Como o mobiliário corporativo vem acompanhando a evolução da forma de trabalhar

Quais as principais mudanças nos escritórios ao longo do tempo?
ANA CRISTINA TAVARES –
 Aproximadamente, de 20 anos para cá, estamos vivendo uma transformação comportamental muito significativa. E isso se verifica, inclusive, nos meios profissionais, enquanto as pessoas estão trabalhando. Essa nova dinâmica de trabalho influencia diretamente na maneira como as pessoas se relacionam com o espaço corporativo. As grandes incorporações, que até pouco tempo apostavam em ambientes mais formais, estão se reorganizando e tentando entender o que está acontecendo no mundo, refletindo essa quebra de estereótipos no perfil de seus escritórios a fim de não perder mercado.
TERESA RICCETTI – O escritório mudou para proporcionar a integração entre os funcionários de todas as hierarquias. Esse próprio modelo de hierarquia sofreu mudanças severas e continua em constante mudança. Nasceram novos organogramas, e o espaço, assim como o mobiliário, deve acompanhar esse novo perfil de quadro de funcionários. Exigências antes focadas nas questões ergonômicas extrapolam hoje aspectos normativos e dimensionais debate para preocupações mais subjetivas, e não menos importantes, como o bem-estar das pessoas, o conforto ambiental e a saúde psicológica e emocional dos funcionários.
CIBELE TARALLI – É curioso observar que, em meio a essas mudanças no perfil das próprias empresas, vivemos o ápice da revolução dos meios digitais e eletrônicos, que funcionam como combustível para essa adaptação dos espaços. Em alguns setores a mudança ocorre de forma mais rápida, em outros não. Nas áreas em que há os conhecimentos segmentados, como a medicina e o direito, isso acontece de forma mais lenta, ao contrário de áreas mais dinâmicas, como as ligadas à comunicação ou publicidade. Olhamos, hoje em dia, muito mais para as atividades e para o ser humano.

É o momento dos espaços colaborativos e do open space?
MOEMA WERTHEIMER –
 Antes de qualquer coisa, o arquiteto precisa entender para quem ele vai projetar. Senão, acabamos usando um estereótipo ou uma fórmula de sucesso que não se aplicam a todas as situações. Um modelo de projeto que é perfeito para um determinado segmento não necessariamente se aplica a outro. Demandas que parecem idênticas podem esconder particularidades intrínsecas ao perfil variável de cada cliente. O grande erro é criar rótulos e agir de forma automática. É claro que há uma tendência de espaços compartilhados, os chamados open spaces, mas não podemos dizer que esse modelo é ideal para todo tipo de escritório.
FÁBIO JOSÉ RICCO – A ideia de escritório colaborativo pode ser interessante, mas é fundamental, antes da concepção do projeto, avaliar se a dinâmica da empresa comporta esse perfil. O nosso papel como fornecedores é dar subsídio para o projeto a fim de gerir a produtividade e melhorar o uso do espaço. Acredito que há empresas migrando para o open space, mas há aquelas que já não suportam esse formato. Cada uma precisa analisar qual é o melhor partido diante da própria realidade.
SILVIA SERBER – Embora o open space são de fato uma recorrência nos projetos de espaços corporativos, as conhecidas baias, que tendemos a achar que não existem mais, ainda são imprescindíveis. Além dessa adequação macro em relação à dinâmica do espaço e definição dos usos para cada tipo de companhia, é preciso atentar para o tempo de permanência das pessoas nos postos de trabalho. Essa questão interfere diretamente na saúde delas. Ficamos mais tempo sentados do que deitados. Daí a necessidade da escolha consciente de cadeiras de excelente qualidade. É fundamental pensar na qualidade de vida dentro dos escritórios.
TERESA RICCETTI – O espaço aberto tem uma razão de existir. Reflete o compartilhamento que pode ser verificado em todos os âmbitos. Sou pesquisadora, trabalho em uma universidade, e compartilho meu espaço de pesquisa com outros colegas. Lido diariamente com o bônus de dividir conhecimento com outros docentes, mas tenho de buscar um outro espaço quando preciso de concentração para escrever, por exemplo. Acho difícil voltarmos tão cedo às antigas salas fechadas, fragmentadas. No entanto, precisamos de áreas de uso específico e, mais do que isso, de uma ótima conduta dos funcionários. É um problema de cultura, que deve ser trabalhado com as equipes pelas empresas.
ANIR DECO – Com tamanha evolução dos hábitos dos consumidores, o fabricante de móveis tem de estreitar ainda mais os laços com os escritórios de arquitetura. Temos notado que a questão do open space não é uma tendência, mas um formato já consagrado. É nossa função, como fornecedores de mobiliário corporativo, acompanhar essa demanda e oferecer aos arquitetos produtos que possibilitem a geração de áreas colaborativas funcionais, condizentes com o cenário atual. Para isso, devemos aliar design à tecnologia. Além de uma equipe capacitada de designers, deve-se contar com um subsídio que vem das fábricas, hoje superautomatizadas, que seguem um rigor de limpeza e organização semelhante ao do universo dos produtos hospitalares.

O mobiliário pode contribuir para a definição de uso dos espaços?
TERESA RICCETTI – 
Sim, tanto o compartilhamento como a setorização do escritório podem ser resolvidos com a posição e o layout dos móveis. O mobiliário pode funcionar como a ferramenta que define as próprias células, atribuindo a cada espaço tarefas específicas por meio do objeto.

O uso de cores vibrantes no móvel ou no escritório é uma tendência?
ANA CRISTINA TAVARES –
 Não exatamente. Primeiro, você precisa entender qual o perfil da empresa e o que essa cor pode agregar em termos de projeto. Tons específicos podem ser usados como forma de renovação do ambiente, identificação de uma marca, reposicionamento de uma identidade visual. O uso da cor em ambientes corporativos transcende a questão do equilíbrio estético.
FÁBIO JOSÉ RICCO – Em termos de demanda, posso dizer que o móvel colorido não tem uma saída expressiva. Já os acessórios, sim. Os planos maiores geralmente são produzidos nas cores mais básicas, como branco e cinza. Imagine-se em um escritório marfim [estética datada, hoje fora de moda]. Projeto corporativo não é algo pessoal. Para os escritórios, você define a cor de que mais gosta, mas deve ser pensada num universo maior.
MOEMA WERTHEIMER – Nem todos os clientes costumam pedir escritórios coloridos. Existe o cliente leigo, que vem com menos informação. Mas existe o profissionalizado, que já conhece melhor a demanda e nos apresenta um guideline determinado, um padrão de cores que deve ser respeitado. Mas, se hoje o nosso problema é custo, vamos de móvel branco, que custa menos, e a cor vai parar na tinta da parede.

Estamos vivendo a era da massificação dos móveis personalizados e customizados?
EVANILDO TAGLIERI – 
É fato que os móveis estão mais customizáveis. No entanto, excluímos dessa dinâmica a cadeira, que é algo mais caro e complexo. O investimento na fabricação de uma cadeira de qualidade é bem elevado. A única coisa que podemos customizar, nesse caso, é o revestimento, o que também ocorre nas divisórias e nos demais itens do mobiliário.
FÁBIO JOSÉ RICCO – Sou contra o especial, que já é oferecido pelos marceneiros. O produto que precisamos oferecer como fabricantes de produtos em escala deve ter alta performance. E mais: se a pessoa vai expandir o escritório, ela precisa aplicar essa base em tudo. É preciso ter a segurança sobre a perenidade dos objetos para que estejam disponíveis no mesmo padrão em demandas de complementos e expansão de escritórios. É preciso pensar na empresa, e não apenas num indivíduo.
MELISSA FRANCANI – Fazer algo especial não significa mudar a linha de produção de um mobiliário ou criar um formato esquisito que vai elevar os custos. Vai ficar mais caro remanejar ou complementar um objeto já produzido. Aí sim, muitas vezes, fica inviável. A customização merece cuidados. Você pode mudar cores e dimensões, não o conceito da peça, que foi muito bem pensada e testada antes de ser incorporada ao portfólio da empresa.
ANIR DECO – Os fabricantes, de modo geral, contam com um catálogo e há medidas de programação de máquinas. Esses são fatores que limitam a customização. No entanto, enxergamos a personalização dos objetos como um execelente diferencial de competividade. Vai custar mais caro sim e, caso esteja disposto, o cliente investirá mais por isso.
MOEMA WERTHEIMER – Precisamos encarar o momento econômico do país. O que manda é o preço. Você pode ter investido muito em pesquisa, mas na hora de fechar o pedido o cliente prioriza a última linha do orçamento. Se pensarmos em tempos melhores, a palavra deve ser adaptabilidade. O móvel precisa ser pensado como um ser vivo, que vai se moldando conforme o tempo.
SILVIA SERBER – Às vezes sinto que as questões ergonômicas são colocadas em patamar inferior às estéticas. É claro que o resultado formal do mobiliário é essencial. No entanto, é essencial dispor de uma gama de cadeiras com tamanhos adequados para diferentes perfis de usuários, com regulagens que contemplem estaturas e biótipos distintos. Isso é chamado de customização funcional. Quando você investe numa boa cadeira, automaticamente está investindo no funcionário. E ele se sente privilegiado.

Na compra de um móvel, a ergonomia é o que mais importa?
TERESA RICCETTI –
 Na hora de especificar o mobiliário, ergonomia é fundamental. Permanecemos longos períodos sentados, e essa é uma tendência que independe do ramo de atuação do escritório. É fato que, mesmo tendo acesso a uma boa cadeira, projetada de acordo com parâmetros ergonômicos desejáveis e que atenda a todos os requisitos de conforto, as pessoas sentam errado. É uma questão de postura corporal que reflete diretamente na saúde do usuário.
CIBELE TARALLI – Ergonomia é hoje um assunto relativizado. Os alunos na universidade não querem falar disso, pois acham que essa questão está incorporada de forma intuitiva à concepção do projeto. Mas é fato que não está. E também é fato que atender às normas é o mínimo para a viabilização de um projeto e sua respectiva produção em série. Mas apenas a norma não garante o conforto necessário.
MOEMA WERTHEIMER – Pensando pelo lado bom dos tempos de hoje, pode-se observar no ambiente corporativo que a consciência das pessoas com o bem-estar no trabalho tem aumentado. Virou uma exigência, não mais uma tendência. Devemos respeitar o usuário que tem pernas mais longas. O efeito direto dessa consciência despertou uma demanda por esse mobiliário flexível, que abraça o usuário. Diante da demanda crescente, aumenta a escala de produção e o preço cai.

Como é capacitada a mão de obra dos montadores?
ANIR DECO –
 A diferença dos produtos completos, que oferecem uma solução global ao cliente, está justamente no pós-venda. Isso inclui o serviço de montagem e a manutenção e reposição de peças ao longo da vida útil do objeto. Em nossa empresa, treinamos e certificamos montadores, com aprimoramento constante. A nossa preocupação está em cada detalhe, na prestação de serviço como um todo, e não se encerra na entrega do móvel.
EVANILDO TAGLIERI – Toda nossa cadeia logística está centrada na entrega, com eficiência, da mobília de escritório. É nessa hora que entramos, de fato, em contato com o cliente. Treinar a equipe não significa apenas garantir a montagem correta do móvel. Significa entregar e montar, com excelência, no menor prazo possível. Quanto menos tempo a equipe de montagem permanecer no local de entrega, melhor. Nossa estratégia para isso é entregar os móveis o mais próximo da configuração final possível. Há algum tempo, fornecíamos as divisórias com os vidros soltos do quadro. Hoje, mandamos para a obra quase tudo montado. Ganha-se agilidade sem perder qualidade.

FOTOS: LUIS GOMES

Ana Cristina Tavares 1 , do escritório KTA Arquitetura Fábio José Ricco 2 , diretor da Riccó Móveis Silvia Serber 3 , diretora de marketing da Atec Original Design Dra. Teresa Riccetti 4 , docente e pesquisadora no curso de design da Universidade Presbiteriana Mackenzie Moema Wertheimer 5 , arquiteta da MW Arquitetura Dra. Cibele Taralli 6 , docente e pesquisadora do departamento de projeto da FAU-USP nos cursos de arquitetura e design Anir Deco 7 , diretor da Caderode Evanildo Taglieri 8 , sócio-diretor da Interact Divisórias Melissa Francani 9 , executiva de vendas da Vitra

POR: DAN BRUNINI FOTOS: LUIS GOMES