Tijolos são empregados na estrutura da casa e deixados aparentes, oferecendo identidade, conforto térmico e contraposição a materiais menos robustos, como o metal

O tijolo é um dos materiais construtivos mais tradicionais e fundamentais de que se tem conhecimento. Muitos são os mestres que ensinaram aos arquitetos o uso deste elemento. Rogelio Salmona (1929-2007) e Eladio Dieste (1917-2000), por meio de seus legados de importância e reconhecimento mundiais, são arquitetos cujas obras se tornaram emblemáticos da plasticidade do tijolo à vista em diversificados projetos.

O partido do projeto torna-se praticamente indissociável de sua materialidade. Não conseguimos observar as Torres del Parque (Colombia, arq. Rogelio Salmona, 1970) e imaginá-las de outra cor inseridas naquela paisagem nem mesmo lembrar da Igreja de Jesus Obrero (Uruguai, arq. Eladio Dieste, 1967) e imaginá-la de outro material. São projetos cuja expressividade depende fundamentalmente do elemento que os constitui, o tijolo.

Tendo em mente esse legado, particularmente a linguagem do tijolo aparente, a Casa RL permite destacar o uso monolítico do tijolo à vista, que é, ao mesmo tempo, vedação e elemento compositivo da fachada, em equilíbrio com outros materiais de caráter menos robusto.

Os arquitetos Cassio Oba, Gabriel Cesar e Eugenio Conte, do escritório COA, fizeram uma acertada escolha pelo tijolo à vista, levando em conta um cliente que admira a contemporaneidade na arquitetura, mas também preza pela ideia de uma morada tradicional.

Na residência, o tijolo é utilizado não como revestimento, mas como o próprio elemento que ergue a parede, tocando o solo. Tal solução traz identidade ao projeto e também contribui imensamente para o conforto térmico nos ambientes da residência, localizada em Itapeva, interior do Estado de São Paulo, onde as temperaturas são mais elevadas.

O partido da casa se define pela implantação de dois blocos retangulares justapostos, de linguagens opostas nos materiais que os constituem: o bloco maciço, em tijolo à vista, e o bloco mais leve, em estrutura metálica, que visualmente se conecta de modo sutil ao primeiro. O peso de um reforça a leveza do outro, em cuidadosa composição. É possível inferir que a diferenciação dos materiais construtivos nos dois blocos seja o ponto chave da expressividade nessa obra.

O projeto prioriza a ala social, com salas de estar, jantar e cozinha integradas em um só espaço no pavimento térreo. A conexão destes espaços com as áreas externas, apesar de reduzidas proporcionalmente à projeção da casa, em função do tamanho do lote, é um ponto alto do projeto: o jardim ao lado da sala, em cota ligeiramente elevada em relação ao piso, associa-se ao banco em concreto moldado in loco, ao longo de toda a sala, criando o ambiente de estar, junto aos demais elementos do mobiliário. Esse tipo de decisão, associado ao projeto de interiores, de autoria do próprio escritório, destaca a relação simbiótica entre arquitetura e interiores.

No pavimento superior, distribuem- -se as áreas íntimas (sala de TV e dormitórios), o que inclui uma grande varanda, pedido dos moradores. Em princípio, foi solicitada uma varanda que conectasse todos os quartos, porém os arquitetos solucionaram com maestria a demanda: uma grande varanda, acessada pelo corredor comum do pavimento superior. Este espaço se constitui como uma área social mais íntima, por assim dizer, e inclui até uma pequena copa para facilitar o uso do local. De lá, ainda é possível observar o nascer do sol, grata surpresa dos arquitetos aos moradores.

Segundo eles, foi decisivo optar em que pontos do projeto investir. Nesse sentido, a escolha dos materiais foi bastante guiada pelas possibilidades executivas, sejam de localização da obra, custo e mão de obra disponível. Tais fronteiras guiaram os arquitetos na priorização de gastos. Caixilhos, panos de vidros extensos em locais selecionados e elementos construtivos com seus acabamentos originais, que não imitam outro material, foram alguns deles.

A decisão sobre quais elementos seriam priorizados mostrou-se acertada, e o esmero do projeto a partir dessas escolhas se constata em diversos detalhes da casa. Na sala de estar, os módulos dos montantes do forro em madeira, folhas do caixilho e fixação dos trilhos das luminárias coincidem. Em um olhar mais atento, nota-se que o ritmo da estrutura da varanda do pavimento superior também está alinhada aos módulos mencionados.

A cobertura da varanda do pavimento superior e sua conexão com o volume maciço foi objeto de detalhamento: duas tramas se sobrepõem na composição da pérgola – a estrutura principal e o ripado – em módulos de 1/4 e 1/8 respectivamente. Em vez de simplesmente conectar cada ripa à casa, os arquitetos criam um discreto volume intermediário, escuro, no qual apoiam a estrutura principal da pérgola – detalhe refinado na composição dos volumes.

Soma-se a essa estudada composição o revestimento em imbuia natural da parede sob a varanda, que funciona quase como um fechamento visual do retângulo do trecho em estrutura metálica na fachada principal. O destaque desse painel em madeira com iluminação de piso contribui para reforçar a leitura do balanço da varanda.

As aberturas, por sua vez, também são aspectos de interesse: os caixilhos (ora quadrados, ora retangulares), as descidas de águas pluviais aparentes (em PVC pintado, compondo a fachada longitudinal), e os arremates de algumas aberturas, que se descolam alguns centímetros da parede em tijolos com uma moldura em concreto são detalhes que não passaram despercebidos.

O cuidadoso projeto é concretizado em uma obra funcional, que trabalha diferentes materialidades e volumes que expressam um todo legível, unívoco.

BRICK BY BRICK
Brick is one of the most traditional and fundamental of known building materials. With this legacy, particularly the language of exposed brick, in mind, the RI House, makes it possible to highlight the monolithic use of exposed brick, which is, at the same time, the facing and composite element of the facade, in harmony with other materials of less robust character.

Architects Cassio Oba, Gabriel Cesar and Eugenio Conte, at the COA Associados firm, made the right choice with exposed brick, on taking into account a client who admires the contemporaneity of architecture, but also values the idea of a traditional dwelling.

In the residence, exposed brick is not used as wall facing, but as the very element that raises the wall touching the ground. This solution brings identity to the project and also contributes immensely to the thermal comfort in the rooms.

The layout of the house is defined by the implementation of two rectangular blocks, juxtaposed in the opposite languages of their building materials: the massive block, in exposed brick, and the lighter block, in steel framework. The weight of one reinforces the lightness of the other.

The roof of the balcony on the top floor and its connection with the massive volume was the subject of detail: the pergola is comprised of two overlaying sets of latticework — the main structure and the lath structure — in 1/4 and 1/8 modules, respectively. Instead of simply connecting each lath to the house, the architects created a discrete, intermediary, dark volume, on which the main pergola structure rests — refined detail in the composition of these volumes.

The meticulous project is materialized into functional work, which crafts different materialities and volumes that express a legible, unambiguous whole.

POR ANA CAROLINA FERREIRA MENDES FOTOS PEDRO VANNUCCHI