Em detalhes: Casa Merello, do WMR Arquitectos, Chile

IMPLANTAÇÃO E CLIMA
A Casa Merello é uma residência à beira-mar em uma área de poucas ocupações, no vilarejo de Pichilemu, da região de Coquimbo, no Chile. A paisagem do entorno tem relevo natural de inclinação leve do nível do mar e ao longo do terreno. O chão rochoso e pedregoso apresenta vegetação escassa e rasteira, típica de deserto, com cactos e pequenos arbustos, dos quais o paisagismo da edificação tirou proveito com aplicação na cobertura e no jardim fronteiriço à praia.

A região tem ventos sul predominantes e é suscetível a tsunamis. As ondas gigantes levam à constante presença de surfistas que participam do ranking mundial, Big Wave Surfing League, como é o caso do proprietário da residência em estudo. A caracterização do clima da região indica um regime mediterrâneo, com invernos chuvosos e o restante do ano bastante seco. Os ventos são comuns o ano inteiro, sendo predominantemente sul (SSW) e noroeste (NW), com velocidades críticas e até perigosas. É comum a presença de neblina costeira. As temperaturas não costumam baixar de 0ºC. As faces norte e sul são respectivamente tratadas com fechamento de madeira (brises verticais) e de vidro fixo. Limita-se, assim, a vulnerabilidade dos ambientes quanto ao posicionamento do sol durante o ano e quanto ao regime de ventos.

Para que não se perdesse a vista do azul do mar do Pacífico, as principais vistas foram abertas para o oeste e, deste modo, para o sol poente. Tal solução permite que o sol penetre nos ambientes nos horários em que está mais quente, possibilitando o aquecimento passivo dos mesmos. Já o sol do amanhecer incide em um dos cômodos dos visitantes, assim como no banheiro e closet do dormitório principal, todos posicionados na face leste da residência. A legislação local limita a altura das edificações em 4 m, para que não se interfira fortemente na paisagem.

O acesso à cota principal da residência se faz por meio de uma escada posicionada na face sul e incluída no bloco principal. A escada se desenvolve junto à face leste, com envoltória composta pelo brise vertical em madeira. Ela dá acesso a um pequeno pátio pelo qual se chega à adega e à sala principal.

PROGRAMA ARQUITETÔNICO
O dono da casa é o cineasta e surfista profissional Cristián Merello. O projeto permite dar vazão à sua admiração pelo mar ao mesmo tempo em que serve de escritório e de ponto de encontro entre amigos. Assim, a edificação é dividida em dois blocos: a casa em si e o anexo com dormitórios suítes, com um total de área construída de 200 m², com térreo, piso superior e cobertura. O bloco principal tem um programa dividido entre a vista mais próxima ao mar, local de contemplação, treino e lazer, com um grande deque e passarela em madeira, e os fundos, onde se localizam os espaços de escritório, social e de habitação.

Ampla e simples, a morada do casal tem dormitório que oferece visão total para a praia, além de closet e banheiro. Tanto o piso como o forro assoalhado são orientados na direção ao mar. O forro do teto se estende até o peitoril em madeira clara e continua em tom escuro até o rodapé. A parede de divisória oposta à cama é revestida em pedra, e o controle de privacidade e lumínico são feitos por persianas de enrolar embutidas no forro do teto.

No pavimento térreo, se encontra o jardim interno central e a extensão plana da rampa de skate. Esta possui duas abas em ascensão, uma com maior declive e curvatura se conectando ao deque superior e outra com borda aberta em nível inferior ao deque. A rampa foi especialmente confeccionada para o morador por uma empresa especializada em pistas de skate, a partir de lâminas de madeira sobre estrutura em placas e vigas de madeira.

SISTEMA CONSTRUTIVO E ESTRUTURAL
A construção é em madeira do tipo pinho, natural da região. Tal material, somado ao uso de mão de obra local, contribuiu para tornar o projeto econômico e sustentável. Para aumentar a durabilidade e tornar a madeira resistente à umidade e a ataques biológicos, foi usado um líquido protetor de coloração escura. Tanto no piso como nas vedações, foram utilizados pinho e também o alerce, conífera da família do cipreste nativo nas montanhas dos Andes e muito comum no Chile. Tais madeiras são leves e de baixa condutibilidade térmica.

Os sistemas de ligação são parafusados e pregados. Nas juntas estruturais principais, são dispostas ligações com chapa de aço. O alerce foi utilizado na vedação em “siding”. Sua forma tem como princípio drenagem e vedação aos efeitos das condições meteorológicas. É muito utilizado como atributo estético, o que requer que as tábuas horizontais se encaixem por sobreposição em sistema macho e fêmea, permitindo as movimentações termo- -higroscópicas da madeira.

A estrutura é suspensa e resistente às condições de desempenho à beira-mar. O sistema estrutural é modular treliçado em todo o pavimento térreo. No pavimento superior, é utilizado na direção paralela aos ventos marinhos, ou seja, como uma subestrutura de contravento de maior resistência, e definido por pórticos. Já no jardim central e rampa, por ser aberto e sem a constituição das diagonais, há uma viga de guarda- -corpo que contribui para maior rigidez dos pórticos.

SASQUIA HIZURO OBATA é engenheira civil pela Faap, com mestrado em engenharia civil pela USP e doutorado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie. É professora do curso de arquitetura e urbanismo na Faap e na Fatec Tatuapé-Victor Civita. É coordenadora de Projeto de Gestão Aberta para Inovação do Inova Paula Souza; e coordena o curso lato sensu em construções sustentáveis na Faap

ANDREA BAZARIAN VOSGUERITCHIAN é arquiteta e urbanista, consultora ambiental e LEED AP. Pela FAU-USP é doutora em Planejamento Urbano e Regional, mestre em Tecnologia da Arquitetura e especialista em Conforto Ambiental e Conservação de Energia. É docente da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e do programa de pós-graduação em Sustentabilidade das Edificações da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.