Residência em Campos de Jordão tem formato elíptico criado a partir de barras calandradas de eixo curvo e combina estrutura metálica, madeira e vidro

A BUSCA DA FORMA
A Casa Pinhão está situada na Serra da Mantiqueira, interior de São Paulo, implantada no topo de um morro em terreno de 5.350 m². O projeto, de formato elíptico, apoia-se sobre 25 pilares estruturais que sustentam quatro pavimentos distribuídos em 1.300 m². Para lidar com o clima frio, combinam-se o uso intenso do aço nas estruturas, a madeira como isolante térmico e o uso extensivo do vidro nas faces de maior incidência de sol, proporcionando o aquecimento passivo dos ambientes internos, a compensação do gasto de energia e maior vista para as paisagens. A solução é complementada por formas ativas de calefação, como o forno-lareira italiano da sala e aquecedores de ambientes e de piso, principalmente nos banheiros e no spa pelo uso do piso radiante.

Das araucárias e pinheiros há a aderência morfológica para uma arquitetura que contemplasse pilares esbeltos. Do pinhão, extraiu-se a cor de caracterização e referencial do local e a forma de cone e base circular.

Colunas em destaque na sala e no escritório também remetem à forma do fruto, compondo uma mandala que, ao mesmo tempo em que foca no interior do abrigo, tem as bordas abertas à paisagem. A forma sinuosa do relevo local foi incorporada na substituição de escadas por rampas.

Uma das fontes de inspiração e referência dos arquitetos é o americano Richard Serra, escultor minimalista conhecido por instalações de grande escala, arcos monumentais, espirais e elipses. Tais obras convidam à reflexão pela força visual. No projeto, formas curvas se abrem e se fecham ao longo do percurso, oferecendo descobertas como uma grande escultura, pelo andar que se expressa em pé-direito triplo com quase 9 m. A obra ecoa os princípios arquitetônicos e urbanísticos elaborados por Frank Lloyd Wright (1867-1959), sua crítica às grandes metrópoles e a valorização do contato com o meio natural: “O que necessitamos é de um casamento entre o campo e a cidade”.

CONSTRUÇÃO E MATERIAIS
Cada material foi aplicado de maneira a alcançar seu melhor desempenho estrutural e de conforto, bem como de forma e estética. O projeto une estrutura em aço, lajes de concreto, vedações em tijolos de barro, revestimentos em madeira e pedras, fechamento em vidro e cobertura com telhas de madeira. Inicialmente, foram definidos como pavimento estrutural a subestrutura de piso, formada por laje e vigas, e a sustentação vertical desse piso, composta por pilares, paredes estruturais, arrimos e fundações. A planta é definida por contornos curvos, que conferem ao conjunto uma forma elíptica. O desenho exigiu que as vigas perimetrais da casa fossem produzidas em aço com eixo curvo, com seção vazada de 27,5 cm x 10 cm e 4,75 mm de espessura. Para obtenção do eixo curvo, as barras foram calandradas e cortadas a plasma. Barras calandradas são aquelas que passaram pela calandra, equipamento no qual se inserem estas barras metálicas por rolamentos sobre quatro rodas. Dessa maneira, elas são forçadas a passar por entre rolos e mudam o alinhamento de seu eixo, de reto para curvo. As vigas das coberturas de seção tubular, com 10 cm de diâmetro e 5 mm de espessura, também foram calandradas, mas submetidas a corte simples em vez de a plasma.

PAVIMENTOS
O pavimento térreo, que dá acesso à casa, é constituído por uma laje apoiada em vigas sobre o solo. As vigas, por sua vez, se apoiam sobre a fundação, em estacas coroadas por blocos e vigas de travamento. Nos fundos da casa, onde está localizada a área de spa, as paredes foram configuradas com arrimos de concreto armado, devido à declividade do terreno. Por causa disso, também, as vedações desse pavimento foram feitas em tijolo de barro e revestidas com pedras e madeira.

Tanto o primeiro pavimento, social, quanto o segundo têm como subestrutura de piso lajes de concreto sobre vigas em aço e sustentação vertical por pilares de aço em seção circular. No terceiro pavimento, onde estão o escritório e parte da cobertura do segundo pavimento, a estrutura de piso do escritório é de laje de concreto apoiada em vigas metálicas e pilares circulares de aço. Parte da cobertura do segundo pavimento, e que completa o terceiro pavimento, corresponde a uma grelha formada por vigas metálicas. Elas constituem o plano de um telhado de duas águas, ou seja, formado por duas superfícies planas em declividade. Beirais laterais amplos se definem como bordas e se assemelham a uma nave com vértice na face frontal, formando um grande beiral em balanço. O nível superior localiza-se a meia-altura do terceiro pavimento, permitindo criar janelas que dão vistas para a superfície curva do telhado.

A estrutura do telhado é composta por uma viga treliçada longitudinal metálica. A uma altura que é constante em relação à cumeeira no corpo do edifício e variável no beiral, ela perfaz todo o espaço, afunilando até o extremo do beiral, onde alcança uma altura mínima. Cada um dos beirais mede cerca de 10 m e é sustentado em reticulado, estrutura de superfície nervurada metálica em duas direções, com balanços. O quarto pavimento corresponde ao último nível. Ele cobre a edificação combinando curvatura sinclástica e beiral côncavo. Na parte frontal, ela aponta para baixo. Já nos fundos, é anticlástica, ou seja, com curvaturas que apontam para diferentes direções, mas apresenta a mesma constituição da estrutura da cobertura do terceiro pavimento, onde o beiral é convexo e aponta para cima.

REVESTIMENTOS
Toda a estrutura metálica foi jateada com areia para eliminar qualquer traço de corrosão surgido durante o processo de montagem. Também recebeu pintura com base anticorrosiva e de acabamento já na cor final, marrom e escura como o pinhão. Os materiais externos escolhidos para as fachadas remetem às condições da natureza do local e proporcionam a sensação de aconchego. Atendem, ainda, à escolha por materiais e mão de obra locais. Para o piso interno foi parafusado assoalho sobre barroteamento, ou seja, barras de madeira de seção trapezoidal chamadas de barrotes ou granzepe, fixadas com espaçamento uniforme entre si. Elas têm a função de apoiar e permitir a fixação das lâminas de assoalho, por sua vez parafusadas aos barrotes. Estes se fixam nas lajes e na argamassa de regularização sobre a laje com pregos ou parafusos. Nas áreas das bordas, que configuram os guarda-corpos em vidro, o assoalho forma um revestimento do nicho para fixação dessas placas envidraçadas e se estende de forma contínua. A tabeira dá o acabamento superior da parede com revestimentos em canjiquinha, ou seja, assentados na horizontal.

Tanto para as faces internas como externas das paredes foram escolhidos os tijolinhos queimados e pedra de ardósia ferrugem com filetes em canjiquinha. Para proporcionar leveza e obter as curvaturas necessárias, bem como conciliar os grandes vãos e as diferenças de alturas, a opção foi por uma estrutura metálica em aço combinada a fechamentos em vidro, curvos, temperados e produzidos em placas uma a uma. Os revestimentos internos para piso, paredes e teto são em madeira e cobrem 5.800 m² das superfícies em aço. Foram produzidos de forma artesanal em ripas de peroba mica (ou muirajuçara) certificada do Pará de diferentes tamanhos, resistente à umidade e ao ataque de insetos.

TELHAS E TELHADO
A taubilha de madeira designa telha de madeira, termo derivado da palavra tabuinha. São pregados uma a uma sobre contrarripas. A sobreposição de aproximadamente 30% de uma fiada de telhas sobre a anterior garante a produção de um telhado estanque.

Neste projeto, a taubilha é tratada em autoclave. Extrai-se sua umidade natural substituindo-a por um líquido fungicida que também a protege contra brocas e cupins, tendo cobre, cromo e arsênio em sua composição. A espécie utilizada na taubilha é pinus taeda, normalmente plantada para ser usada na construção civil e de crescimento muito rápido, a forma mais sustentável de obtenção de um material construtivo. Este tipo de madeira tende com o tempo adquirir um tom prateado.

A cobertura se apoia na estrutura metálica. Sobre a parede de fechamento de fachada tem-se a viga metálica em aço de seção transversal retangular vazada. E como fechamento vertical até o plano inferior do telhado tem-se o assentamento de tijolos e revestimento em argamassa.

As terças metálicas em seção quadrada tubular de 50 cm x 50 cm se apoiam em vigas tubulares de seção circular, com contorno metálico e diâmetro de 100 mm. Constituem, assim, um reticulado estrutural que sustenta o telhamento e impermeabiliza a cobertura.

Sobre as terças são dispostas placas de compensado naval de 1.600 mm x 2.200 mm e espessura de 20 mm, que formam um emplacamento. A face exterior é tratada com impermeabilização asfáltica e manta de subcobertura termoacústica. Apresenta base para fixação de ripamento e contrarripamento, nos quais se fixam, respectivamente, as mantas de subcobertura de isolamento e as telhas de madeira, de 400 mm x 200 mm com 20 mm de espessura.

SPA
O spa é parcialmente enterrado e contempla lavabos, piscina, área de estar, deque de descanso e sauna. A sauna é um ambiente encapsulado sobre a piscina e acessado por passarela. Sob a sauna, há uma área disponível para as instalações e manutenções. A casa de máquinas fica no térreo. A parede de divisa tem dupla espessura e serve como arrimo e prumada das instalações. A cobertura do spa é parte do piso que está em balanço e serve de varanda mirante com guarda-corpo. Estruturalmente, se delimita por uma viga em planta curva. O teto sob a laje é em forro ripado de madeira e se aplica de modo contínuo na vista da viga metálica de borda. O forro é fixado em placas de compensado naval de 1.600 x 200 mm e 20 mm de espessura e sustentado por uma grelha de madeira que se estende entre as vigas metálicas estruturais. O piso da área de estar constitui-se de laje em concreto armado com impermeabilização asfáltica sob contrapiso e revestimento em porcelanato de 60 cm x 90 cm. A piscina tem como base estrutural o concreto armado com impermeabilização asfáltica. Sobre esta base, são feitas regularizações e enchimentos em argamassa para preparação da superfície a ser revestida com argamassa monolítica, sem juntas, cimentícia aditivada Crystal Pool. Este revestimento é antiderrapante e atérmico, composto por cimento, aditivos, agregados de quartzo branco revestidos com pintura cerâmica eletrostática e mármore moído, que permite que seja aplicado manualmente como uma argamassa comum. Adapta-se a curvas e cantos arredondados sem apresentar fissuras, é resistente a produtos químicos como o cloro e à exposição aos raios ultravioleta. Como se trata de uma argamassa moldada no local, o acabamento final se dá após três dias de cura, com uma lixa de diamante refrigerada, gerando uma superfície lisa, mas com desempenho antiderrapante.

PASSARELA
O acesso à sauna se faz por meio de uma espécie de ponte sobre a piscina. Esta corresponde a uma viga em concreto armado com seção trapezoidal e revestida por pedra. No corte, notam-se os níveis que delimitam o banco na sauna, o nível d´água e o pilar central, responsável por sustentar o piso da sauna. Já o banco da sauna tem a estrutura em concreto armado, laje plana sobre pilar central e viga de borda vazada que conforma o banco. O núcleo vazado da viga corresponde ao duto de fluxo para vaporização do ambiente. Uma parede em alvenaria também revestida em pedra serve de encosto. O mesmo material recobre o piso e o contorno do banco. No corte CC vê-se o ambiente encapsulado da sauna e a passarela em corte transversal e, no corte BB vê a vedação de acesso aos lavabos, escadas de acesso e passarela em corte. Notam-se nestes cortes as seções vazadas em aço das pérgulas em que sustentam a cobertura em vidro.

LAREIRA
A lareira foi instalada na estrutura metálica de sustentação vertical com pilar treliçado triangular, aproveitando-se da própria verticalidade dos dutos de exaustão. Esses dutos seguem até o telhado e se dividem em duas chaminés. À frente do pilar triangular está o duto de exaustão.

Para o fechamento vertical assoalhado em madeira, lâminas com encaixe macho e fêmea de 20 cm, 10 cm e 6 cm de largura e fixadas de modo alternado e que se inicia junto à lareira e se estende até o forro do teto. Junto ao pavimento o fechamento assoalhado em madeira se apoia em uma estrutura metálica em caixa que tem como boca central a lareira e duas aberturas laterais que servem de nicho para guarda das lenhas. O fechamento junto ao forro de teto tem a forma pelo fechamento junto à treliça em duas águas e na altura correspondente à viga treliçada da cumeeira.

PEROBA
Revestimentos internos, piso e paredes foram realizados de forma artesanal em ripas de diferentes tamanhos de peroba mica certificada do Pará. Este tipo de madeira é recomendado para ser utilizado na forma de tacos, caibros, vigas, ripas e forros. Razoavelmente simples de ser trabalhada, ela apresenta excelente acabamento superficial e permite o uso de pregos e parafusos.

É conhecida popularmente em todo o Brasil por diversos nomes como balsinha, bucheira, guatambu, guatambu-do-cerrado, moela-de-ema, muirajuçara, panaceia, pau-pereira, pereira, pereiro, pereiro-do-campo, peroba, peroba-amarela, peroba-amarga, peroba-cetim, peroba-do-campo, peroba-do-cerrado, peroba-mico, peroba-mico-marrom.

PROCESSO DE PROJETO
A metodologia de projeto adotado pelos arquitetos é elemento fundamental para alcançar sua ambiciosa espacialidade. Na arquitetura contemporânea, novas metodologias foram desenvolvidas. A obra do canadense Frank o. Gehry é exemplar neste sentido, intimamente ligada ao método de projeto que ele próprio inventou. No caso de Mareines+Patalano, o binômio croquis e maquetes são estruturais. Os croquis permitem apurar a relação entre o programa e o espaço proposto. Mas é por meio do uso de maquetes que eles definem com maior clareza os aspectos construtivos e espaciais da edificação. A intrincada volumetria da cobertura foi estudada meticulosamente. As proporções delicadas da superfície paraboloide abraçam o plano inferior da cobertura. Simultaneamente, são esboçadas as primeiras propostas construtivas que foram posteriormente detalhadas.

SASQUIA HIZURO OBATA é engenheira civil pela Faap, com mestrado em engenharia civil pela USP e doutorado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie. É professora do curso de arquitetura e urbanismo na Faap e na Fatec Tatuapé-Victor Civita. É coordenadora de Projeto de Gestão Aberta para Inovação do Inova Paula Souza; e coordena o curso lato sensu em construções sustentáveis na Faap.

MARCOS O. COSTA é arquiteto urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAU-USP. Associado à Borelli & Merigo, desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

POR: SASQUIA HIZURU OBATA E MARCOS COSTA