Projeto chileno usa grelha geométrica em madeira para criar residência que tem como ponto central uma rampa de skate com vista para o mar

O surfe e o skate guardam suas similitudes. Em ambos os esportes, o atleta utiliza pranchas que deslizam sobre superfícies curvilíneas – no primeiro caso, as ondas, e no segundo caso, as rampas. Movimentos e manobras de surfistas e skatistas também se assemelham: pulos, rotações, saltos, giros e cambalhotas para frente e para trás. Tais modalidades são, conjuntamente, a razão de existência da Casa Merello.

Curiosamente, o núcleo desta residência é uma rampa de skate. Foi implantada em frente ao oceano Pacífico, em uma praia chilena pouco habitada, mas reconhecida pelas ondas propícias à prática do surfe. Suas particularidades devem-se em grande medida ao perfil do morador: um surfista profissional, que compartilha seu tempo com a atividade de cineasta e cujo desejo era fazer da pista de skate uma área de convivência e conversa com amigos.

A residência fica em Pichilemu, cidadela a 207 km da capital Santiago. Em um local pouco urbanizado e com raros vizinhos, a relação da casa com o mar é direta. Está situada muito próxima à arrebentação das ondas, uma vez que é curta a faixa de areia que separa a construção da margem d’água. A edificação pousa sobre um ponto com dunas e vegetação rasteira dispersa, e a franca interação com a natureza expõe a casa a uma miríade de virtudes ambientais, mas também a perigos. Assim, pilares em V suspendem toda a área interna da casa, protegendo a residência de marés muito altas ou mesmo do risco de tsunamis.

A estrutura é de madeira de pinus, extraída em Pichilemu e tratada e cortada pela mão de obra local. O resultado é uma construção de rápida execução, econômica, seca e leve, especialmente se comparada a alternativas que empregam concreto, metal ou alvenaria. Além de baixar custos, o fato de a madeira ter origem em uma zona florestal muito próxima à do projeto reduz os deslocamentos e faz da construção ecologicamente responsável – sem contar que pinheiros são árvores de crescimento acelerado, o que permite rápida reposição.

As fundações de concreto armado afloram sutilmente da superfície de modo a resguardar a madeira da umidade cotidiana do solo. No rés do chão, perfis diagonais e simétricos são empregados para concentrar as cargas no menor número possível de pontos de apoio no terreno.

Sobre esses pilares, é lançada uma estrutura de madeira em grid. Ela incorpora ambientes tão distintos quanto um quarto com banheiro, cozinha, sala de estar e varanda ao ar livre, cujo miolo é ocupado pela rampa half pipe (ou meio-tubo). Interessante que, mesmo com este enorme equipamento curvilíneo externo, o programa heterogêneo se insere indistintamente em um mesmo volume suspenso. A grelha geométrica proporcionada pela arquitetura absorve tudo, inclusive a curva criada para o skate.

O grid estrutural é definido por eixos que distam 4 m entre si. Assim, há cinco eixos perpendiculares à margem do mar – lado em que a casa totaliza 16 m de extensão. Do lado oposto, paralelo à linha da praia, há quatro eixos centrais, seguindo o distanciamento da malha geral. E, tanto na face voltada ao oceano quanto na fachada de acesso, há balanços de mais de 2 m para além da linha de pilares no térreo.

Os dois quadrantes centrais do pavimento superior são, na verdade, vazios. Esta parte nuclear é um deque no térreo com duas árvores em crescimento. O que pode se denominar como jardim interno funciona como área adjacente à rampa de skate. Ou seja, neste ponto da casa, a comunicação entre um andar e o outro ocorre pelo deslizar na pista arqueada de madeira. Esta parte ao ar livre é complementada pela varanda que circunda os espaços centrais já descritos. Posicionada no nível superior, ela tem piso de tábuas de madeira e notabiliza-se pela singular cobertura: um pergolado incorporado à modulação geral com perfis da mesma madeira e mesma secção que os pilares e as vigas. O pergolado é composto pela somatória de requadros menores de variação rítmica e gera uma sombra vistosa formando o desenho de um trançado escuro ao chão.

Entra-se na Casa Merello por uma escada paralela à fachada localizada perto da estrada de acesso. Ali há uma sala de estar integrada a uma grande mesa de refeições e à bancada da cozinha. Este ponto da casa também é ligado diretamente à varanda. Reunindo diversas atividades cotidianas, este ambiente tem dois planos com vista desimpedida para a praia. A relação visual entre o espaço íntimo (interior) e a natureza (exterior) é sempre de transparência literal.

Ao lado da sala maior está o escritório com espaço para ver televisão. Por fim, temos a suíte: banheiro, closet e o quarto que se abre para a varanda. As paredes divisórias entre os aposentos são feitas com pranchas de madeira, quase todas aparentes. Há duas exceções em que uma pedra escura de tom esverdeado e formato irregular é usada como revestimento. Trata-se de uma rocha típica dessa região chilena.

As fachadas recebem, cada qual, um tratamento diferente. A única totalmente aberta é aquela voltada para o mar. Virada para a estrada de acesso, a face oposta é composta por perfis verticais de madeira dispostos bem próximos uns dos outros. O espaço entre os perfis é vazio no trecho da escada de entrada. Já para preservar as áreas íntimas, hastes de madeira são preenchidas com telha de cedro, servindo de divisória com o interior.

Uma das fachadas laterais é semelhante a esta última central, também com sequência de perfis de madeira que geram uma padronagem capaz de dialogar com a forma do pergolado superior. Tal fechamento vazado revela o contravento de madeira da estrutura primária, a fim de enrijecer o conjunto edificado.

A outra fachada é a única revestida de vidro, com chapas transparentes de 1 m de largura, na sua maioria. A opção pelo vidro protege o piano nobile do forte vento litorâneo.

Não se pode desconsiderar que, em paralelo ao bloco principal, há um volume menor e linear, uma edícula destacada do solo, porém mais baixa que a parte principal da casa. Conectado por uma escada, o anexo contém dois quartos com banheiro, permitindo o uso independente. Estrutura e materialidade seguem o volume principal, desde o uso da madeira (embora os fechamentos laterais sejam mais cerrados) até o formato dos pilares em V. Mesmo desprendida do bloco maior, a edícula se torna uma extensão da grelha geral, acompanhando suas dimensões e proporções.

Assim, aparentemente rígido, o grid é implantado como uma regulação absorvedora. Em meio à sua malha rigorosamente proporcional, incorporam-se as ondas, seja no plano curvo de madeira, seja no movimento perpétuo da paisagem marítima que a Casa Merello internaliza.

HANGING THE GRID
Surfing and skateboarding hold similarities. In both sports, the athlete uses boards that slide over curved surfaces – in the first case, the waves, and in the second case, the ramps. These modalities are, jointly, the reason for the existence of Casa Merello. The residence is set in Pichilemu, a citadel 207 kilometers from the Santiago capital. In a barely urbanized location and with hardly any neighbors, the house has a direct relationship with the ocean. The construction is landed on a point with dunes and scattered underbrush, and outright interaction with nature exposes the house to a myriad of environmental virtues, but to dangers, as well. Thus, the V-shaped pillars suspend the entire indoor area of the house, protecting the residence from very high seas or even the risk of tsunamis.

The structure is pine wood, extracted from Pichilemu, then treated and cut by local labor. The result is a light, dry, quickly-built, economic construction. In addition to low costs, the fact of the wood having local origin reduces displacement and makes the construction ecologically responsible.

Over the pillars sets a wooden structure. This structural grid is defined by axles lying four meters apart. Thus, there are five axles perpendicular to the seashore – on the side of the house that stretches 16 meters long. Each one of the facades receives different treatment. The only totally open facade looks out towards the ocean. Turned towards the access road, the opposite face is composed by vertical wooden profiles set very close to each other.

The other facade holds the only sheathing made of glass, with transparent panes – mostly all – one meter wide, which protect the piano nobile from the strong coastal breeze.

The waves are incorporated in its rigorously proportional mesh, either in the curved wooden surface or in the perpetual movement of the ocean scenery, which the Casa Merello internalizes.

POR: FRANCESCO PERROTTA-BOSCH FOTOS: SERGIO PIRRONE