MVRDV utiliza tijolos de vidro em fachada de loja de alta costura em Amsterdã, na Holanda

A situação não é incomum em centros comerciais europeus: as tradicionais fachadas de tijolinho aparente cedem lugar, no térreo, a grandes vitrines envidraçadas. O que se ganha em visibilidade, porém, perde-se em herança arquitetônica. Mas esta não foi a história deste edifício localizado na PC Hoofstraat, uma das ruas mais luxuosas de Amsterdã. No projeto de sua nova fachada, assinado pelo escritório holandês MVRDV, a transparência foi conquistada com charmosos tijolos de vidro, que seguem o desenho das peças originais.

Assim nasceu o impressionante Crystal Houses, prédio de propriedade da Warenar – uma investidora de imóveis de alto padrão -, que hoje abriga, além de apartamentos residenciais nos andares superiores, uma loja conceito da Chanel no nível da rua. A grife deve permanecer no endereço até o final de 2017.

“Além de respeitar os arredores, a proposta representa uma verdadeira inovação poética no uso do vidro na construção civil”, aponta Winy Maas, arquiteto e um dos sócios do MVRDV, que enfatiza o fato de se tratar do primeiro projeto do gênero já realizado. Segundo ele, o interessante é o fato de a solução poder ser replicada em qualquer cidade do mundo, fazendo que a necessidade de expor o interior de lojas possa dialogar mais gentilmente com a cor local, ou seja, com as características específicas de cada lugar.

Nesse caso, era também importante que o vidro compartilhasse o espaço com tijolos de barro terracota para que fosse respeitada uma lei municipal destinada a garantir os padrões estéticos dos imóveis da região. A exigência virou um trunfo: os tijolinhos tradicionais passam a impressão de estar flutuando sobre o piso da loja – na altura do segundo pavimento, um material parece se dissolver magicamente no encontro com o outro.

RIGOR ARTESANAL
Devido à sensibilidade do vidro, a implantação do projeto foi extretamente cuidadosa e complexa. Tudo começou com a produção artesanal dos tijolos transparentes, moldados in loco, um a um, por profissionais do ateliê italiano Poesia, baseado na comuna de Resena, próxima a Veneza. Em seguida, entraram em cena as modernas tecnologias que tornaram a construção possível, desenvolvidas em parceria por pesquisadores da Universidade Técnica de Delft, pela engenharia ABT e pela empreiteira Wessels Zeist.

Durante um ano inteiro, cerca de dez especialistas trabalharam diariamente no local, no que se parecia muito mais com um laboratório que com um canteiro de obras. O assentamento das peças, por exemplo, não passou nem perto de uma argamassa opaca: foi feito com uma espécie de cola transparente de alta fixação, com cura por radiação ultravioleta (UV), desenvolvida pela fabricante de adesivos Delo especialmente para o projeto. Apesar da aparente fragilidade, testes realizados pela equipe da Universidade Técnica de Delft concluíram que a fachada da Crystal Houses – que conta até mesmo com a viga mestra confeccionada de vidro – é mais resistente que uma similar de concreto.

INOVAÇÃO
O método construtivo inovador traz inúmeras possibilidades para o futuro da construção, principalmente por seu viés sustentável: além de toda a fachada ser reciclável, o desperdício durante a obra foi inexistente: tijolos imperfeitos, por exemplo, eram simplesmente derretidos e moldados novamente. Para garantir que as necessidades de energia fossem fornecidas por meio de fontes renováveis, o edifício foi projetado em torno de uma bomba de calor geotérmica, composta por tubos de até 170 metros de profundidade, que permitem uma climatização interna ideal em todas as estações do ano.

POR: CARINE SAVIETTO FOTOS: (FACHADA) DARIA SCAGLIOLA & STIJN BRAKKEE