Ivo Giroto detalha a obra de Fabio Penteado e a preocupação do arquiteto em contribuir para a transformação social

Dono de uma obra singular entre a produção canônica dos mestres da arquitetura moderna paulista, o arquiteto Fábio Moura Penteado desenvolveu uma produção formalmente variada, mas extremamente coerente no discurso, que trata a arquitetura como agente ativo de transformação social, em um país diverso e exuberante, porém injusto e desigual. Seus projetos sempre partiam do pressuposto de que o artefato construído pode contribuir no processo evolutivo da sociedade e da cidade, e a eloquência formal que transparece em suas propostas, das mais simples às mais complexas, está sempre condicionada a esse princípio.

Falecido há cinco anos, após mais de cinco décadas de uma carreira excepcional e plena de referências, sua arquitetura reflete uma rica trajetória vital e da abertura de seu caráter. A forte dimensão pública de seu trabalho é o elemento unificador de suas obras. Nelas, convivem a beleza rigorosa apreciada pelo grupo paulista e a sensualidade escultórica da arquitetura moderna carioca, além de abarcar a diversidade propositiva e formal presente no cenário internacional da época.

Ilustração: Paola Lopes

CIDADE E SUJEITO
A realidade é a matéria-prima a partir da qual o arquiteto constrói sua proposta de arquitetura de integração. A observação da relação entre a cidade e seus habitantes é um elemento fundamental na definição do projeto arquitetônico. Poucas vezes tranquila e amigável no contexto brasileiro, sugere que a busca de uma sociabilidade renovada deve dirigir-se pelo caminho oposto ao observado na realidade.

A cidade do século 20 esteve marcada pelo surgimento de novos lugares de sociabilidade: ruas, calçadas, praças e espaços públicos tradicionais na história urbana ganharam novos significados, assumiram conotações simbólicas e de valor. O caos urbano, a velocidade dos automóveis e a vida acelerada das metrópoles modernas, aliados à insegurança das ruas, criaram um ambiente urbano pouco favorável à vida comunitária, com o surgimento de lugares que se abrem mais para si mesmos e menos para a cidade. O desequilíbrio entre “incluídos” e “excluídos” do sistema se reflete na constituição urbana, onde a existência de espaços públicos é escassa, seu uso é tímido e inadequado e, por isso mesmo, marginal em muitas ocasiões.

A experiência de Penteado abrange a diversidade de suas atividades. Além da bela proposta arquitetônica, ele explorou o campo jornalístico como articulista de arquitetura e urbanismo, atuou politicamente pelos direitos da profissão junto ao Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e lecionou na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Dessa forma, expandiu o alcance de seu trabalho e do próprio entendimento sobre os problemas da arquitetura.

DIVERSIDADE E CONVIVÊNCIA
As múltiplas possibilidades de uso dos espaços propostos pelo arquiteto buscam amenizar o problema resultante da soma da carência de recintos públicos com a falta de planejamento e a escassez de recursos financeiros, de que padecem as cidades do mundo em desenvolvimento, por meio de espaços que alcancem a máxima “rentabilidade social”, em uma expressão do próprio arquiteto.

Nesse contexto, a função da arquitetura seria criar lugares capazes de congregar a diversidade de pessoas e interesses existentes na cidade, papel que se traduz na concepção de espaços públicos generosos, multifuncionais, acolhedores e significativos.

O Teatro Municipal de Piracicaba (1960) se contrapõe à opção recorrente para este tipo de programa, de volume em bloco fechado. Trata-se, ao contrário, de um edifício fluido, permeável e aberto ao espaço urbano. Lançando mão de uma poética relação de reciprocidade, o edifício gentilmente se transforma em praça, de maneira a conduzir o transeunte a experimentar a arquitetura.

A praça é espaço físico, mas também símbolo, centro e referência. Ao ser o espaço público mais emblemático e multifuncional, o conceito de praça engloba o número e o significado do povo, acolhe o trato comum entre os vizinhos, o mercado e a festa popular.

No mesmo sentido, o projeto do Mercado do Portão (1965), em Curitiba, evoca as feiras tradicionais, que abandonaram as praças públicas para se instalar em pavilhões fechados, na tentativa de retomar a dimensão cultural do mercado como âmbito de interação e convivência social. As lojas se organizam radialmente a partir de uma praça, em composição dinâmica, potencializada pelo jogo entre as coberturas assimétricas dos pavilhões. O projeto cria um espaço onde a finalidade comercial cede protagonismo à convivência comunitária, onde a troca suplanta o valor de troca.

Na proposta para o novo Centro Administrativo Estadual de São Paulo (1975), a referência à vitalidade e polivalência da rua tradicional caracteriza a composição espacial, funcional e volumétrica do enorme edifício, que se assenta horizontalmente em meio a um amplo parque às margens do rio Tietê.

Ao liberar o térreo para o uso público e concentrar as funções administrativas nos pavimentos superiores, Penteado expõe sua raiz formativa moderna. O espaço marcado pela diversidade de usos e funções revela sua defesa da cidade complexa e multifuncional, argumentos emblemáticos do discurso pós-moderno.

Composto a partir de repetidos blocos em pirâmides invertidas, unificados por uma grande cobertura encurvada, o partido estruturador da edificação sugere a possibilidade de ampliações de acordo com a necessidade. Estabelece, assim, um diálogo inequívoco com a tendência megaestruturalista, fortemente presente no debate internacional da época, ao passo em que se integra à interpretação da arquitetura como infraestrutura, atitude comum na produção da chamada Escola Paulista.

Se muitos dos projetos de Fábio Penteado surpreendem pela liberdade e singularidade expressiva, outros são exemplares do repertório formal-intencional desenvolvido pela Escola Paulista.

Para a sede social do Clube Harmonia (1964), voltado ao lazer fechado de uso privado e restrito, o arquiteto idealiza espaços internos abertos e completamente integrados ao ambiente externo. Por meio do recurso consagrado pelos paulistas de conter o programa em uma caixa única, cria um envolvente cerrado e sólido por fora, mas que quase se desmaterializa internamente na atmosfera oferecida pela luz natural, filtrada por domos de cobertura e elementos laterais móveis de fechamento. A articulação dos níveis dos pisos, tratados como uma progressão sequencial de planos, requer ludicamente a participação do usuário e garante a unidade deste espaço.

ACESSO E PARTICIPAÇÃO
O olhar do arquiteto se dirige ao “homem comum”, e busca transformar seu caráter estatístico em atuação cidadã. Os sentimentos do habitante ordinário das cidades periféricas do mundo, geralmente pobre e mal instruído, são levados em conta na idealização de espaços que dissipam o retraimento, e estimulam a aproximação entre o indivíduo e as instituições públicas, políticas e culturais, entre o cidadão e a cidade, enfim.

O edifício do Fórum da cidade de Araras (1960), no interior paulista, é definido pela subversão do modelo tradicional de edifício representativo da Justiça, caracterizado pelo fechamento e pela ideia de dignidade pomposa e artificial. O programa se organiza ao redor de uma pequena praça coberta, para a qual os serviços do fórum se abrem de maneira espontânea. Até mesmo a sala do júri, um volume azulejado central na composição do conjunto, foi concebida para que, nos finais de semana, funcionasse como um pequeno teatro aberto à população. Desta forma, o edifício transcende as funções jurídicas específicas e oferece um espaço público que busca representar a verdadeira aplicação da justiça, ajudando a dirimir a eventual sensação de medo e desconfiança dos usuários.

A espontaneidade espacial e a multiplicidade de usos são estratégias utilizadas por Penteado para oferecer acesso a serviços e espaços públicos de qualidade, tão escassos nas cidades brasileiras, marcadas pela carência generalizada e pela falta de referências urbanas significativas.

Outro bom exemplo de tal sensibilidade está no projeto para o Hospital Escola da Santa Casa de Misericórdia (1968) – hoje convertida em Fórum Criminal -, obra que trabalha com a imensidão da escala metropolitana de São Paulo. Calculado para receber 15.000 pessoas diariamente, o hospital opta pela horizontalidade que define, além do partido arquitetônico, sua estrutura funcional. A opção é parte da busca por minimizar a angústia própria dos ambientes hospitalares, valendo-se de uma praça central ajardinada como elemento aglutinador de seus três níveis. A intenção é recriar a dinâmica espacial de uma pequena cidade, familiar a todos antes mesmo de que se a conheça.

A cidade proveniente do desequilíbrio desestimula a convivência e privatiza a experiência sentimental, desestabilizando a relação entre a liberdade individual e o vínculo coletivo. Os espaços de congregação multitudinária, de estádios esportivos a centros comerciais, comumente não passam de lugares onde a massa é convidada a assistir passivamente. Em seus projetos, Penteado trata o cotidiano como uma possível instância libertadora, por meio do estímulo à convivência e à participação.

O exercício de concepção de um teatro popularizado por meio da subversão da hierarquia compositiva, se materializa com a construção do Centro de Convivência Cultural de Campinas (1967/68). Os espaços teatrais fechados, organizados sob quatro grandes volumes coroados por arquibancadas, que configuram uma arena, invertem poeticamente a composição esperada em razão dos desígnios da própria cidade. Segundo Penteado, formaliza-se naturalmente na necessidade de “Um espaço aberto para o encontro e o convívio, onde se pode ficar à vontade, vadiar, ler, descansar, namorar, assistir à espetáculos artísticos e esportivos, participar de manifestações públicas…”. O complexo se resume a uma praça-monumento, funcionando como um grande espaço que reconstitui a consciência espiritual e política do cidadão ao construir um símbolo de liberdade.

IDENTIFICAÇÃO E PERTENCIMENTO
Suas propostas para obras destinadas a instituições culturais demonstram de maneira clara a intenção de popularização da cultura, dada a dimensão de sua responsabilidade na formação de um povo livre e independente. Em um país onde uma formação intelectual ampla ainda é acessível a poucos, Penteado usa a arquitetura como um meio para atrair as massas e familiarizá-las aos aspectos da arte e da ilustração, rompendo a barreira psicológica que caracteriza a cultura como algo inatingível e restrito.

Para o Teatro de Ópera em Campinas (1966), ele retoma as reflexões feitas acerca da dessacralização do teatro iniciadas no projeto de Piracicaba. Com maior disponibilidade de terreno, em meio a um parque, o volume construído reorganiza o entorno natural por meio de uma vigorosa presença monumental. A composição é feita por dois edifícios independentes, um teatro de ópera e outro menor de comédia, conectados por um terceiro espaço teatral ao ar livre que posiciona o palco em uma ilha, no meio do lago que emoldura o conjunto. A forte presença do construído se unifica e se confunde com o natural por formas orgânicas, resultando todo o projeto em solução paisagística, organizado e valorizado pela composição estruturada no vazio da grande praça. A proposta, premiada com a grande medalha de ouro da I Quadrienal Mundial de Teatro de Praga de 1967, evoca em sua dimensão figurativa elementos da natureza, além da inspiração no espaço popular da figura do circo.

A obra de Penteado recupera o valor do monumento na trama urbana, e unifica as dimensões contemplativa e funcional, por meio de uma monumentalidade que recusa a formalidade e conduz à reunião de maneira espontânea. A singularidade expressiva que se revela em seus projetos quer criar pontos de referência, difusores de significado, em contextos urbanos cada vez mais dominados pela força homogeneizadora do mercado imobiliário.

Um dos exercícios mais livres do contexto urbano e também o mais grandioso foi o projeto para o Monumento de Playa Girón (1962), em Cuba, classificado em segundo lugar no concurso internacional. O caráter requerido pelo certame e sua localização – construir um monumento comemorativo à vitória cubana sobre os americanos na Baía dos Porcos – permitia uma obra isolada na paisagem e sugeria uma forma escultórica e monumental. A solução é um verdadeiro desafio técnico: uma árvore feita com vigas em concreto de 90 metros de balanço dominando uma praça para trinta mil pessoas. O grande monumento recria a natureza da paisagem e se impõe no horizonte como marco técnico e poético e que requer a participação popular como confirmadora do ideal arquitetônico. A presença da multidão anima o conceito e vivifica a arquitetura, por meio de um desenho sempre mutante, configurado pela presença do povo na praça. Conforme sintetiza o memorial do projeto:

“De longe é paisagem. De perto é monumento. A praça é o povo.”

A dimensão da arquitetura de Penteado estabelece relação intrínseca e orgânica com a dimensão da paisagem e a vastidão territorial, cuja amplidão incide diretamente na definição de sua arquitetura.

É importante ressaltar a influência que a metrópole de São Paulo exerceu na obra de Penteado. As idiossincrasias de uma cidade cuja condição contemporânea se torna quase inviável pelo trânsito, pela carência de espaços públicos, pela violência real e psicológica e pela insuficiência crônica dos sistemas públicos nada mais fazem do que atestar a atualidade de seu discurso.

As obras e projetos aqui apresentados, de um conjunto de mais de 150, servem como breve ilustração de uma arquitetura fundamentada em propósitos ideológicos e humanísticos claros: resgatar a convivência comunitária pacífica, respeitar e valorizar a diversidade social brasileira, oferecer acesso à cidade e a seus serviços, estimular a participação e a apropriação dos espaços públicos e criar vínculos de identificação entre os cidadãos e suas cidades. Princípios que podem ser sintetizados numa curta e bela frase que Penteado adorava repetir: “A praça é o povo!”

POR IVO GIROTO, arquiteto e urbanista e professor universitário. Doutor em Teoria e História da Arquitetura pela Universidad Politécnica de Cataluña (UPC – Barcelona).

IMAGENS
1/2/3/4/6/7/8/9/10 Fábio Penteado: ensaios de arquitetura 5 Revista Acrópole

BIBLIOGRAFIA
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CAMARGO, Mônica Junqueira de. “Documento: Fábio Penteado. Arquitetura de integração”. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 105, ano 17, p. 54-59, dez. 2002.
GIROTO, Ivo R. A praça é o povo! Intenção, projeto e multidão na obra de Fábio Moura Penteado. 2014. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura) – Universidad Politécnica de Cataluña, Barcelona.
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ZEIN, Ruth Verde. A arquitetura da escola paulista brutalista. 1953-1973. 2005. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.