Paisagem e o pôr do sol são os elementos visuais preponderantes de residência suspensa projetada por Barbara Becker Atelier de Arquitetura em Pato Branco

Os dois volumes suspensos sobre o aclive que a topografia local impõe chamam atenção pelo paralelismo das linhas da fachada – a Mondrian, numa referência subliminar a Ville Savoye (1931) de Le Corbusier – na rua Francisco Xavier, em Pato Branco (PR). Branca e cinza, a edificação foi inaugurada há um ano pelos moradores, um casal com filhos já adultos que havia decidido encerrar suas atividades profissionais para curtir a maturidade. Por essa razão, o projeto arquitetônico coloca em evidência três ambientes: sala, cozinha e sala de jantar. “A casa reflete o estilo de vida contemplativo e de grande atividade social dos clientes. Por estarem em uma nova fase, diferentemente das famílias que estão começando, a casa permitiu uma certa flexibilidade no programa”, pontua a arquiteta curitibana Barbara Becker, autora do projeto.

Com 326 m² de área construída – em um terreno acidentado de 600 m² – a obra foi batizada de Casa da Vista por uma razão “poética”: nos finais da tarde, o pôr do sol invade toda a área social do espaço, convidando habitantes e visitantes à contemplação.

“A vista da cidade expande a sala ao horizonte”, observa Barbara, que utilizou como recurso a própria natureza. “A topografia acentuada do terreno, que descende a partir da rua, permitiu que eu deixasse a vista da cidade ao fundo e o jardim em primeiro plano”, esclarece.

O briefing dos clientes trazia outro desafio. “Eles queriam o mínimo necessário para que a construção pudesse ser chamada de ‘casa’: um quarto para o casal, um quarto para as visitas e espaço para eventos com churrasqueira”, conta Barbara. Mas não foi a partir dessas necessidades físicas descritas no briefing que Barbara captou a essência do que se vê hoje na edificação. Foi traduzindo desejos subjetivos: “Quero sentar nessa sacada para conversar”. Pronto. Ao ouvir essa frase, a arquiteta teve o insight para criar sua obra. “Dois volumes distintos, correspondentes ao social e ao privado, que se interceptam para formar o todo.”

Resultado: o hall de entrada articula a circulação para as três áreas (a íntima, com os quartos; a social, com a sala e a cozinha; e o nível inferior do jardim com espaço para festas). Toda a área úmida, de serviços e acesso, fica voltada para a rua – enquanto as áreas nobres, que exigem mais privacidade, se voltam para o quintal, acompanhando a trajetória do sol ao longo do dia. Já no piso inferior estão o espaço para festas e o jardim. Regado com uma cisterna de água da chuva captada da cobertura, ele serve de pano de fundo para a área social e tem um projeto paisagístico que proporciona a reestruturação ecológica do terreno, com plantas nativas. “Espera-se que as árvores de médio porte plantadas criem uma nova dinâmica com o espaço interno, que terá relação direta com as copas”, prevê Barbara.

A investigação de materiais se deu em dois momentos: na laje em concreto aparente que revela a textura da madeira do molde e no ladrilho hidráulico do piso. “Ambos valorizam o modo ainda artesanal de construção no Brasil”, afirma Barbara. Fã da obra de Charles e Ray Eames, o “casal de ouro do design americano pós-guerra”, a arquiteta fundamenta sua obra em um dos conceitos deles: “Não há design sem restrições, e apenas reconhecendo e trabalhando dentro de limites (dados ou criados) é que se tem um bom design”.

Considerando sua experiência acadêmica e profissional obtida na Europa e nos Estados Unidos, a arquiteta percebeu que, no início, tentava impor uma certa qualidade construtiva que não condizia com a realidade brasileira. “Eu não estava trabalhando dentro dos condicionantes, como os Eames defendiam”, ela admite. “No Brasil, os engenheiros e os pedreiros sabem construir em concreto com muita confiança, mesmo que empiricamente. E este conhecimento me inspirou a explorar, até como homenagem, esta materialidade”.

O concreto aparente teve tratamento de duas demãos de impermeabilizante sem brilho.

Tanto os pilares quanto a laje exibem a textura das formas. No caso dos pilares, feitos com tubo de PVC; na laje, com ripas de madeira. “A estrutura da laje é com as vigas invertidas, que receberam impermeabilização, isolante térmico e fechamento na área exposta”, revela Barbara. Na vedação entre a caixilharia e a laje de concreto (piso e teto), utilizou-se um selante. “Optei pelo concreto aparente pela facilidade que se apresentaria do ponto de vista do conhecimento técnico da mão de obra. E, como resultado plástico, acho que ele quebra a ideia de limpeza e pureza do branco porque o concreto já nasce com as marcas do tempo ao passo que a parede branca apenas aguarda o tempo se impor.”

Com paleta de cores que oscila entre o branco e o concreto aparente, Barbara traduziu outras ideias fluidas que ouviu dos clientes. “Gosto de azul” foi a frase inspiradora para que ela definisse o ladrilho hidráulico do piso da mesma cor que recebe a mesa de jantar. Elemento central da vida social dos moradores, o mobiliário foi todo escolhido para ser usado – e não para criar efeito decorativo. A mesa de madeira maciça de jequitibá foi feita por um artesão local; já o fogão à lenha foi produzido no Rio Grande do Sul, de onde a família é originária.

Segurança ali existe? De sobra. Primeiro porque Pato Branco, com cerca de 80 mil habitantes, tem índice de criminalidade baixíssimo, já que é uma das três melhores cidades em qualidade de vida do Paraná. Segundo porque, no projeto de Barbara, o acesso da rua alcança apenas a porta de entrada e de serviço. “E, pelos fundos, ele é quase impossível devido ao muro de arrimo muito alto que faz limite com o vizinho”, arremata.

POR: LIDICE-BÁ FOTOS: ESTUDIOGRAMA