The Bartlett, um braço da University College of London

Ela é conhecida apenas como Bartlett, mas não nos enganemos pelo nome curto. Na realidade, a escola se chama Faculdade do Ambiente Construído Bartlett, um braço da University College of London. Sob diversos critérios, esta instituição, localizada no centro de Londres, é ímpar. A começar pelo fato de estar dividida entre arquitetura, planejamento, construção, administração de projetos, planejamento de empreendimentos, design ambiental e controle energético. E a lista de diferentes disciplinas não para aí.

O corpo docente deixa claro o objetivo de ser uma escola, antes de tudo, interdisciplinar. Seus 300 membros têm distintas formações. São arquitetos, artistas plásticos, designers, cineastas, fotógrafos, historiadores e escritores. Entre eles, muitos nomes de grande relevância na produção arquitetônica contemporânea. Para ficar em apenas dois: Mario Carpo e Fréderic Migayrou.

Mario Carpo é autor de The alphabet and the algorithm (2011, MIT Press). No livro, ele aponta no trabalho do arquiteto renascentista Leon Battista Alberti o início do uso de algoritmos na arquitetura. Frédéric Migayrou, por sua vez, dirige a Bartlett e a divisão de design e arquitetura do Centro Pompidou, em Paris. Recentemente, foi curador de exposições sobre Frank Gehry, Bernard Tschumi e até da grande mostra sobre o Le Corbusier realizada no ano passado.

Frédéric aceitou a liderança da escola após Peter Cook, o fundador do Archigram, que ganhou fama internacional ao publicar desenhos sobre como seria a cidade do futuro, deixar esta função para se tornar professor emérito. A lista também é encorpada por professores visitantes, como Sir Nicholas Grimshaw e, interessantemente, o programador Robert Aish, figura central na revolução computacional na construção. Entre os professores honorários no passado estão os distintos lordes Richard Rogers e Norman Foster.

Intercâmbio de experiências
Há gerações de professores mais jovens que lecionam nas units, como são conhecidos os estúdios. Neste ano, a Unit 18, dirigida pelo brasileiro Ricardo de Ostos e pela alemã Nannette Jackowski, teve como área de estudo a cidade do Rio de Janeiro. Diz Ostos: “o intuito foi desenvolver um debate sobre materialidade política. Ou seja, como a arquitetura pode ser expressão pessoal e coletiva ao mesmo tempo por intermédio de forma, tempo e materiais”.

Ele gosta de pensar que sua unit está sempre um passo atrás das tecnologias mais avançadas, porém um salto à frente em aplicar as possibilidades técnicas de vanguarda na resolução de problemas urgentes. “Aplicação também é inovação”, diz. “Trabalhando diretamente com materiais como rochas, plásticos, metais e máquinas de corte CNC junto a técnicas mais tradicionais, os estudantes produzem ornamentos, protótipos e edifícios.” No entender de Ostos, “a Bartlett é uma ótima plataforma para explorar projetos na Europa e no mundo”.

Ao contrário da maioria dos britânicos, que votou a favor do isolacionismo via Brexit, a escola está de portas e olhos abertos para o mundo. Um em cada três alunos não é natural do Reino Unido. Na Bartlett, culturas heterogêneas se encontram, se misturam e se espalham. Neste ano, São Paulo e Rio de Janeiro receberam workshops organizados por professores e alunos da escola britânica. Em colaboração com grupos de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP), o Laboratório de Arquitetura Responsiva londrino propôs a um seleto grupo de participantes brasileiros questionar como o diálogo entre novos modos de desenhar e de fazer produz implicações na produção de nosso habitat e em nosso comportamento.

A escola está construindo um edifício temporário que abrigará uma tradicional missa na Irlanda, curando parte da Bienal Bi-City em Hong Kong e Shenzhen, na China, e organizando o simpósio Fabricate em Stuttgart, na Alemanha. A Bartlett, assim como o poeta inglês John Donne, sabe que nenhum homem é uma ilha.

Robótica voltada à arquitetura
Um dos motivos para a recente ampliação do espaço da Bartlett foi a criação do B-Made, o laboratório de fabricação da instituição. Após receber um investimento equivalente a mais de 6 milhões de reais, a escola tomou a dianteira na corrida da robótica. O crítico de arquitetura norte-americano Jeffrey Kipnis levantou a questão do descompasso entre cibernética e arquitetura. Isto é: embora em apenas 30 anos o computador tenha mudado completamente nossa maneira de fazer desenhos, a robótica desenvolvida no mesmo período ainda não produziu grandes transformações na arquitetura como disciplina.

A Bartlett quer ocupar esta lacuna na história e, para isso, tenta alçar seus alunos à vanguarda das pesquisas sobre o tema. É o que acontece na Unit 19, onde Manuel Jímenez García trabalha como tutor. Ele conta que seus alunos estão na vanguarda da pesquisa em robótica. Os projetos não são desenhados para que por fim se descubra como construí-los. Ocorre o oposto: os projetos são desenvolvidos a partir da exploração do controle de maquinário. A arquitetura, assim, se torna a coreografia de robôs e os resultados formais de tais movimentos.

Desenhar o futuro urbano
Na Bartlett, os problemas da cidade contemporânea – como a falta de contato entre pessoas e a escassez de postos de trabalho – são debatidos a partir da análise do espaço existente ou de propostas arquitetônicas, desde a escala do edifício até a compreensão do papel das metrópoles. Características formais desses lugares são analisadas, e o resultado é apresentado por meio de desenhos.

A escola integra o Innochain, uma rede de pesquisadores PhD e de empresas a fim de desenvolver as maneiras de desenhar e de construir do futuro. Os parceiros da escola nessas pesquisas são os escritórios de arquitetura Foster + Partners, ROK e BIG e de engenharia Buro Happold. Os temas estudados vão de como controlar robôs até novas maneiras de comunicar ideias arquitetônicas.

Uma novidade é o B-Pro. O nome é um acrônimo para Bartlett Prospective, com o intuito de produzir novas estratégias para arquitetura e desenho urbano. O programa é composto por quatro laboratórios dirigidos por nomes de peso da escola.

O primeiro deles se chama WonderLab. Ali, a pesquisa gira em torno das possibilidades estéticas do processamento de enormes quantidades de informações. O estúdio visa a utilizar técnicas computacionais para produzir admiração, espanto ou surpresa.

O segundo laboratório, BiotA, explora a fusão entre arquitetura, biologia e engenharia. Se o século XIX foi a época da física e o século XX foi caracterizado pela química, o estúdio propõe que o século atual seja marcado pela biologia. O programa estuda como ferramentas de desenho podem simular sistemas naturais para fazer emergir formas arquitetônicas capazes de se transformar com o tempo.

O Laboratório de Arquitetura Interativa é o terceiro a compor o B-Pro. A pesquisa gira em torno da relação entre objetos, ambientes e habitantes, sendo radicalmente transformada pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação.

O derradeiro, Urban Morphogenesis Lab, consiste no estudo dos modelos computacionais em escala urbana para lidar com a complexidade das metrópoles emergentes. A pesquisa investiga como produzir modelos urbanos a partir da inteligência coletiva inspirada em formigas, corais e outras formas naturais e orgânicas.

Cursos, estrutura e tradição
A Bartlett oferece cursos de duração variável para atender a diversos públicos. Os mais curtos são para quem deseja aperfeiçoar os conhecimentos no campo da arquitetura. Um deles é um Masterclass em que Peter Cook, arquiteto autor do estádio olímpico de Londres e fundador do Archigram, leciona. Durante duas semanas, um pequeno grupo de participantes desenvolve individualmente projetos para a capital inglesa. Parte do curso é uma conversa privada com o professor emérito sobre o percurso arquitetônico do aluno. Por fim, os projetos são apresentados para uma banca.

Dentro da University College of London, o ensino sempre foi secular – em contraste com as universidades Oxford e Cambridge, mais antigas e tradicionais e, portanto, ligadas a princípio com instituições religiosas ou à nobreza -, refletindo as ideias do filósofo liberal Jeremy Bentham (1748-1832). Ele é considerado o “pai espiritual” da universidade. Suas ideias liberais – como a aceitação de estudantes independentemente de raça, cultura, credo ou classe social – marcaram o início da London University em 1826, renomeada UCL uma década depois. Foi a primeira universidade no Reino Unido a abrir um curso de arquitetura, em 1841.

A escola esteve estruturada em diferentes edifícios até 1910, quando construiu a própria casa. Para tal, recebeu uma primordial doação do engenheiro civil Sir Herbert Bartlett, que por isso emprestou seu nome à instituição. Hoje, a escola ocupa oito prédios no centro de Londres e seu edifício principal está quase pronto para voltar à ativa, após uma milionária ampliação e reforma. O local, por sinal, serve de estímulo ao ambiente de ensino, pois abriga o Space Syntax, o grupo de pesquisa que se desdobrou em uma empresa e desenvolveu teorias e técnicas para explicar as implicações sociais do ambiente construído.

Enquanto muitas escolas pelo mundo têm sofrido uma ressaca da cultura digital, a Bartlett afirma que o próximo passo não é um resgate nostálgico, e sim pisar fundo no acelerador do desenvolvimento tecnológico, mantendo o olhar crítico e atento à sua vocação interdisciplinar. A escola tem reunido gente como o filósofo Graham Harman, o teórico cultural Benjamin Bratton e o designer industrial Ross Lovegrove para palestrar publicamente e discutir novas visões de mundo. São reflexos de uma instituição que busca manter sua tradição cosmopolita e tolerante enquanto impulsiona projetos ousados voltados a ampliar a visão arquitetônica do futuro.

VICTOR SARDENBERG é mestrando pela Stäedelschule Architecture Class e arquiteto e urbanista pela Universidade Mackenzie. É coautor do blog Arquiteturas Avançadas, no portal da revista AU, e arquiteto no escritório Franken Architekten. Lecionou workshops pelo mundo pela SAC, Architectural Association, UFRJ, UFMS, PUC-RJ e Unicamp e trabalhou como arquiteto no escritório SUBdV Architecture. Seu trabalho foca nas novas possibilidades estéticas trazidas pela computação ao âmbito arquitetônico e artístico