Com isso, o calor fica retido entre as duas peles e sobe, por convecção – a abertura superior entre uma fachada e outra não é selada.

O segundo passo importante foi trocar alguns dos vidros fixos, altos ou baixos, por novas folhas de correr que pudessem ser abertas algumas horas do dia. Com isso, os usuários do edifício ganharam um respiro, além de muita economia com o ar-condicionado.

EFEITO TRIDIMENSIONAL DE LUZ

Internamente, o novo prédio da Trade Turismo tem uma área central térrea de recepção, com pé-direito duplo.

O primeiro pavimento é composto de um mezanino perimetral, que abriga a área corporativa – o prédio também é sede administrativa da empresa. Lá em cima estão diretorias, departamentos comercial, financeiro, entre outros. “No térreo, sob a projeção desse mezanino, há uma área recuada de atendimento a clientes”, descreve o projetista.

A técnica de microperfuração da fachada está diretamente ligada à entrada de luz natural na área central térrea de recepção, e não impacta as áreas de trabalho, seja no térreo, seja no mezanino, porque elas ficam sombreadas ao longo de todo o dia.

No primeiro pavimento, ambientes são fechados com painéis divisórios de chapas de madeira emoldurados por perfis de alumínio. Opacidade e privacidade são totais.

No térreo, por estarem no recuo sob a projeção do mezanino, estações de trabalho se beneficiam de luz natural indireta que reflete do átrio nuclear do edifício. Há complemento por iluminação artificial leve.

“A perfuração cria um efeito tridimensional de luz que varia ao longo do dia. Mas essa variação não afeta as áreas de trabalho, recuadas e sombreadas, de forma a receber sempre luminosidade homogênea.”

Um problema teria sido a fachada leste, em contato direto com a área térrea de atendimento. Mas a disposição das estações de trabalho buscou acomodá-las a essa face pelo fato de estar protegida por árvores, no lado de fora. “Usamos também persianas, internamente, para reduzir ao máximo os ofuscamentos”, diz Alexandre Aguirre.

CALOR QUE ACOLHE E NÃO SUFOCA

A iluminação da área nuclear da recepção recebeu tratamento especial, com luminárias delgadas, leves e soltas, flutuantes – o pédireito muito alto possibilitou o uso de pendentes para quebrar a altura.

O visual é clean, com luz bastante homogênea, pouco pontual, e à noite a luz atravessa as perfurações da fachada de dentro para fora, criando um efeito de cubo iluminado que destaca o mapa.

O único canto interno onde a luz fica pontual é a área lateral de espera, oposta ao balcão de recepção – de marcenaria clara. Não só na sala de espera, mas outras paredes de fundo do piso térreo exibem revestimento marmorato que estiliza de forma suave os ambientes com um pouco de rusticidade, mas sem perder o tom minimalista.

De forma geral, o projeto de interiores foi concebido para ter espaços integrados, abertos, amplos, bem decorados e acessíveis, sob a premissa de aumentar a produtividade do trabalho e a sinergia entre os colaboradores.

“Além da madeira da marcenaria para o balcão da recepção, as divisórias piso-teto no primeiro pavimento reproduzem essa linguagem natural, também em tons claros, já que são de vidro incolor e revestidas de painéis de madeira”, compara Aguirre.

O carpete era a opção para o piso que melhor aumentava o conforto acústico do espaço – o piso original é de porcelanato, muito pouco funcional em termos de acústica para ambientes altos e abertos.

“Assim, somou-se mais um elemento, além da madeira, para equacionar a questão, com mais aconchego, resultando num ambiente de trabalho muito mais acolhedor.”

Por Giovanny Gerola