Projeto espanhol incentiva crianças entre 9 e 10 anos a desenvolver propostas para uma praça e, assim, contribuírem para melhorar o local onde vivem

O grupo Taller Abierto, comandado por Ana Barreiro, Marta Guirado e África Martínez, ensina arquitetura para crianças em Pontevedra, cidade espanhola na região da Galícia. Em entrevista a AU, Marta Guirado explica que o curso criado por elas, chamado Arquitectura para Niños (www.arquitecturaparaniños.es), não busca transformar crianças em pequenos arquitetos. A ideia é que, desde cedo, os pequenos aprendam a se relacionar ativamente com o local que os cerca e assim possam desenvolver uma visão crítica a respeito de seu habitat. Em sete sessões de uma hora cada, as crianças recebem noções básicas de escala, espaço e urbanística. Em seguida, criam uma proposta para melhorar uma praça próxima à escola onde estudam e discutem os temas que devem figurar no projeto final, construído por todos.

Como começou o projeto de educação e discussão de arquitetura com crianças?
MARTA GUIRADO
 Começou quando fomos selecionados pela Fundação Barrié, que desenvolve o programa EducaBarrié de fomento à educação. Propusemos nossa ideia na categoria Projetos de Colaboração entre Associações e Escolas. Nossa instituição, Taller Abierto, desenvolveu o conteúdo educacional de arquitetura, enquanto a equipe de gestão e os professores Nieves Rodriguez e Justo Fernandez, do Centro Educativo de Ensino Primário e Infantil (Ceip) Praza de Barcelos, criaram as ferramentas de ensino.

Para quais alunos o curso foi pensado?
MARTA GUIRADO
 Para crianças entre nove e dez anos, que cursem o quarto ano do ensino fundamental do Ceip Praza de Barcelos, uma escola pública. Trabalhamos com dois grupos de 25 alunos.

Qual a estrutura do curso?
MARTA GUIRADO
 Foram desenhadas sete sessões de uma hora de duração para cada grupo. E, de fato, é um projeto integrado no qual a arquitetura é um veículo, uma ligação entre várias áreas de conhecimento: ciências sociais, ciências naturais, inglês, educação artística e matemática. A arquitetura em sentido amplo, o que hoje chamamos de “aprendizagem espacial”. Não como um corpo separado do conhecimento, mas sim relacionando às disciplinas curriculares.

Qual o método utilizado para definir as sessões de trabalho, temas e objetivos?
MARTA GUIRADO
 A criança deve aprender a pensar e saber como localizar e filtrar as informações significativas para desenvolver o seu próprio conteúdo. Há uma abordagem de áreas sem relação direta com a programação curricular tradicional, como arquitetura, urbanismo e antropologia, sempre feita a partir da base do que a criança já conhece e está familiarizada. Com esta metodologia, tentamos incentivar a experimentação direta e a manipulação de artefatos culturais e novos materiais teóricos, práticos e técnicos. Fizemos ainda um esforço para que outros professores utilizassem o projeto como uma ferramenta-guia para descobrir a importância da arquitetura, não somente como elemento construído, mas como condição da paisagem e da vida. Fizemos o site e, a partir dele, soubemos que docentes passaram a usar o programa em sala de aula, no âmbito do ensino formal, e em workshops, de educação não formal. É aí que reside o sucesso do projeto, pois, uma vez concluído, ele pode ser recuperado por outras pessoas e continuar a ser desenvolvido em outros lugares.

A proposta final é elaborada a partir de dez propostas criadas em grupo. Como ocorre esse processo?
MARTA GUIRADO
 O programa para a praça, que fica ao lado da escola, foi formalizado em uma série de projetos em grupo. Como são dez equipes de cinco alunos, dez projetos são apresentados a um grande grupo e, a partir de uma análise coletiva, em formato de assembleia, são escolhidos os mais relevantes para montar um projeto final.

É possível construir a proposta final dos alunos?
MARTA GUIRADO
 Inesperada e felizmente a Prefeitura de Pontevedra assumiu o financiamento da obra. A escola tem um pátio de recreio muito exíguo e escuro. A praça e sua reforma são uma ótima oportunidade de abrir a escola para o espaço público e melhorar a convivência entre as crianças.

Quais são os próximos passos do curso?
MARTA GUIRADO
 Ele deve funcionar como um organismo vivo, a exemplo de nossa sociedade, para que mude e cresça a cada ano. A escola parceira nessa experiência reconheceu o nosso curso e o englobou dentro do seu projeto educativo. Por isso, no próximo ano voltaremos a intervir nessa escola. E, a ideia é trabalhar com mais escolas no futuro.

Quais os maiores desafios do ensino da arquitetura para crianças?
MARTA GUIRADO
 Provavelmente o mais difícil é explicar para os adultos que o programa não trata de formar pequenos arquitetos, mas sim cidadãos capazes de intervir criticamente em seu entorno. A arquitetura é tudo aquilo que nos rodeia. Todos desfrutamos dela e, em muitos casos, sofremos com ela. Nunca tivemos dif iculdade em explicar isso para as crianças. Elas abraçam o projeto com grande entusiasmo e muita capacidade reflexiva.

PARA ALÉM DA SALA DE AULA
O projeto educativo Arquitectura Para Niños foi selecionado na terceira edição do programa Educa- Barrié (2014-2015). O EducaBarrié é uma rede formada por professores, alunos, pais e pesquisadores e voltada a construir um novo modelo de educação. Conta com o apoio da Fundação Barrié, entidade sem fins lucrativos criada em 1966 para promover melhorias sociais e econômicas na região da Galícia.

DURAÇÃO: sete sessões de uma hora cada
ANO: 4º ano do Ensino Fundamental
IDADE: de nove a dez anos
NÚMERO DE ALUNOS: duas turmas de 25 alunos
MATÉRIAS ENVOLVIDAS: ciências naturais, ciências sociais, matemática, educação artística e inglês.

METODOLOGIA
Interagir com os alunos por interpelação e questões abertas, para a aprendizagem pela descoberta. É uma proposta prática para as crianças, dentro e fora da sala de aula, para que descubram o território onde vivem e conheçam as características básicas das arquiteturas mais próximas e também das mais remotas. Incentiva a ação do estudante e a atitude crítica em relação à paisagem e ao construído, contribuindo para a formação da criança como agente responsável e sensível ao ambiente em que vive. A partir de uma metodologia ativa, são empregadas várias atividades e ferramentas conforme as características específicas de cada aluno. O professor se torna o facilitador do processo, enquanto o aluno constrói seu próprio conhecimento.

OBJETIVOS
 Conectar as crianças com seu entorno.
 Associar determinadas características construtivas a fatores climáticos e elementos geográficos.
 Conhecer casas pelo mundo, seu significado antropológico e seu sentido social.
 Valorizar a arquitetura popular e a paisagem.
 Explorar e conhecer materiais e instrumentos, adquirir códigos e técnicas específicas e diferentes linguagens artísticas, utilizandoas para fins expressivos e de comunicação.

CONTEÚDO
Sessão 1 – O refúgio: comportamento animal e humano.
Sessão 2 – A vivenda: fatores territoriais e sociais.
Sessão 3 – Antropometria: medida e proporção.
Sessão 4 – A escala e o léxico arquitetônico básico.
Sessão 5 – As ferramentas do arquiteto: maquete e planta.
Sessão 6 – O entorno próximo: reflexão.
Sessão 7 – O entorno próximo: atuação.

AVALIAÇÃO
Dada a natureza extracurricular do programa, não há notas objetivas, mas a avaliação constante da atuação de alunos e professores. São analisados expressão e contribuição para a sala de aula; trabalho crítico, ativo e reflexivo; e atenção, rigor e linguagem oral, escrita, gráfica e plástica.

Atividades conjuntas na sala de aula como uma oficina aberta permitem retorno constante, a partir do qual são determinadas melhorias e correções, tanto pedagógicas quanto do conteúdo arquitetônico.

Ursula Troncoso é arquiteta e urbanista formada em 2007 pela Escola da Cidade em São Paulo, onde foi professoraassistente de projeto e cursou pósgraduação em Arquitetura, Educação e Sociedade (2015). É pós-graduada pela Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), em Barcelona (2009), quando pesquisou novas formas de morar e ocupar o território. Desde 2014 é titular do escritório Ateliê Navio, voltado à arquitetura, urbanismo e educação.