Jean Prouvé migrou seus saberes de artesão para a produção industrializada

A emoção vem com a arquitetura simples, legível – o espírito tem necessidade de coisas que sejam legíveis. E uma arquitetura que revela a sua constituição, como um ser humano que revela a sua constituição, ao mesmo tempo revelando os seus objetivos, e isso sem camuflagens e sobretudo sem artifícios.
Jean Prouvé

Aparentemente distante dos debates culturais e artísticos de sua época, Jean Prouvé (1901- 1984) fez da construção civil seu campo de batalha e de pesquisa. Sua trajetória exprime com clareza as transformações e tensões entre artesanato e indústria nos pioneiros da arquitetura moderna, bem como o desmoronamento de algumas perspectivas da primeira geração modernos no segundo pós-guerra.

Apesar de nascido em Paris, Jean Prouvé foi criado e educado em Nancy, junto ao círculo de artistas e artesãos da cidade reunidos na Escola de Nancy, voltando aos circuitos parisienses apenas na década de 20. Como outros de sua geração, sua vida foi diretamente afetada pelo início da Primeira Grande Guerra em 1914 – que o impeliu a começar trabalhar ainda muito jovem na oficina de Émile Robert, ferreiro amigo de seu pai, a fim de ajudar na subsistência familiar.

Paola LopesNesse período, Prouvé firma suas habilidades e técnicas na serralheria artística. Após a Primeira Guerra, trabalhou em outras oficinas em Nancy, montando em 1924 sua primeira oficina, localizada na Rue General Custine.

PROGRESSO TÉCNICO
A consolidação da arquitetura moderna em Paris foi gradativamente aproximando o artesão tanto da capital cultural francesa, como dos debates das vanguardas. Em uma relação de interdependência, os arquitetos encontravam em Prouvé um técnico capaz de formalizar e determinar vontades estéticas enquanto este conhecia por meio dessas experiências práticas as questões enfrentadas pela arquitetura moderna. Entre os serviços realizados por Prouvé, destacam-se as serralherias para a Villa Reifenberg, a Maison Martel e a Maison Gomnel do arquiteto Robert Mallet-Stevens.

As transformações da estrutura de trabalho de sua empresa foram correspondentes à efervescência que a Europa atravessava. No momento de inauguração, em 1926, Prouvé realizava sozinho todos os serviços e operações dos moldes clássicos de um ateliê de ofícios, e sua oficina contava com cerca de 15 artesãos. Já em 1932, quando se mudou para a Rue des Jardiniers, sua oficina tinha mais que 50 artesãos, se aproximando da organização de pequenas indústrias. Esse período também foi acompanhado pelo esforço de Prouvé em atualizar seu maquinário, sendo pioneiro no uso da dobradeira de aço e outras ferramentas, a fim de alcançar a reprodutibilidade de suas peças metálicas. O artesão procurava transpor seus saberes para a produção industrializada.

As mudanças dos serviços e objetos desenvolvidos também revelam as revoluções no campo artístico e cultural da época. Dos serviços de serralheria artística, como gradis, portões, elevadores, guarda-corpos etc. que realizava para arquitetos em Nancy e Paris – sempre marcados pelos motivos geométricos, mas ainda de caráter decorativo, típicos do Art Déco -, a oficina de Prouvé migrou para a realização de complexos panos de vidro e estruturas metálicas já no final da década de 20.

Apesar de não ter sido o percursor do uso de metais na pré-fabricação de casas ou na larga utilização desses materiais na construção civil – sendo precedido por nomes como Walter Gropius, Hirsch Kupfel e Ferdinand Fillod -, coube a Jean Prouvé dar um salto qualitativo no usos desses elementos, viabilizando tecnicamente algumas soluções que se tornariam paradigmáticas dentro da linguagem moderna ainda na mesma década.

Na Garage Marbeuf (1929) para a Citroën – projeto de arquitetura de Albert Laprade e Leon Bazin e com esquadrias e serralherias desenvolvidas por Prouvé – temos um caso exemplar em que os avanços técnicos resultam em uma nova estética. O pano de vidro, de 19 m x 21 m, além da eloquência advinda da própria realização dessa fachada com dimensões excepcionais, permitia de maneira inaugural que o interior da garagem se tornasse apreensível do exterior. A grande vitrine oferecia a visualização em uma única tomada de todos os andares preenchidos pelos carros da empresa e possibilitava a compreensão imediata da geometria e da forma estrutural do edifício.

A fachada realizava com plenitude o desejo de expor de maneira cristalina as belezas da máquina símbolo do início do século 20. Se Auguste Perret, no projeto da Garage Ponthieu (1907) para Renault necessitou recorrer a geometrizações com perfis de aço no painel central da fachada, a fim de evitar grandes vidros e também figurar os componentes racionais do carro, a Garage Marbeuf, com seus vidros regulares e de grande dimensão, rompe com qualquer necessidade de figuração, utilizando a exposição dos próprios carros do interior como imagem arquitetônica.

Ainda que tenha colaborado ativamente na realização de obras icônicas, a condição de colaborador e construtor o direcionou para desenvolver também projetos de esquadrias para prédios neoclássicos. Apenas em seus projetos próprios, na década de 30, Prouvé conseguiu determinar formalmente sua visão técnica e construtiva na concepção de projetos arquitetônicos.

OBRAS FUNCIONALISTAS
Durante esses anos de colaboração com componentes particulares para outros escritórios, Jean Prouvé começou a ganhar reconhecimento no circuito de arquitetos modernos, formando parcerias mais sólidas com jovens arquitetos para realizar as primeiras obras em que atuou diretamente em todas as etapas de projeto. Entre os anos de 1935 e 1939, conjuntamente com Eugène Beaudouin e Marcel Lods, realizou duas obras-primas da arquitetura funcionalista onde as soluções construtivas estavam nas geratriz formal e espacial: o Aeroclube Roland Garros em Buc e a Maison du Peuple em Clichy.

O Aeroclube Roland Garros preconiza o sistema de montagem que iria se repetir em obras posteriores de Prouvé. Um pavilhão de geometria prismático é estruturado em pilares e vigas de aço, com ligação entre componentes por parafusos, e os vedos são em vidro ou em painéis de chapa dobrada instalados posteriormente, preenchendo a grelha estrutural. A solução já aponta um caminho constante de Prouvé, de concentração de cargas e forças da estrutura em esbeltos pilares, liberando todas as fachadas para painéis leves e permitindo a montagem sem gruas.

A Maison du Peuple também possui programa bastante simples em suas definições, mas complexo em suas dimensões: um mercado regional a rés-do-chão e um centro cultural nos pavimentos superiores com a capacidade para 2.000 pessoas em pé ou 500 em formato para cinema ou teatro. Novamente a estrutura é em aço, organizada em três alas: dois pórticos nas extremidades do edifício com vãos menores e um grande vão central, onde é implantado no primeiro pavimento a sala de múltiplo uso, iluminada por grandes sheds na cobertura. Esse esqueleto estrutural é posteriormente preenchido com módulos menores, ora em vidro com montantes em aço, ora em painéis articulados de aço com pequenas janelas centrais. Seguindo o princípio de uma matriz estrutural rígida que recebe pequenos componentes, junto à altura do primeiro pavimento e voltado para a rua, os arquitetos aplicam bandejas em aço para demarcar uma marquise no perímetro do edifício, abrigando usuários do equipamentos. O projeto também apresenta suas primeiras experiências com divisórias metálicas móveis.

INDÚSTRIA EM PROJEÇÃO
No final da década de 30 e, sobretudo, nos anos imediatos ao fim da Segunda Grande Guerra, Jean Prouvé e sua equipe se focaram nos objetos que seriam mais icônicos e sintéticos de sua produção: residências e equipamentos pré-fabricados. Em 1939, a partir da experiência com casas desmontáveis, ele desenvolveu sistemas de construção rápida, incluindo o sistema de pilares centrais em formato de pórtico, destinados à realização de alojamentos provisórios para vítimas da guerra.

O aumento do volume de encomendas e trabalhos o conduzem a instalar sua empresa, no ano de 1947, em uma fábrica em Maxéville com terreno de 20.000 m², no subúrbio de Nancy. Tal crescimento, além de permitir pegar serviços de maior aporte, também marcou a maior aproximação dos processos de manuseio e elaboração de peças em alumínio. Almejando consolidar a relação entre estética e construção, ele aumenta o número de arquitetos colaborando com o escritório e traz para sua equipe jovens como Joseph Belmont, Maurice Silvy, Henri Nardin, Tarik Carim e Pierre Oudot. Nesse período, experimentou a autogestão como alternativa à comum, em que os dirigentes especulavam o valor da mão de obra, a fim de reduzir custos ao máximo. Busca construir um ambiente de trabalho menos opressivo e que não coibisse o desenvolvimento de seus operários.

No final da década de 40, realiza uma sequência de casas experimentais como a Casa Colonial para África Equatorial e a Tropical House, ambas de 1949. Nesses experimentos, consolida-se a tipologia do núcleo sanitário pré-fabricado que é instalado após etapas preliminares de construção dessas residências. Firma-se também no período o método que Prouvé considerava o ideal: realização de modelos em escala real ou reduzida, a partir de croquis rápidos e conceituações. Estes serviam de base para a formalização do desenho técnico e execução final. Essa sequência de experiências culmina nas casas industriais em Meudon (1950-1952), Paris. Realizada em parte com peças desenvolvidas para encomendas canceladas pelo Ministério da Reconstrução da França, o conjunto tinha como questão central expor as possibilidades que o sistema de componentes permitia. Além da qualidade de ser erguida em um curto espaço de tempo, as casas apresentavam diferenças sutis para acomodar distintas necessidades ou destinações, como também assentavam-se de diversas maneiras no térreo, rompendo com a ideia que a industrialização seria indiferente ao contexto em que se insere.

INDÚSTRIA X INDÚSTRIA
A negativa que Jean Prouvé recebeu do governo francês para suas casas pré-fabricadas no começo da década de 50 iria se tornar uma constante nos anos subsequentes. Ao contrário do tipo de industrialização que Jean Prouvé propunha, pautada em componentes leves e adaptáveis que permitem inúmeras possibilidades de organização, a maioria dos grands esembles que foram extensamente produzidos no País expressavam uma industrialização pesada e bruta.

Ainda que tivesse recorrido ao uso extensivo de concreto em alguns projetos, Prouvé preferia sistemas híbridos, nos quais núcleos de escadas e cores de infraestrutura em concreto se articulariam com divisórias e vedos leves. No caminho oposto ao hibridismo construtivo, a reconstrução na França, pautada por um modelo voltado a grandes empresas e indústrias da construção civil, bloqueou as possibilidades de empresas médias e mais inovadoras proporem outras saídas para a reconstrução do pós-guerra.

Em 1953, Prouvé se viu forçado a deixar a fábrica em Maxéville, após estabelecer uma parceria com a empresa Pechiney, especializada em alumínio. O momento em que a industrialização tomava maior corpo social e se desdobrava com maior impacto na arquitetura coincide com o momento em que Prouvé estava mais isolado e que sua produção parecia não ter valor para as grandes empresas e construtoras. A crítica aos aspectos técnicos desses grandes conjuntos é de grande pertinência e atualidade. Complementam a revisão crítica realizada nas últimas décadas sobre esse momento em que os valores modernos foram simplificados e achatados.

ESPERANDO DIAS MELHORES
Nos anos imediatamente após sua saída da fábrica de Maxéville, ele consegue realizar obras significativas como o Pavilhão do Centenário do Alumínio (1953), onde revisita algumas soluções do Aeroclube Roland Garros, agora com outros materiais e tecnologias. Em 1956, cria a empresa Les Constructions Jean Prouvé junto com alguns arquitetos de sua equipe, como Maurice Silvy.

Sua última tentativa mais contundente de realizar um protótipo de casa industrial foi em 1956, na Maison des Jours Meilleurs (Casa dos Dias Melhores). O projeto nasceu da vontade de Abbé Pierre – chefe da Compagnons d’Emmaüs – em se contrapor à recusa do governo em financiar habitações de emergência durante o rigoroso inverno de 54. Prouvé foi assim incumbido de projetar uma residência reprodutível e econômica.

No projeto, Prouvé tenta explorar a maior eficiência das qualidades do concreto, aço, madeira e alumínio. Sobre uma base de concreto, armam-se dois núcleos de aço, um armário que divide ambientes íntimos e sociais e um núcleo hidráulico com cozinha e banheiro. Os vedos externos são feitos de painéis duplos de madeira e a cobertura é de placas de alumínio. Para Prouvé, a Casa dos Dias Melhores utilizaria os materiais com inteligência, sabendo reconhecer as possibilidades e qualidades da indústria.

Em 1957, Les Constructions Jean Prouvé é fundida com a Compagnie Industrielle du Matériel de Transport (CIMT). Naquele momento, Prouvé, que atuava como chefe do departamento de construção desenvolve mais possibilidades de estruturas de cortinas de vidro. Também desenvolvia, junto com Leon Petroff, um sistema de telhado reticular com superfície variável. Durante a décadas seguintes, continuaria desenvolvendo projetos e sistemas para outros arquitetos, como fez no começo de sua carreira, desfrutando de um grande reconhecimento entre profissionais, mas sem alcançar os agentes da construção civil.

A trajetória de Jean Prouvé exprime a tragédia de uma geração de indivíduos que, na mesma intensidade em que sonharam e experimentaram saídas humanistas para a sociedade, vivenciaram a deformação das formas que produziram. No entanto, se a história não pode testar em larga escala as propostas de Prouvé, assistimos à falência dos empreendimentos que negaram seus fundamentos, expressos nos grands esembles das periferias francesas.

Se as proposições do arquiteto-operário podem ser avaliadas como datadas ou pertencentes apenas à sua época e a seu método, por outro lado ele não pode ser acusado de nenhum anacronismo: rabiscar, realizar protótipos, redesenhar e construir.

POR GUILHERME PIANCA MORENO

GUILHERME PIANCA MORENO é arquiteto e urbanista. Desenvolve mestrado em história e fundamentos na FAUUSP, atua como arquiteto no Pianca + Urano e é integrante do grupo Contravento

BIBLIOGRAFIA
AV Monografías Jean Prouvé 1901-1984; n.149. Madrid: Arquitectura Viva SL, 2011.
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Enjolras, Christian. Jean Prouvé, Les maisons de Meudon, 1949-1999. Paris: Éditions de la Bilhete, 2003.
Lavalou, Armelle. Conversaciones con Jean Prouvé.
Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005. Sulzer, Peter, Jean Prouvé, oeuvre complète/Complete Works, 1917-1984, 4 volumes, Basel: Birkhäuser, 2002.