Artesão japonês aplica papel washi em painéis para projeto de Kengo Kuma em São Paulo

De aparente delicadeza e fragilidade, o papel washi japonês é uma matéria-prima cheia de potencialidades, capaz de se transformar em resistentes revestimentos e notáveis elementos arquitetônicos. Sua aplicação à arquitetura é uma das principais linhas de trabalho do artesão japonês Yasuo Kobayashi, que há 40 anos se dedica a explorar os limites desse material produzido com as fibras da casca de um tipo de amoreira oriental, o arbusto kozo. Entre julho e agosto, Kobayashi esteve no Brasil para ensinar como produzir painéis baseados no uso desse papel.

Participaram da oficina os trabalhadores envolvidos na construção da Japan House São Paulo, centro de cultura, tecnologia e negócios que será inaugurado na Avenida Paulista, em março do ano que vem. A Construtora Toda do Brasil é a responsável por reformar e adaptar o prédio já existente ao projeto arquitetônico de Kengo Kuma, um dos mais premiados arquitetos japoneses, com coautoria do escritório paulistano FGMF. Ao lado de Kobayashi, os arquitetos visitaram a obra e conversaram com técnicos e jornalistas para explicar os detalhes da parceria.

Será a primeira obra de Kuma no Brasil, com orçamento total de US$ 30 milhões, investido pelo governo japonês. O primeiro-ministro Shinzo Abe lidera o projeto estratégico, financiado pelo Ministério de Relações Exteriores para servir de vitrine do Japão moderno para o ocidente. Apenas três cidades foram selecionadas para receber esses espaços: São Paulo, Los Angeles e Londres. A obra paulistana é a mais adiantada entre as três, que, juntas, devem chegar a US$ 104 milhões.

Antes da Japan House São Paulo, Kuma e Kobayashi já haviam trabalhado em parceria em outras ocasiões, como no Museu Suntory, em Tóquio, quando criaram uma parede translúcida. Embora tradicionalmente o washi seja usado em luminárias e na vedação de janelas e portas, na Japan House terá uma aplicação tridimensional inédita. Será combinado a treliças metálicas para compor o forro do teto e também painéis de correr que servirão de divisórias.

Em geral, o washi pode se aderir a tudo o que absorve água – basta molhar e esperar secar, sem necessidade do uso de cola. No caso do metal, porém, a técnica é diferente. Foi utilizada uma substância natural com viscosidade semelhante à do quiabo para ligar os dois elementos. No Japão, tal função é desempenhada pela raiz de um tipo de batata chamada tororo aoi. A equipe japonesa, porém, não pode trazê-la ao Brasil devido a restrições alfandegárias. Quando molhadas e misturadas à substância natural, as fibras de papel envolvem e se aderem à trama de aço. “Tudo o que existe na natureza se pode transformar em papel sem usar substancia química”, diz Kobayashi.

Nascido em 1954, em Kadoide, na província de Niigata, o artesão dedica-se há décadas a desenvolver usos para o papel de fibra longa. Em 1976, ele fundou a Associação Cooperativa do Papel Washi de Kadoide e, desde os anos 80, cria projetos para estimular trocas entre as áreas urbanas e as comunidades agrícolas, como forma de revitalizar a região e movimentar a economia, estagnada. Entre suas iniciativas, está a restauração e o reaproveitamento de casas de teto de palha, comuns na região, e a criação de rótulos de saquê feitos de washi para incentivar a geração de empregos.

Durante a visita a São Paulo, Kobayashi detalhou sua técnica vestindo uma peça que lembra um quimono. Entre uma explicação e outra, fez questão de dizer que a matéria-prima de sua roupa era o próprio washi. “Essa daqui eu utilizo há cinco anos e vai na máquina de lavar roupa normalmente, sem cera nem nada”, disse, sorrindo.

POR MARIANA BARROS FOTOS ROGERIO CASSIMIRO