Barbara del Curto, fala sobre a importância da parceria entre universidade e indústria para a pesquisa e a efetiva implementação de práticas inovadoras em processos de produção

Em 2000, a italiana Barbara del Curto, especialista em design industrial, conquistou seu master degree na prestigiada Scuola del Design do Politecnico di Milano com a dissertação “Materiali e Design, a Materials Library”. Desde então, a professora de fala pausada e olhar atento não esconde o orgulho ao discorrer sobre seu trabalho na materioteca do Polimi, que hoje conta com mais de 5 mil amostras, que contribuem para a pesquisa acadêmica e industrial.

Com o título de ph.D. em engenharia de materiais nas mãos, Barbara recebeu um convite para assumir o cargo de professora associada em ciência e tecnologia de materiais no Politecnico. Hoje, ela dirige o laboratório Materiali e Design, além de lecionar em disciplinas relacionadas à transferência de tecnologia de nanotecnologias, materiais tradicionais e funcionais para design, têxteis e arquitetura. “O designer tem um enorme campo de possibilidades, no qual a escolha dos materiais e a definição dos processos podem ser combinadas”, afirma.

FOTOS: DIVULGAÇÃO / ANA PAULA MALDONADO

Sua inovadora pesquisa sobre tratamentos superficiais de titânio para aplicação na indústria joalheira, entre outros projetos, apresenta a estreita relação entre a pesquisa desenvolvida no Politecnico di Milano e o setor produtivo italiano, com o qual mantém uma saudável parceria. Para a pesquisadora, a nanotecnologia tem sido uma ferramenta de peso na reconfiguração de utilização das matérias-primas. “Não há mais o conceito de que apenas um tipo de material é a escolha óbvia para um determinado produto.”

Barbara esteve no Brasil em 2016, quando participou de uma série de workshops promovidos pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo. Ela ficou impressionada com o design industrial desenvolvido na fábrica de aeronaves Embraer, em São José dos Campos, SP. A próxima viagem de intercâmbio está programada para fevereiro e uma agenda intensa a aguarda. “Quando vim da última vez estava grávida e, por isso, não fiz todas as visitas técnicas que pretendia. Agora, quero conhecer mais empresas e fazer muitos encontros acadêmicos. Estou bastante animada com a oportunidade”, completa.

Qual é a importância do trabalho desenvolvido pelo Politecnico di Milano para o design europeu?
O Politecnico di Milano foi fundado em 1863, é a primeira escola de design da Itália e uma das pioneiras na Europa. Sua relevância é notória pelo trabalho acadêmico e pela parceria em projetos com o mercado. Na graduação, o Polimi oferece mais de 30 cursos. Dentre eles, é latente a excelência, por exemplo, em design de produtos, design para a comunicação e no mundo da moda e da joalheria. Outra experiência importante é a International Job Fair, um evento anual de recrutamento organizado pelo serviço de carreira da universidade. A feira possibilita aos alunos e graduados do Polimi, interessados em prosseguir em uma carreira fora da Itália, estabelecerem network de peso com os principais empregadores do continente, que vão ao campus oferecer oportunidades em todo o mundo.

Como é o seu trabalho na materioteca Materiali e Design?
O acervo da Biblioteca Materiali e Design começou a ser criado há 17 anos e, desde então, há uma evolução permanente de softwares, livros, novos materiais, referências e pesquisas. O trabalho ali me inspira, tanto na vida acadêmica quanto no trabalho prático, a solucionar questões do cotidiano sobre consulta e armazenamento desses materiais. É um acervo muito rico e vivo, o trabalho em equipe é constante para fazê-lo acessível aos estudantes, que podem visualizar e tocar tudo o que está disponível e com isso enriquecer seus estudos.

O acervo da materioteca do Polimi oferece mais de 5 mil amostras de materiais de todos os tipos. Há algum que considera peculiar?
Sim, os materiais com propriedades fotocrômicas, termocrômicas e fotocatalíticas. Eles são bastante novos e diferentes, pois visam obter condições antibacterianas, estabilidade térmica, além de proporcionarem características estéticas aos produtos. Esse grupo específico costuma ser pesquisado pelos estudantes de pós-graduação em engenharia de superfície; engenharia de polímeros; nanomateriais e nanotecnologia; engenharia de aplicações e micromecânica. Por sua vez, os alunos da graduação têm um interesse maior pelos polímeros, que são os mais requisitados nessa turma. Os plásticos, particularmente, atraem pela versatilidade que oferecem no design de diversos objetos.

“Sua inovadora pesquisa sobre tratamentos superficiais de titânio para aplicação na indústria joalheira, entre outros projetos, apresenta a estreita relação entre a pesquisa desenvolvida no Politecnico di Milano e o setor produtivo italiano, com o qual mantém uma saudável parceria”

Qual é a importância da escolha da matéria-prima para o design? Você acredita que o material determina a forma de um objeto?
Quando pensamos no design de um produto, automaticamente imaginamos uma matéria-prima para dar forma a ele. Então, acredito que a definição dessa matéria-prima é muito importante para os usos no design. Ao desenhar, temos um conceito, uma ideia das utilidades daquele objeto em particular, que será concretizada, ou não, dependendo de sua base. Por fim, o material escolhido determina a forma do objeto. Às vezes imaginamos um produto no projeto que, ao ser transportado para a prática, se torna inviável em diversas aplicações.

Como funciona a parceria entre o Polimi e o setor produtivo italiano? Qual é a importância dessa política de intercâmbio?
Costumamos trabalhar em parceria com indústrias de Milão e da Lombardia. Para o Polimi e as empresas, esse intercâmbio é algo natural, positivo e de extrema importância. Em alguns casos, as companhias solicitam pesquisas específicas para seu nicho de negócios e pagam por isso. É assinado um contrato entre a universidade e a instituição interessada com regras e detalhes específicos para cada estudo. Podemos desenvolver a pesquisa solicitada e transferir os conhecimentos diretamente para a empresa patrocinadora, que irá aplicá-los em produtos do mundo real. E também temos alguns alunos pesquisadores que fazem estágio dentro das indústrias, com estudos focados em usos determinados, utilizando a estrutura acadêmica do Polimi para seu desenvolvimento. Todas as modalidades de parceria são incentivadas pela universidade.

“O material escolhido determina a forma do objeto. Às vezes imaginamos um produto no projeto que, ao ser transportado para a prática, se torna inviável”

Há um segmento específico com o qual as parcerias são feitas?
Não, nossos intercâmbios são firmados com indústrias provenientes de múltiplos segmentos do mercado. Podemos destacar a Electrolux, que investe em estudos de eletrodomésticos domésticos e industriais. Com a Luxottica Group também temos um forte relacionamento na pesquisa de cardboards, os óculos para a realidade virtual. E outras, como Barilla, de alimentos; United Colors of Benetton, de moda; Titalia, de derivados de titânio; e o Saes Group, em pesquisas com produtos de memória de forma baseados em nitinol, componentes superelásticos e compostos poliméricos funcionais.

Quais são os planos para o futuro do Materiali e Design?
Há muitos planos, mas dependemos de investimentos para concretizar alguns deles. De qualquer forma, estamos bastante focados em estudos de materiais para aplicações em nanotecnologia para design e têxteis, nanotecnologia-TiO2, metamateriais para isolamento térmico e acústico, biomateriais e biomimesis e insumos para o uso em medicina regenerativa. São campos recentes e muito desafiadores, com enorme potencial para descobertas e aplicações.

“Há muita garra e vontade de inovar por parte dos brasileiros”

Há dois anos o Polimi e a FAU-USP mantêm um intercâmbio. Como foram as visitas ao Brasil?
Estive duas vezes no Brasil. Ministrei palestras e workshops e fiz visitas técnicas a indústrias de vários segmentos. Aprendi muito nesses encontros na USP ao observar o que tem sido feito no curso de design no país. Há muita garra e vontade de inovar por parte dos brasileiros. Também visitei lojas de móveis em São Paulo e, especialmente nesse mercado, vejo que há um design interessante, feito com materiais de qualidade. Entretanto, muitas vezes essa produção está ligada à arte, à manufatura, mas não à funcionalidade. É preciso revolucionar a indústria e ter muito cuidado para compreender as diferenças entre essas características. Na Itália, a distinção entre um objeto de arte e outro funcional já está consolidada no cotidiano dos designers – e isso é um fator positivo para a produção. Os brasileiros têm à disposição uma infinidade de materiais originais e potencial para criar, basta ousar um pouco mais.

Como é possível mudar esses paradigmas no Brasil?
No âmbito acadêmico, acho que o papel da universidade é dar mais incentivo às disciplinas de design de materiais. E também fomentar parcerias com a indústria para oferecer uma vivência de aplicações reais dos materiais estudados em sala de aula. Em uma das visitas, em 2015, conheci a fábrica de aeronaves Embraer e fiquei impressionada com a tecnologia, a qualidade do design e do uso dos materiais. A parceria entre universidades e empresas desse porte é a chave para um salto qualitativo fantástico para todos.

POR: ALEXANDRA GONSALEZ FOTOS: DIVULGAÇÃO / ANA PAULA MALDONADO