Ainda pouco utilizadas no Brasil se comparadas às de concreto armado, as estruturas metálicas apresentam características intrínsecas ao material, que possibilitam aos arquitetos uma pitada a mais de ousadia na forma

Conquistar grandes vãos ou balanços com uma estrutura esguia fica bem mais fácil quando se trabalha com estruturas metálicas. Lançar mão desta técnica, no entanto, está longe de ser algo bem difundido no país. Seja pela viabilidade econômica, seja pelas limitações que a técnica impõe por conta do uso de mão de obra especializada, a estrutura metálica ainda tem espaço a conquistar por aqui. Fato é que seções de viga de concreto, mesmo protendido, acima dos 50 centímetros, dificultam a finalização da obra. Como a estrutura geralmente não é evidenciada nesses casos, gera a necessidade de instalação de forro e, com isso, perda de pé-direito.

Trabalhar com metal exige diversos cuidados, desde o revestimento adequado das peças para garantir durabilidade até a conexão de vigas e pilares com as demais estruturas, geralmente construídas em concreto armado, principalmente de fundações ou barreiras de contenção. De acordo com o grau de intemperismo a que estiver sujeita a estrutura – isso inclui peças externas e internas e varia de acordo com a região onde estiver – a estrutura deve receber um tipo de revestimento.

O trabalho bem orquestrado entre arquitetos e engenheiros especialistas em estruturas metálicas é fundamental para que os fatores limitantes da execução não prejudiquem a forma. Além disso, fabricante e construtora devem estar afinados na produção de peças que atendam a todos os requisitos necessários, desde o corte até a entrega intacta dos componentes estruturais. Como as peças estarão expostas diretamente em contato com o usuário do espaço, devem vir chanfradas e trabalhadas para este fim. O transporte da estrutura é igualmente importante, já que um solavanco durante a trajetória da fábrica à obra pode causar alterações irreversíveis no perfil de vigas e pilares. Faces em contato – chapas de fixação em lajes ou pilares, por exemplo – devem ser entregues regulares e livre de rebarbas ou respingos de solda para assegurar um acoplamento satisfatório.

A partir do momento em que são produzidos os componentes das estruturas metálicas, em contato com a atmosfera, começa o processo de oxidação. Esse aspecto, somado ao possível contato com materiais oleosos durante o transporte e/ou na própria obra, exige um tratamento dessas superfícies de forma manual (raspagem, lixamento ou escovamento), mecânico (com escovas de aço rotativas) ou químico (com uso de abrasivos jateados).

Os quatro projetos a seguir têm algo em comum: trabalham de forma exemplar o tratamento da estrutura, tanto em termos de durabilidade – com as coberturas ideais para evitar a ação das intempéries (oxidação) – como no âmbito do conforto térmico, com camadas de epóxi, vidro ou madeira que garantem a eficiência necessária. Outro ponto comum entre as obras dos escritórios Obra Arquitetos, Gustavo Penna, Piratininga Arquitetos Associados e Design+Arquitetura é a linguagem explícita da estrutura aparente na fachada de cada projeto. Essa é talvez a principal característica dos projetos que adotam o metal como solução estrutural: opta-se por evidenciar, plástica e esteticamente, o uso do material.

NORMAS PARA PINTURA DE ESTRUTURAS DE AÇO
Steel Structures Painting Council (SSPC) Pittsburg P.A, USA
Norma Sueca SIS 05 5900 (1967) Pictorial Surface Preparation Standard for Painting Steel Surfaces
Norma Britânica BS 5493
Shipbuilding Research Association of Japan Standards for the Preparation of Steel Surface Prior to Painting (Padrão SPSS)
NACE National Association of Corrosion Engineers e Preparation of Ste el Substrates Before Application and Related Products (ISO 8501 -1).

Mix engenhoso
Grandes painéis de vidro revelam o esqueleto metálico aparente – e pintado em epóxi preto justamente para chamar atenção – da Imobiliária Kogake. O projeto assinado pelo escritório Obra Arquitetos, da dupla Thiago Natal Duarte e João Paulo Daolio, ostenta uma estrutura mista: como a ideia era aproveitar o subsolo, neste nível foi executado um muro de arrimo em alvenaria armada, no topo do qual a estrutura metálica, que soma quatro pavimentos, foi acoplada com esperas na viga de coroamento. Um benefício da opção pelo aço foi a possibilidade de criar uma varanda em balanço, que responde pela marcante identidade visual da fachada.

FICHA TÉCNICA

OBRA Imobiliária Kogake
LOCAL São José dos Campos, SP
ANO 2015
ÁREA 413,75 m²
ARQUITETURA Obra Arquitetos (Thiago Natal Duarte e João Paulo Daolio)
ESTRUTURA METÁLICA Franklin Engenharia
CONSTRUÇÃO Hiodemes Barbosa Filho, Ivan Alvarenga da Silva e Juliano de Almeida Barbosa

Retrofit metálico
A modernização e recuperação da Biblioteca Mário de Andrade, uma das mais importantes bibliotecas públicas do Brasil, foi capitaneada pelos arquitetos José Armênio de Brito Cruz e Renata Semin, do escritório Piratininga Arquitetos Associados. A criação de uma nova estrutura acoplada à fachada original foi um dos pontos altos da intervenção: trata-se de um elemento composto por peças estruturais de aço com dimensões mínimas e fechamento com vidros sutilmente inclinados, que serve de circulação entre as duas entradas do edifício e, ainda, reforça os isolamentos acústico e térmico do prédio. Internamente, o aço foi empregado na execução de mezanino, escadas, estantes e prateleiras.

FICHA TÉCNICA

OBRA Bliblioteca Mário de Andrade
LOCAL São Paulo, SP
ANO 2010
ÁREA 12.000 m²
ARQUITETURA Piratininga Arquitetos Associados (José Armênio de Brito Cruz e Renata Semin)
ARQUITETO COORDENADOR Cinthia C. Duclerc Verçosa
COLABORADORES Gustavo M. Panza, Juliana Gomes Trickett, Marco Artigas Forti, Renata Pazero, Marina Malagonili, Liz Arakaki
CÁLCULO ESTRUTURAL PARA AÇO Grupo Dois
CONSTRUÇÃO Consórcio Concrejato Tensor
CONSULTORIA PARA RESTAURO Estúdio Sarasá
CONSULTORIA PARA CONFORTO AMBIENTAL Ambiental

Tecnologias bem casadas
Saída da prancheta dos arquitetos Lígia Vailati e Diego Romero, do Design+Arquitetura, a Casa Inverso exibe estrutura aparente de tubos de aço galvanizados. O fechamento combina painéis de vidro, que permitem o diálogo com a natureza do entorno, e paredes de bloco de concreto, associadas às redes de infraestrutura de elétrica e hidráulica. A boa relação do aço com outros componentes modulares usados na obra, a exemplo da cobertura com telhas metálicas de dupla camada, foi fundamental. Na interface dos pilares com a laje radier feita de concreto usinado polido – que substituiu uma fundação convencional -, o desafio foi chumbar as peças com precisão milimétrica, uma vez que o sistema não permitiria reposicionamentos.

FICHA TÉCNICA

LOCAL Cotia, SP
ANO 2016
ÁREA 240 m²
ARQUITETURA Design+Arquitetura (Lígia Vailati e Diego Romero)
ESTRUTURA E COBERTURA METÁLICAS Luzarte Serralheria
TELHAS Cia Das Telhas
PISO USINADO Concreserv

Traçado dinâmico
Localizado em um condomínio fechado, o Clube Serra Dourada leva a assinatura do arquiteto Gustavo Penna, um dos maiores entusiastas brasileiros da construção em aço. Neste projeto, a estrutura metálica se justifica principalmente pela necessidade de vencer grandes vãos com peças estruturais de pequenas dimensões – tudo para permitir o fechamento exclusivamente com panos de vidro, que convidam a paisagem montanhosa da região a adentrar o pavilhão. O metal também comparece na cobertura, feita com telhas metálicas termoacústicas revestidas de madeira interna e externamente.

FICHA TÉCNICA

LOCAL Vespasiano, MG
ANO 2015
ÁREA CONSTRUÍDA 1.077,35 m²
ARQUITETURA Gustavo Penna (equipe: Laura Penna, Norberto Bambozzi, Alice Leite Flores, Alyne Ferreira, Ana Isabel de Sá, Carolina Castro, Catarina Hermanny, Eduardo Magalhães, Fernanda Tolentino, Gabriel de Souza, Henrique Neves, Isadora Dawson, Ivam Rimsa, Marco Vilela, Marcus Flávio Martins, Michelle Moura, Miriam Hiromisassaki, Naiara Costa, Natália Ponciano, Odedstahl, Patrícia Gonçalves, Paula Bruzzi, Paula Salum, Priscila Dias de Araújo, Raquel de Resende, Ricardo Gomes Lopes. Estagiários: Gabriel Moura, Hugo Leite, Júlia Salgado, Letícia Lanza, Raquel Moura)
ESTRUTURA METÁLICA Pórtico Construções Metálicas e Açonar Engenharia e Projetos
CONSTRUÇÃO Poligonal Engenharia e Construções

POR: CARINE SAVIETTO E GUSTAVO CURCIO