Residência em Campos do Jordão assume a forma da semente da araucária para se integrar à paisagem e criar ambientes curvilíneos revestidos de madeira e pedra, reforçando a ideia de organicidade e sofisticação

Em uma região dominada por casas de campo com arquitetura de inspiração alpina, como é Campos do Jordão, na serra da Mantiqueira paulista, os arquitetos do escritório carioca Mareines+Patalano optaram por fugir totalmente desse padrão arquitetônico. Buscaram projetar uma residência de 1.300 m² em um terreno de 3.100 m² que tirasse proveito das particularidades da natureza local, marcada pela combinação de altitude elevada, relevo acidentado, céus de tonalidades singulares e clima frio. “Nossa primeira atitude frente ao desafio de projetar essa casa foi não repetir a arquitetura utilizada na região. Nossa concepção era outra: entender o que nos pede a terra, com suas plantas, clima e figuras humanas”, explica Rafael Patalano, sócio-titular do escritório.

Os arquitetos partiram então para um desenho que reverencia a paisagem local. O ponto central da criação foi o pinhão, semente bojuda de um lado e pontiaguda de outro que nasce da araucária, espécie de pinheiro símbolo das serras do Centro-Sul do País. “A forma da casa brotou naturalmente, como os pinhões que se soltam das pinhas”, revela o arquiteto. Ele conta que os pinheiros existentes no terreno e na natureza característica da serra da Mantiqueira definiram profundamente o projeto, inspirando a concepção da silhueta do telhado superior da casa, em formato do pinhão. “Essa forma de geometria complexa, com curvatura em duas direções, reforça a ideia de organicidade e pertencimento”, salienta Patalano. O volume final, cuja configuração é a de uma mansão que parece surgir de dentro da colina, cria uma atmosfera de refinamento com estética urbana, integrada ao cenário local.

A partir desse conceito, os arquitetos desenvolveram uma planta elíptica e estrutura metálica que possibilitam grandes vãos internos, com pés-direitos que variam de acordo com a proximidade do perímetro da morada. Essa sinuosidade acaba por permitir a circulação do ar e proporciona o surgimento de escadas, rampas e corredores escultóricos que dialogam com as vistas para o exterior. “Damos muito valor à circulação em nossos projetos e isso fica claro nessa casa, onde trabalhamos a compressão e expansão dos espaços, tanto em planta quanto em corte. Paredes curvas orientam intuitivamente o caminhar com fluidez, solução notável sobretudo no nível de uso social”, explica o arquiteto. Nesse pavimento estão as salas de estar e de jantar e a cozinha. No andar inferior, há a garagem e a rampa de acesso principal – seu formato curvo abraça uma imensa adega. Nos dois últimos pisos, estão as quatro suítes e um escritório com vista panorâmica para as montanhas e os pinheiros.

O clima frio fez com que os arquitetos projetassem o spa dentro da casa, no pavimento social, com piscina aquecida e sauna seca. O piso, radiante, também foi usado nos banheiros. Todos os ambientes da casa têm aquecimento a gás. Além disso, foram usados muitos acabamentos em pedra e, sobretudo, em madeira, que aquecem visualmente os ambientes. Na cobertura, telhas em madeira ou taubilha se adaptam facilmente à geometria complexa da Casa Pinhão. Tijolinhos e filetes de ardósia-ferrugem instalados na fachada deverão envelhecer bem com o passar do tempo, sem necessidade de manutenção. A maioria das aberturas da fachada tem dimensão reduzida, o que garante a inércia térmica das grossas paredes em alvenaria. Nas faces onde grandes panos de vidro maximizam as vistas para a paisagem do entorno, como na sala de estar, foi instalada uma lareira importada de alto desempenho. Ela complementa o conforto térmico e tem um papel de protagonismo dentro da área social, voltada ao convívio e à contemplação.

NATURAL AS PINION
In a region dominated by country houses with Alpine inspired architecture – like in Campos do Jordão -, in the Mantiqueira Mountains of São Paulo State, the architects at the Baixada Fluminense Mareines+Patalano firm opted to totally break away from this architectonic standard and set off on a design that honors the local landscape. The central point of creation was the pine nut; a pot-bellied seed on one end and pointed on the other, that sprouts from the Araucaria, a symbolic species of pine tree from the mountains in the South-Central region of the country. “The shape of the house sprouted naturally, like the pine nuts released from the pines,” says Rafael Patalano, firm owner-partner. The configuration of the final volume is that of a mansion, which seems to rise from inside of the hill, creates an atmosphere of refinement with urban esthetics, integrated to the local scenery.

Beneath these large interior spans, with high ceilings that vary according with their proximity to the dwelling perimeter, this sinuosity winds up providing the circulation of air and affording the emergence of sculptural stairways, ramps and hallways that converse with the views outdoors. On the social floor, are the living room, dining room and kitchen. On the bottom floor, there is a garage and the main access ramp – its curved shape hugging a huge cellar. On the top two floors, are the four suites and an office with a panoramic view of the mountains and the pines. A majority of the openings in the facade have reduced dimensions, which ensures the thermal inertia of the thick masonry walls. On the faces where large panes of glass maximize the views of the surrounding landscape, like in the living room, an imported highperformance fireplace was installed. It complements the thermal comfort and plays a leading role within the social area, centered on social interaction and contemplation.

POR: FABIO DE PAULA FOTOS: LEONARDO FINOTTI