No Teatro Nacional de Taichung, a mais recente obra-prima de Toyo Ito, o espetáculo começa muito antes de o visitante deparar com o palco. Repleto de galerias e escadas hipnotizantes, o percurso revela, a cada curva, uma experiência sensorial diferente

Ondas, trapézios, arcos, bolhas: não há forma que não combine com o traço fluido de Toyo Ito, especialista em criar prédios que rompem com estereótipos e expressam desenhos inéditos. Mas esse arquiteto japonês, nascido na Coreia do Sul, está longe de ser um formalista: segundo ele, muitas obras ficam mais interessantes quando são vistas vazias – as suas, no entanto, são pensadas justamente para parecer mais bonitas quando ocupadas pelas pessoas. É o caso do recém-inaugurado Teatro Nacional de Taichung, monumental labirinto de galerias curvas que se tornou o principal cartão-postal da cidade homônima, no centro-oeste de Taiwan.

Vencedor de um concurso realizado pela prefeitura do município em 2005, o projeto de Ito foi inspirado em uma proposta que ele havia esboçado um ano antes, para o Fórum de Música de Ghent, na Bélgica: um emaranhado de túneis, lembrando cavernas, fortemente influenciado pela textura dessa cidade medieval. O que os belgas recusaram, os taiwaneses resolveram abraçar, apostando que estavam diante de uma ideia visionária. Só não se sabe se, àquela altura, eles podiam imaginar todas as dificuldades que a obra enfrentaria durante os 11 anos que levou para ficar pronta – apenas para encontrar uma construtora foram quase dois anos. “Ninguém queria fazer!”, diverte-se Ito, que, nesse meio tempo, até levou para casa um Prêmio Pritzker de Arquitetura, em 2013.

A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO

Mesmo para a equipe responsável pela modelagem do mockup que ajudou a guiar os trabalhos de engenharia, a complexidade estrutural proposta por Ito se mostrou um desafio. Labiríntico, o desenho é composto de formas geométricas tridimensionais que se assemelham a catenoides, espécie de cilindro cinturado que surge, por exemplo, quando se brinca com aros para fazer bolhas de sabão.

Baseada na tentativa e erro, a solução encontrada para empreender a construção foi montar um esqueleto de treliças de aço – composto de 28.670 peças de 20 cm cada, nenhuma com o mesmo formato -, combiná-lo com estrutura metálica convencional e lajes de steel deck em alguns pontos estratégicos e revestir todo o conjunto com uma camada de concreto de 40 cm de espessura, totalizando uma área de 21.640 m².

Em alguns trechos, houve tanta dificuldade na aplicação do revestimento que a opção recaiu sobre o uso do concreto projetado. Normalmente empregado em túneis, trata-se de um método simples que se vale de bombas de ar comprimido e mangueiras para projetar o concreto a certa distância. No teatro de Taichung, no entanto, nada é tão simples como pode parecer: como a estrutura que receberia o concreto era vazada, foi preciso colocar sobre ela uma armação de aço temporária, inteiramente coberta de uma malha metálica. Essa malha, por sua vez, serviu de base aderente para a fixação do concreto. Para o arquiteto, poucas obras dependem tão intensamente de um esforço conjunto entre tecnologia de ponta e trabalho artesanal como essa dependeu.

RESULTADO

Toda a geometria veio primeiro, e então, nos maiores vãos disponíveis entre os catenoides, foram encaixados os três teatros que compreendem o programa: Grand Theater, com capacidade para 2.000 pessoas; Playhouse, para 800; e Black Box, para 200. Nos caminhos para chegar até eles, não faltam galerias curvas, escadas espiraladas e túneis onde não há distinção entre chão, paredes e teto – tudo pensado para que a experiência de estar ali mexa com os sentidos e com as emoções dos visitantes. No interior dessa caverna, como o próprio arquiteto gosta de chamar o complexo, surgem lojas, galerias de arte e restaurante.

Em todos os ambientes, o uso minimalista das cores, típico do trabalho de Ito, se traduz em esparsas pinceladas de azul e vermelho sobre uma base profundamente branca. Na fachada, grandes painéis de vidro, acompanhando o desenho das catenoides, descortinam a vista de Taichung e favorecem o diálogo com a cidade. Já do lado de fora, o topo do edifício guarda ainda uma última surpresa: a cobertura se revela um parque verde, com trilhas para caminhada que seguem à risca os conceitos nada ortogonais – e por isso mesmo tão envolventes – do interior do prédio.

Por Carine Savietto