Inspirado no modernismo brasileiro, projeto de residência em Melbourne, na Austrália, tem volumetria longitudinal, de blocos sobrepostos, que expõe, em balanço, a bela aparência do concreto

Melbourne está na mesma faixa de latitude do extremo sul do Brasil, com clima temperado oceânico de temperaturas médias ao longo do ano que ultrapassam os 20° C – e bastante umidade. Tudo muito familiar para nós, brasileiros. Informações relevantes para quem vai projetar uma residência.

O número de dias ensolarados por ali é maior do que os cinzas e nublados, e a cidade fica localizada na grande baía natural de Port Phillip, voltada para o Pacífico Sul. É sol, é mar; é tudo que um bom projeto modernista precisa.

O nome Concrete por si só já fala muito da inspiração no Brasil. A fachada frontal, sul, exibe enorme balanço cônico para terraço suspenso em concreto armado aparente, suportado por um bloco opaco de ponta a ponta, no pavimento térreo, com fechamentos de madeira e aço (porta principal central).

No canto direito (leste) da fachada, um fechamento de pedras esconde o banheiro da suíte, iluminada internamente por um átrio ajardinado e descoberto.

Para o norte (fundos do terreno), as duas faixas, tanto do pavimento superior quanto do inferior, são envidraçadas, e abrem completamente os ambientes internos para o jardim, com quadra de tênis.

Assim, a casa organiza-se em dois eixos longitudinais: um norte, social, mais aberto, mas ao mesmo tempo mais privativo, e um sul, íntimo, ambos divididos latitudinalmente por um corredor central que cria dois blocos (oeste e leste) quase simétricos.

PARALELO MODERNO
Outro paralelismo interessante com o modernismo está nas empenas cegas laterais da Concrete House – num bairro de terrenos residenciais contíguos, embora as casas não sejam geminadas, é importante manter a privacidade em relação aos vizinhos.

Internamente, a casa é projetada para revelar uma sequência de espaços que combinam compacidade com amplitude, a partir da variação das alturas dos forros, com ambientes com pé-direito duplo (tão ao gosto brasileiro) ou simples – a comunicação livre entre os espaços internos é tanto horizontal quanto vertical, assim como o alcance da luz e da ventilação naturais.

E não é só: na entrada metálica na fachada frontal está um corredor-galeria com pé-direito duplo coberto por claraboia – que oferece alto nível de iluminação. Outra abertura (esta comprimida por forro baixo) revela a área social viva, integrada e dinâmica, e portas de correr de vidro totalmente retráteis, na passagem para o jardim, a quadra e a piscina.

Espaços amplos, altos e formalmente simples são características bem típicas do modernismo brasileiro. O projeto também lança mão de muito concreto e vidro, respectivamente, para estruturas aparentes e o fechamento de vãos.

Indo além, a equipe de arquitetos do Matt Gibson abusou de pisos de cimento queimado, além de caixa de lareira e bancada de cozinha integrada revestida do mesmo material polido, ora cru, ora resinado.

Gesso branco é utilizado para fins práticos, intercalado entre madeira, pedra (pedido especial do cliente), aço e concreto, que predomina.

“A inspiração no modernismo está em criar um pano de fundo natural para o estilo de vida do cliente, que coleciona obras de arte e mobiliário. Por isso, também investimos em couro para os dormitórios, e peças estratégicas que remetem ao design dos anos 50 e 60”, diz Matt Gibson.

Assim, dialogam harmonicamente o clássico e o contemporâneo. Com volumetria de caixas sobrepostas, linhas retas e busca incessante de conforto térmico e luminoso, a Concrete House poderia estar, facilmente, num bairro brasileiro de alto padrão, litorâneo ou mais urbano.

SUSTENTABILIDADE
O projeto parte para múltiplas técnicas passivas de conforto ambiental. A começar pela implantação, orientada para o norte, que maximiza o aproveitamento da luz do sol, e o desenho nas beiras do pavimento superior, que protegem áreas íntimas do excesso de luz e calor.

Ventilação cruzada e provisão de massa térmica nos pisos e nas paredes também deixam ambientes internos mais agradáveis – a direção do sol poente não tem fechamentos de vidro.

Onde há vidros, eles são duplos e filtram raios ultravioleta (Low-E), reduzindo ainda mais o superaquecimento.

Um tanque para o reaproveitamento de água, enterrado, armazena até 20 mil litros, e o sistema de aquecimento residencial é hidrônico, instalado por dentro das lajes, com controle termostático – no sul da Austrália, nas noites de inverno, as temperaturas podem chegar a próximo de zero.

“A escolha de materiais robustos para os revestimentos externos não se trata apenas de uma intenção estética de proposta modernista, também garante massa isolante, durabilidade e fácil manutenção – principalmente no caso do concreto armado e da pedra”, explica Gibson.

Por outro lado, a opção por claraboias, fechamentos envidraçados e pés-direitos duplos é acompanhada por sistemas de brises de madeira, que filtram a luz solar onde excessivamente intensa, sem perder ventilação, promovendo economia de energia elétrica.

Essa solução se fez necessária numa planta em que a maioria dos ambientes está conectada com um jardim, que pode ser aberto ou fechado – uma necessidade do cliente era que os espaços tivessem apelo natural, honesto e prático, de uma beleza que não tolhesse seu máximo uso e proveito. Mesmo que elegante e grandioso, era para ser tudo muito à vontade.

“Nossa perspectiva é de que o conforto e a economia não devem ser benefícios estritamente individuais e espaciais do uso, mas precisam atender às necessidades sociais e mesmo psicológicas dos usuários”, comenta o projetista.

Conceitualmente, o desenho arquitetônico oferece a futuros usuários a flexibilidade necessária para o rearranjo de espaços – a pegada do piso térreo é aberta, de ambientes integrados (inclusive com o jardim), permitindo abrir ou fechar novos ambientes, ao gosto de quem ocupa, ou mesmo no ritmo da estação mais quente ou mais fria do ano.

Para Matt Gibson, sustentabilidade também se reflete numa planta que maximize eficiência e versatilidade, sem deixar de abrigar, num determinado momento, o programa de uso com bastante conforto.

Como outras obras modernistas, que são eternas, a Concrete House nasceu para ser longeva, com meios baratos de refrigeração e de aquecimento, reduzido consumo energético e design flexível, sem deixar de ser bela, monumental e de uma arquitetura com raízes históricas muito bem fincadas.

POR GIOVANNY GEROLLA FOTOS DEREK SWALWELL