Teatro Oficina marca dissolução de limites entre ruína e transformação, entre atores e público e entre rua e palco

A COBERTURA RETRÁTIL DO TEATRO OFICINA

Pensar no Teatro Oficina é confrontar-se com seu duplo significado histórico, de permanência e transformação. É o ensinamento de que o passado avança no tempo na forma de ruínas e vestígios. Roma é um exemplo universal desta teoria. E o que vale para a Cidade Eterna, enquanto macroescala, vale para o Teatro Oficina, enquanto microescala. Das sucessivas construções, demolições e até incêndio, as paredes-limite de tijolos de barro à vista, da década de 1920 e lastreadas de arcos romanos, marcam a permanência sobre a qual se apoia o projeto, democraticamente conduzido por Lina Bo Bardi e Edson Elito durante reuniões ocorridas entre a rua Jaceguay e a Casa de Vidro.

O conceito de rua que fosse palco partiu de um vislumbre do diretor José Celso Martinez Corrêa. Já Edson Elito optou pela demolição de toda a construção remanescente intramuros. Coube à Lina Bo Bardi fazer o croqui da plateia elevada, com balcões sobrepostos, piso de madeira, estrutura e guarda-corpo de tubos de aço desmontáveis.

Edson Elito e Roberto Rochlitz então projetaram uma estrutura mista de concreto e aço, que atenderia a várias funções. Contrafortes de concreto armado, com blocos de coroamento à vista, interligados em subsolo, responderiam pela estabilidade das paredes-limite. A estrutura de aço laminado seria composta de perfis ‘H’ e tubulares de perfis soldados, com fundação independente. Ela responderia pela estabilidade das paredes-limite, por meio de conectores soldados aos perfis de aço e chumbados ou aparafusados às cintas de concreto das mesmas paredes-limite. Também resolveria a estabilidade da estrutura de aço desmontável dos balcões, mediante transpasse dos tubos pelo vão entre duplas vigas de aço periféricas, bem como às cargas de coberturas e mezaninos. Todas as instalações elétricas e hidráulicas, bem como o urdimento, foram mantidas aparentes.

A cobertura retrátil é composta por telhas de aço tipo sanduíche e domos de acrílico sobre arcos treliçados contraventados, atingindo pé-direito de 13 m. À iluminação zenital soma-se a iluminação natural de vidro temperado na face Noroeste da rua-palco.

Do ponto de vista da concepção teatral, o Oficina elimina quaisquer barreiras físicas ou imaginárias entre atores e público. É este o conceito central do Te-Ato de Zé Celso, que o diferencia radicalmente do teatro clássico, do cinema e da televisão, nos quais o espectador é passivo. No nível térreo, projetou-se a rua-palco, com trecho em desnível de 3 m paralela aos balcões da plateia e com porão e alçapão para o percurso dos atores. A rua-palco, associada à plateia-balcão caracterizam um espetáculo em movimento e remetem ao carnaval mais tradicional de cidades do interior, onde o desfile pode ser visto das janelas e dos terraços ou mesmo das calçadas.

Em síntese, a materialidade do Teatro Oficina cumpre um paradoxo: atinge nosso imaginário que, por seu caráter imaterial, abriga simultaneamente diferentes camadas de tempo. É a representação do duplo caráter de ruína e transformação – estas, sim, alternadas no espaço e ao longo da história.

Na História em detalhe da AU 267, é citado que o projeto da Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo, de Roberto José Goulart Tibau e Elito Arquitetos Associados, recebeu o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, porém apenas participou do certame em 2009. Vale acrescentar que também participaram do projeto os arquitetos Marcos Cartum e André Pavão e a estagiária Carla Guimarães, pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA).

EDITE GALOTE CARRANZA é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004, doutora pela FAUUSP em 2013 com a tese Arquitetura alternativa: 1956-1979; diretora da editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura+arte ISSN 1808-1142; professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu

RICARDO CARRANZA é mestre pela FAUUSP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor e professor da Universidade Paulista, professor coautor do programa de pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu