Critérios de sustentabilidade para construir mais e melhor

Atender à demanda da sociedade por edifícios mais sustentáveis exige que os arquitetos trabalhem sem fórmulas prontas, mas com base em muito conhecimento e criatividade para chegar às soluções mais adequadas, levando em conta as particularidades e necessidades de cada projeto.

O percurso começa pelo entendimento da sustentabilidade como algo abrangente, que cerca o ciclo de vida da edificação, desde o início de sua construção à sua reciclagem ou demolição, incluindo todo o período de uso e operação. Também passa por uma abordagem que inclua soluções integradas para maximizar a eficiência no aproveitamento de recursos, e a escolha de suprimentos e materiais mais ecológicos. “De pouco adianta inserir dispositivos com apelo verde se o edifício em si consome água e energia indiscriminadamente”, diz o arquiteto Rafael Lazzarini, gerente do departamento de Novos Negócios da Unidade de Sustentabilidade do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE). Da mesma forma, de pouco vale uma construção erguida com baixa geração de resíduos e econômica do ponto de vista energético se não atender às necessidades de seus ocupantes.

Divulgação: Cloc Marina Residence

PEDRAS NO CAMINHO
Para chegar a resultados que equilibrem conforto e respeito ao meio ambiente, os projetistas precisam superar, no dia a dia, a resistência dos contratantes em investir em sistemas que agreguem eficiência aos edifícios – principalmente porque isso pode exigir investimentos iniciais mais elevados. Também precisam encarar a própria dificuldade para realizar um trabalho complexo cujos parâmetros de desempenho mudam constantemente, especialmente por conta da tecnologia.

Um complicador é a cultura brasileira de projetar sem integração de todos os envolvidos. “Por aqui, na maior parte das vezes, o arquiteto concebe o edifício e só depois os demais especialistas (instalações, automação, acústica etc.) propõem soluções para o projeto posto. Muito mais racional e rico seria se todos se reunissem, antes mesmo do primeiro desenho, para alinhar ideias e expectativas em cima de premissas de sustentabilidade definidas no início”, afirma Lazzarini.

PASSADO E FUTURO
As certificações de sustentabilidade para edifícios vêm crescendo no país, o que indica maior preocupação e capacitação de projetistas e empreendedores para o assunto. Mesmo assim, alguns aspectos relacionados à concepção dos projetos ainda são críticos de modo geral. A análise de ciclo de vida da construção, por exemplo. A flexibilidade de uso é muitas vezes relegada a segundo plano até mesmo em edificações que têm a pretensão de serem sustentáveis. “Um edifício, residencial ou comercial, deve durar no mínimo 50 anos. Durante esse período é muito provável que as necessidades de seus usuários mudem, mesmo que dentro do mesmo tipo de uso. Por isso é importante pensarmos em soluções modulares e independentes, criando construções que possam ser facilmente remodeladas, ampliadas ou reduzidas”, defende o arquiteto Caio Atílio Dotto, sócio do escritório Mindlin Loeb + Dotto.

Uma visão mais crítica sobre os materiais e sistemas existentes é outro ponto de fragilidade. “É preciso refletir que matérias-primas tradicionais, como aço e concreto, têm seu valor para a construção brasileira, mas também um custo ambiental em sua produção, exigindo uso mais criterioso”, destaca Dotto, que também propõe uma análise mais cuidadosa sobre as técnicas utilizadas por nossos antepassados. Segundo ele, muitas vezes se busca uma saída inovadora ou tecnológica para um problema que já foi bem solucionado anos atrás. “Os nativos brasileiros têm soluções ótimas que poderíamos aproveitar pelo baixo ou quase nenhum impacto no meio ambiente. Alguns exemplos são o uso de materiais locais, da ventilação natural e das possibilidades de sombreamento, além de um estilo de vida que privilegia o essencial em detrimento do supérfluo”, cita.

SEM MAQUIAGEM
Em especial sobre os insumos e tecnologias disponíveis, houve muita evolução nos últimos anos, desde o maior uso dos sistemas industrializados que reduzem o desperdício de materiais e aumentam a produtividade no canteiro até os sistemas de ar-condicionado mais inteligentes. Um salto de eficiência também foi dado na área de iluminação, com a entrada dos leds no mercado e com os controles de automação mais sofisticados.

A indústria de materiais para acabamento também tratou de correr atrás das exigências das certificações verdes, com revestimentos produzidos a partir da reciclagem de outros componentes e com tintas com índices mais baixos de compostos orgânicos voláteis (VOC). Os vidros de alto desempenho também melhoraram, mas isso não significa que possam prescindir de um bom projeto que considere a orientação solar, o sombreamento externo e um balanço ótimo de superfícies opacas e transparentes.

Na hora de especificar, todo cuidado é pouco para evitar o greenwashing e distinguir o que é genuinamente sustentável do produto encoberto por uma “maquiagem verde”. O mercado, de forma geral, ainda tende a vincular informações inconsistentes, como afirmar que o produto consome menos X% de energia, sem definir qual a referência.

Para evitar essa armadilha, a recomendação de Rafael Lazzarini para os arquitetos é exigir uma declaração completa de análise de ciclo de vida aos fabricantes. “Não podemos aceitar autodeclarações genéricas ou alegações simplistas de que um produto é sustentável. Se uma solução é divulgada como sustentável ou ecológica, é importante investigar o porquê”, conclui o consultor do CTE.

CHECKLIST – SEIS PASSOS PARA SELEÇÃO DE INSUMOS E FORNECEDORES COM CRITÉRIOS DE SUSTENTABILIDADE

1 – Verifique a formalidade da empresa fabricante e fornecedora.
2 – Confira a licença ambiental concedida pelo órgão ambiental estadual. Nenhuma atividade industrial pode operar legalmente sem licença ambiental.
3 – Analise as questões sociais. A existência de um fornecedor na lista de empresas que utilizam mão de obra infantil ou escrava o desqualifica como fornecedor sustentável.
4 – Privilegie a qualidade e os produtos que atendam às normas técnicas vigentes. Produto de baixa qualidade é sinônimo de desperdício de materiais e maior geração de resíduos.
5 – Consulte o perfil de responsabilidade socioambiental da empresa.
6 – Identifique a existência de propaganda enganosa. As informações devem ser claras na promoção de um produto, especialmente no que diz respeito à sustentabilidade.

Abordagem holística

Foto: Andre N. P. Azevedo

Autônoma no consumo de eletricidade e erguida com sistemas construtivos industrializados, a Casa Aqua foi concebida pelos arquitetos Rodrigo Mindlin Loeb e Caio Dotto para atender aos critérios do Referencial Técnico de Certificação da Construção Sustentável da Fundação Vanzolini. A construção de 50 m² conta com painéis fotovoltaicos e turbina eólica capazes de gerar energia. Também combina soluções diversas para maximizar o desempenho energético da casa, como fachadas ventiladas, combinadas a caixilhos em PVC de alto desempenho, e cobertura verde. O projeto pautou-se na construção de módulos, que podem ser adicionados, trocados ou suprimidos, além de serem transportados e montados em outros locais.

FICHA TÉCNICA

LOCAL São Paulo
ANO 2016
ARQUITETURA Mindlin Loeb + Dotto
CONSTRUÇÃO Inovatech
SISTEMA DE FACHADA VENTILADA: Eliane Técnica e Solarium (módulos banheiro e cozinha); ESQUADRIAS EM PVC EBL; SISTEMA CONSTRUTIVO Kronan; DECKS: Allpex Brasil; PISO EXTERNO E JARDINS AUTOIRRIGÁVEIS Remaster

Colonial revisitado

Divulgação: Cloc Marina Residence

O Cloc Marina Residence é um empreendimento de uso misto em Salvador, implantado em área de alto valor histórico. O projeto teve de buscar uma solução para a fachada que ajudasse a controlar a excessiva incidência do sol e a orientação desfavorável, melhorando o desempenho térmico e reduzindo a demanda por ar refrigerado. A saída encontrada foi inserir, junto às varandas, painéis articulados vazados semelhantes aos antigos muxarabis para garantir iluminação e ventilação naturais. A arquiteta Kiki Meireles conta que os painéis foram fixados à estrutura por meio de suportes de alumínio e adicionaram valor estético, criando um movimento permanente na fachada.

FICHA TÉCNICA

LOCAL Salvador, BA
ANO 2015
ÁREA CONSTRUÍDA 17 mil m²
ARQUITETURA Kiki Meirelles
PAISAGISMO Benedito Abbud
CONSTRUÇÃO Consplan
MUXARABIS Hunter Douglas; ESQUADRIAS DE ALUMÍNIO E VIDRO Esquadrilar; PLACAS CIMENTÍCIAS E ESTRUTURA METÁLICA Eternit e Multiplac

Eficiência combinada

Foto: Joy YamamotoUma série de soluções de projeto combinadas a tecnologias inovadoras permitiram às EZ Towers um padrão de eficiência suficiente para obtenção do selo de sustentabilidade LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) na categoria Gold, além de economia de energia em torno de 14,5% na operação do edifício e de 40% no consumo de água. Entre as soluções de maior impacto para a conquista desse resultado destacam- -se o sistema de captação de água das chuvas nas coberturas e os elevadores com sistema de frenagem regenerativa. Ao todo são 43 elevadores interligados ao sistema do controle de acesso. Isso significa que quando o usuário passa pela catraca com seu cartão de acesso, o elevador já é designado e aparece na tela da catraca qual cabine deve ser utilizada.

FICHA TÉCNICA

LOCAL São Paulo, SP
ANO 2014-2015
ÁREA 163.217 m²
ARQUITETURA Carlos Ott e DWA Arquitetura
GERENCIADORA E CONSTRUTORA Eztec
PAISAGISMO Benedito Abbud
AR-CONDICIONADO Thermoplan; ELÉTRICA, HIDRÁULICA E AUTOMAÇÃO Soeng; LUMINOTÉCNICA Godoy; ELEVADORES Atlas Schindler; AGENTE DE COMISSIONAMENTO E CONSULTORIA DE SUSTENTABILIDADE CTE

Em meio à área de preservação

Divulgação: CES

Com cerca de 250 m² e detentor do selo de sustentabilidade Aqua HQE, o Centro de Educação para Sustentabilidade (CES) Carapicuíba foi projetado com foco na eficiência do espaço. A necessidade de armazenar as águas pluviais captadas e o atendimento às normas de acessibilidade determinaram a horizontalidade do projeto, que previu o desmembramento do conjunto em diversos pequenos blocos as unidades de uso específico. O arquiteto Marcelo Leal conta que a ideia foi aproveitar em cada ambiente a ventilação e iluminação natural vindas das quatro fachadas. A construção, iniciativa da Fundação Alphaville em parceria com a prefeitura municipal, conta com cobertura verde que desce pela fachada e um biodigestor, que processa o esgoto dos banheiros e o transforma em fertilizante para as plantas.

FICHA TÉCNICA

LOCAL Carapicuíba, SP
ANO 2015-2016 ÁREA 250 m²
ARQUITETURA Marcelo Leal
CONSTRUÇÃO Oca Construções Sustentáveis;
CONSULTORIA Inovatech ESTRUTURA DE MADEIRA JR Demolições BIODIGESTOR Aqualimp SISTEMA FOTOVOLTAICO PHB 0 5 Eletrônica

POR JULIANA NAKAMURA