Hashim Sarkis, diretor de arquitetura do MIT, fala em entrevista para a AU

Hashim Sarkis é um arquiteto de fala calma, medida, pausada. O tom de voz, baixo, contrasta com a veemência de suas afirmações. Trata-se de pensatas e conclusões de quem lida com a prática – ele lidera um escritório com representação nos Estados Unidos e no Líbano, sua terra natal – ao mesmo tempo em que se dedica à pesquisa, ao ensino e à investigação. Diretor da escola de arquitetura e planejamento do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desde 2105, depois de uma passagem por Harvard, onde se pós-graduou e obteve seu PH.D., Sarkis esteve em São Paulo no final de setembro, viajou a convite do Arq.Futuro, plataforma de discussão sobre cidades que articulou uma parceria entre a instituição americana e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A pesquisa em conjunto será voltada à habitação e prevê uma série de desdobramentos ainda em análise. Em encontro com alunos brasileiros, ele se disse emocionado ao visitar o prédio desenhado por Vilanova Artigas (“Eu deveria me ajoelhar, essa é uma verdadeira Meca”) e, citando Shakespeare, frisou a importância de cada projeto buscar o infinito, ainda que se atenha a um espaço físico limitado. Profundo estudioso das cidades e das dinâmicas que regem sua organização espontânea, Sarkis se interessa por geografia, disciplina na qual enxerga uma complementaridade natural à arquitetura. Nesta entrevista, ele compartilha sua visão sobre cidades e espaços públicos, batendo na tecla de que não adianta mais insistir numa suposta oposição entre centro e periferia para abordar os problemas urbanos atuais. Sem fugir ao costume de observar tudo o que for possível nas metrópoles que visita, ele faz alguns contrapontos a questões tão paulistanas, a exemplo da abertura da avenida Paulista para pedestres aos domingos. “Não demonizo o carro. A chave está na convivência”, afirma.

FOTO: MARCELO SCANDAROLIO senhor defende que precisamos parar de pensar as cidades da forma tradicional, pois a dicotomia entre centro e periferia não dá conta dos problemas urbanos. Qual é a abordagem adequada?
Tomemos como exemplo São Paulo, onde essa separação claramente não existe mais. São Paulo já teve seu centro, mas ele se multiplicou e deu origem a três ou quatro áreas-chave. E sua geografia é muito relevante, pois influencia a forma de funcionamento da cidade. A divisão entre núcleo central e periferia pode até ter ajudado a criar um senso de distribuição, porém se confrontou com parâmetros mais amplos e deixou de fazer sentido. Se nós, nos Estados Unidos, ainda pensamos dessa forma ao dizer que moramos no centro ou no subúrbio, talvez em São Paulo esse modelo tenha sido colocado à prova já há algum tempo e a cidade desenvolveu novas maneiras de se organizar. Eu me interessei bastante pelo anel fluvial que está em discussão na capital paulista. Essa ideia estuda formas possíveis de conectar os rios para lidar com questões urbanas: a drenagem, a recuperação de antigas regiões industriais ao longo das margens e a melhora da mobilidade. O anel fluvial atuaria como o mar em cidades litorâneas, ordenando a vasta porção de terra ao longo dele. É disso que trato em minha pesquisa – investigo como as macrorregiões metropolitanas buscam desesperadamente novos padrões de espacialidade. Por isso tenho me debruçado sobre os litorais, onde a expansão se deu linearmente a partir do porto, e o modelo cêntrico nunca foi eficiente. Outros atores entraram em cena nessas cidades: rios, ribanceiras, montanhas, estradas paralelas criando camadas da costa em direção ao interior… e eles se provaram muito melhores para organizar o espaço. Então, por que confiar na fórmula tradicional?

O que aquela fórmula prometia e não cumpre mais?
Havia uma ambição inicial de propor um local saudável de moradia, afastado, porque o centro era poluído, perigoso. Hoje, as indústrias se mudaram definitivamente para o interior, a economia criativa se instalou nas áreas centrais e as pessoas – especialmente das novas gerações – querem viver próximas do local de trabalho para desfrutar de mais qualidade de vida. Outras lógicas se impõem, surge a necessidade de articular vários modelos. Isso me fascina, e creio que a geografia seja um fator primordial para nos ajudar a reestruturar nosso vocabulário urbano e sermos mais pertinentes no enfrentamento dessa questão.

Os arquitetos estão preparados para desenvolver esse léxico?
Parte do que fazemos é olhar, examinar e evitar caminhos tendenciosos. Tento ampliar esse campo ao reconhecer que os padrões com os quais trabalhamos não correspondem mais à realidade. Devemos entender que novos padrões são esses. Muita gente discute o esgotamento do modelo metropolitano atual, admitindo que ele levou a problemas econômicos, ambientais, fundiários, sociais. Sim, estamos prontos para testar um novo vocabulário.

O senhor afirma que uma equipe multidisciplinar é essencial para um bom projeto. Qual o papel do arquiteto nesse time?
Historicamente, o arquiteto é a pessoa no canteiro de obras que representa o cliente, coordena as diferentes frentes e supervisiona a construção. Sempre fomos interdisciplinares, responsáveis por montar o quebra-cabeça. O aumento da complexidade das tarefas que supervisionamos nos forçou a abrir mão de algumas coordenações, obrigando outros envolvidos a assumir mais responsabilidades. De fato, as demandas técnicas aumentaram demais, e muitos sentem que sua função diminuiu ou ficou restrita à superfície. O jeito de enfrentar isso é resgatar cada vez mais nosso papel criativo e de síntese para explorar melhor cada uma dessas áreas complementares. É preciso colaborar, compartilhar mais o conhecimento.

Na escala da cidade, essa forma de atuação é obrigatória, não?
No MIT, acreditamos fortemente que a tecnologia existe para resolver nossos problemas. No entanto, ainda não descobrimos como abordar questões complexas: as urbanas, as ambientais. E essas não podem limitar-se a um campo apenas. É preciso incluir todo mundo e observar o que está acontecendo. O Brasil, por exemplo, tem um déficit habitacional, e conta com vários programas para combatê-lo. Mas será que o governo pesquisou como outros países lidaram com isso? Se às vezes as soluções são mesmo muito complexas, outras vezes elas se encontram bem na nossa frente. Eu me interesso pelas cidades, não por seus problemas, e sim pelas soluções que elas já encontraram, mesmo que ainda não tenham se dado conta.

Marcos Lima
Qual a melhor forma de encomendar um projeto de espaço público?
Por meio de concursos. Me pareceu que, no Brasil, primeiro se contrata a empreiteira e esta se responsabiliza por escolher um arquiteto. Precisamos inverter essa lógica. Quando se trata de espaços públicos, a discussão e o debate proporcionados por um concurso são muito saudáveis ao despertar o interesse da população a respeito de seus direitos sobre esses locais. A arquitetura ganha a primeira página dos jornais. Trazer essa consciência à tona constitui uma das grandes missões de um concurso. Além disso, uma competição sempre incentiva novas ideias.

Diego Torres Silvestre
Temos um histórico de projetos vencedores engavetados.
Vocês se surpreenderiam se eu dissesse que estão em boa companhia? Isso acontece em muitos lugares. E nem sempre, quando realizados, os projetos são bem-sucedidos. Mas, quando são, mudam tudo. Temos que insistir na arquitetura como plataforma de debate e discussão, inclusive para expor nosso papel na sociedade.

Ben Tavener
Sarkis acredita que macrorregiões metropolitanas, como a de São Paulo, não mais tenham centro e periferias tão bem definidos e estejam em busca de novos padrões de espacialidade

Como a iniciativa privada pode contribuir para a melhoria dos espaços públicos?
Podemos partir da seguinte premissa: o espaço urbano é moldado pelos graus de proximidade entre espaços púbicos e espaços privados. Os térreos dos edifícios comerciais da avenida Paulista exemplificam isso, bem como os calçadões no centro. Podemos extrapolar essa ideia inclusive para casas e prédios residenciais, quando essas construções se comunicam com a rua em vez de optar por uma fachada cega, opaca. Hospitalidade e visibilidade geram segurança.

“Nem sempre quando idealizados, os projetos são bem-sucedidos, mas, quando são, mudam tudo”

De que forma o poder público pode encorajar essa relação?
Vi algo nas ruas de São Paulo que chamou a atenção: a extensão de cafés, bares e restaurantes para a rua no lugar antes dedicado a uma vaga de estacionamento [os parklets]. Esse é um bom exemplo – um lugar que incentiva a convivência entre pessoas e entre os setores público e privado.

O senhor ressaltou o papel dos concursos para envolver a sociedade da discussão sobre planejamento urbano. Há outras maneiras de fazer isso?
Vivemos na era digital, o que permite acesso imediato à informação, facilita a formação de grupos e possibilita um ativismo bastante efetivo. Usem essas ferramentas! Outra forma de aumentar o interesse pelo ambiente construído se dá pela atuação de organizações civis que negociam e propõem articulações entre o poder público, o mercado e a academia.

Como é o espaço público ideal?
Vazio.

Sem pessoas?
Não, vazio para que as pessoas possam inventar como usá-lo. Normalmente, os lugares públicos se enchem de comércio, cheios de bancos, cheios de entretenimento. Os usuários devem ter o direito de criar suas próprias atividades. O truque é não definir demais nem de menos, deixar certo espaço para a imaginação e apropriação rotineira de cada um.

Que lugares são assim?
Vou focar em cidades modernas. Park Avenue, em Nova York. Covent Garden, em Londres. Les Halles, em Paris. A praça Taksim, em Istambul – que, embora seja feia, tem a habilidade de juntar as pessoas. A Plaza del Sol, em Madri. Não faltam bons exemplos. Cidades têm que oferecer diversidade, hospitalidade, interação. Espaços públicos também. Uma cidade é tanto melhor quanto maior a variedade de escala de seus espaços públicos. A avenida Paulista tem algo dessa atmosfera.

A Paulista tem sido aberta aos domingos só para pedestres.
Acredito na convivência: zonas onde carros sejam obrigados a andar mais devagar. A oposição entre carros e seres humanos não funciona, é preciso conviver.

O senhor gosta de desenhar espaços públicos?
Estou dedicado a vários projetos em Biblos [Líbano]. Além da prefeitura, há um complexo residencial numa área bastante íngreme e outras intervenções regionais. Atualmente, me preocupo em como equilibrar a arquitetura de modo que ela possa compreender melhor sua habilidade de transformar um lugar, sem se conectar demais a um determinado momento ou a uma determinada função. Gostaria que a minha arquitetura pudesse se descolar do presente para levá-lo a um lugar melhor. O prédio da FAU é assim: ele atravessou bem sua vida útil até aqui e suportaria uma mudança de programa.

Foi interessante o senhor mencionar que estar lá é como ir a Meca.
Eu cresci como arquiteto estudando prédios como aquele, vendo as fotos… ir até lá e falar no auditório foi como uma peregrinação. E superou todas as minhas expectativas. Foi absolutamente incrível.

POR MARIANNE WENZEL FOTO MARCELO SCANDAROLI