Materioteca: efeitos didáticos de um banco de materiais para arquitetura e design

Modelo de gestão da materioteca Materiali e Design, do Politecnico di Milano, serve de inspiração para a Materialize, da FAU-USP
Em 29 de novembro de 1863, a cidade de Milão despontava como a primeira da Itália a abrigar um instituto técnico superior e politécnico. Desse núcleo nasceu a Scuola Politecnica di Design di Milano, uma das pioneiras da Europa no estudo de design. A instituição baseou-se no modelo dos institutos politécnicos alemães e suíços e promoveu uma cultura técnica e científica focada na especialização. Em pouco tempo, o Polimi tornou-se o centro de todas as iniciativas educacionais e de divulgação no mundo técnico e científico italiano.

Ainda no século 19, consolidou-se como um centro de pesquisa aplicada, ao qual as empresas recorriam para realizar testes e estudos.

FOTOS: ANA PAULA MALDONADOA arquiteta Denise Dantas esteve no Polimi pela primeira vez no começo dos anos 1990, quando se especializou em desenho industrial. Naquela época, uma das preciosidades educacionais do Polimi, a materioteca Materiali e Design, não passava de uma ideia que seria concluída apenas no ano 2000. Com o passar do tempo, o acervo do laboratório foi estabelecido dentro do Departamento de Química, Materiais e Engenharia Química Giulio Natta, e hoje conta com mais de 5 mil amostras de interesse acadêmico. São 17 anos de amostras reunidas em um só lugar para o uso não apenas do design e da arquitetura, mas também dos estudantes de química e engenharias.

Em 2006, a então professora doutora Denise Dantas, docente do curso de design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, voltou a Milão inspirada pela riqueza da materioteca e ficou maravilhada com o enorme acervo e as possibilidades desse espaço. A Biblioteca Materiali e Design fornece informações atualizadas sobre materiais tradicionais e inovadores, suas propriedades e usos em diversas áreas. As amostras são classificadas e catalogadas de acordo com critérios úteis para cada projeto. “As descrições incluem as propriedades físicas, de expressão sensorial e química”, diz Denise. A coleção é constantemente atualizada graças a contatos com indústrias nacionais e internacionais, que também atuam em parceria com a universidade no desenvolvimento de pesquisas. “Há um intenso intercâmbio multidisciplinar nos estudos”, afirma a professora.

A coleção é constantemente atualizada graças a contatos com indústrias nacionais e internacionais, que também atuam em parceria com a universidade

Em meio à revolução causada pela interatividade dos meios eletrônicos, pouco se fala dos efeitos dessa mudança cibernética no cenário da didática de ensino da arquitetura e do design. Ensinar a projetar mudou de maneira muito significativa, principalmente no que tange à gama de materiais disponíveis para a concepção do projeto. Há quem defenda a forma como a geratriz do objeto ou da arquitetura em si. No entanto, diante da multiplicidade de polímeros, madeiras (flexíveis, recompostas e até líquidas) e demais alternativas inseridas no contexto de Life Cicle Design, área de estudo do pesquisador Carlo Vezzoli, também do Polimi, que defende o ciclo de vida do produto da concepção ao descarte como responsabilidade do designer, o projeto tem sofrido metodologicamente revolução semelhante à dos meios digitais. Diante dessa necessidade de acompanhamento dos materiais, a figura da materioteca torna-se quase indispensável para os cursos de arquitetura e design.

Quando a direção da Biblioteca Materiali e Design foi assumida pela pesquisadora Barbara del Curto, não por acaso ph.D. em engenharia de materiais, em 2010, começou uma parceria entre o Politecnico di Milano e a FAU-USP. “Firmamos um convênio de dupla formação para os estudantes de graduação, que podem passar um ano na Itália e ter o diploma validado nos dois países”, explica Denise.

O mesmo vale para os alunos italianos que estudam no programa brasileiro e recebem titulação da FAU-USP.

Ensinar a projetar mudou de maneira muito significativa, principalmente no que tange à gama de materiais disponíveis para a concepção do projeto

CLASSIFICAÇÃO DECIMAL PRÓPRIA DE MATERIAIS
O contato estreito com o Polimi despertou em Denise Dantas o sonho de montar uma biblioteca de materiais nos parâmetros da coleção italiana. Em 2014, surgia na USP a materioteca Materialize, criada como um projeto- piloto. Atualmente, o acervo conta com cerca de 500 amostras físicas de materiais de dez categorias diferentes. “Em minhas visitas a Milão aprendi bastante sobre os sistemas de organização e classificação dos materiais”, diz Denise. A professora explica que também absorveu muitos conhecimentos a respeito da conservação de elementos que precisam ser mantidos em condições especiais. “Dentro de nossas possibilidades, eu e minha equipe procuramos reproduzir esses conceitos aqui.”

Denise Dantas esclarece que os pesquisadores do Polimi desenvolveram uma classificação decimal própria de materiais, orientada a projetos de design e arquitetura. Essa identificação considera tanto propriedades físicas e mecânicas quanto as expressivo-sensoriais, imprescindíveis para alunos e profissionais da área. Segundo a professora, o intercâmbio entre as duas instituições permite a utilização desse sistema no acervo da FAU-USP. “Isso oferece a possibilidade de futuras trocas entre os dois sistemas e o compartilhamento de informações técnicas e científicas”, diz.

Os resultados mostram que a parceria internacional, baseada num processo de colaboração aberta, permite explorar a perícia do Polimi e ao mesmo tempo respeitar as especificidades locais do Brasil. Denise esclarece que não há um modelo de transferência de conhecimento, mas uma apropriação e aplicação de experiências, ampliando seu potencial para o desenvolvimento de um sistema internacional de classificação de materiais para o uso no design e na arquitetura.

Denise Dantas explica que a percepção dos alunos sobre a parceria entre as duas instituições é extremamente positiva. Segundo ela, as palestras e os workshops de Barbara del Curto na FAU-USP, por exemplo, são bastante concorridos. “Em especial pelos alunos de pós-graduação, que conseguem mensurar as diversas possibilidades de uso dos materiais abordados nos artigos.” Para a professora, os estudantes brasileiros sabem como é enriquecedor ter à disposição um acervo com mais de 5 mil tipos de material.

Os estudantes brasileiros sabem como é enriquecedor ter à disposição um acervo com mais de 5 mil tipos de material

A PARCERIA COM O SETOR PRODUTIVO É INTERESSANTE PARA A PESQUISA
Barbara del Curto, diretora do laboratório Materiali e Design, explica que a interface do Politecnico di Milano com as indústrias é incentivada pela universidade e valorizada pelo mercado. A pesquisadora comenta que na Itália há um modelo que oferece mais liberdade para os intercâmbios entre o setor produtivo e a academia. “Isso inclui financiamento no longo prazo, liberdade na obtenção dos resultados finais, mas não necessariamente os de interesse das empresas, acordos e contratos de vários tipos”, explica Barbara. Também há mestrandos e doutorandos atuando dentro de empresas com suas pesquisas, tendo a tutoria da universidade (modelo semelhante pode ser encontrado nas faculdades brasileiras de engenharia, mas é incomum nas escolas de arquitetura e design daqui). Barbara dirige estudos em áreas arrojadas, como materiais inovadores e funcionais (smart materials), nanotecnologia e tratamentos funcionais de superfícies e sua aplicação e transferência de tecnologia para o mundo do design, nos quais essa interação é muito importante. “Existe uma gama de possibilidades que são relevantes para ambos os lados”, completa a pesquisadora.

Por sua vez, na FAU-USP essa realidade está longe de ser reproduzida. “Gostaria muito que tal grau de parceria com o setor produtivo fosse possível num futuro próximo”, afirma Denise Dantas. Ela conta que há parcerias de patrocínios em eventos por parte de empresas como Braskem e Natura, por exemplo. “Algumas companhias também doam amostras para o nosso acervo ou para as exposições, mas é tudo”, lamenta.

A interface entre o Polimi e as indústrias é incentivada pela universidade e valorizada pelo mercado. O modelo italiano oferece mais liberdade para os intercâmbios entre os setores

Denise afirma que várias indústrias demostram interesse em desenvolver trabalhos com a FAU, mas os trâmites internos são burocráticos e demorados. “Não há um departamento que centralize essas demandas para todas as faculdades. Acabamos perdendo muitas oportunidades.” A professora acredita que tais iniciativas poderiam ampliar a visão dos empresários sobre aplicações práticas da produção acadêmica e ao mesmo tempo oferecer aos alunos uma percepção da realidade do mercado de trabalho.

DENISE DANTAS 
Professora doutora do curso de design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, especializada em desenho industrial, desenvolveu a materioteca Materialize, também na USP, a partir de inspiração no laboratório Materiali e Design do Politecnico di Milano, na Itália

POR: ALEXANDRA GONSALEZ FOTOS: ANA PAULA MALDONADO