UNA Arquitetos projeta Huma Klabin, edifício residencial de relação franca com a urbe, em São Paulo

Há mais de meio século, a relação entre a escola paulista de arquitetura e o mercado imobiliário paulistano é restrita a casos pontuais. A boa arquitetura teve seu momento áureo na construção de edifícios residenciais nos anos de 1950, estendendo-se um pouco para as décadas adjacentes, com muitos exemplares no bairro de Higienópolis. Porém, após 1969, quando foi concluído o edifício da FAUUSP na Cidade Universitária, a quantidade de torres de moradia construídas na malha urbana da capital paulista, que seguem os preceitos da geração intelectualmente fundada por João Vilanova Artigas, não é maior que os dedos nas duas mãos.

Há uma miríade de justificativas e versões que não cabe aqui analisar: políticas, ideológicas, econômicas, de posturas com relação às esferas pública e privada, de círculos de relações. Cabe sim perceber que a metrópole foi apinhada por edifícios sem interesse arquitetônico, carimbos repetidos aos milhares seguindo motivações exclusivamente imobiliárias e financeiras.

Recentemente surgiram incorporadoras fazendo encomendas de edifícios residenciais e comerciais para a talentosa nova geração da arquitetura paulistana. A Vila Madalena é o bairro onde mais se nota o aparecimento desses projetos de inegável interesse, mas por vezes ainda projetados com a intenção fundante de se fazer notar no primeiro passar de olhos.

É nessa conjuntura que emerge o edifício Huma Klabin, do UNA Arquitetos. Fernando Viégas, um dos titulares do quarteto que compõe o escritório, foi direto ao ponto: “Dentro da tradição da arquitetura paulista, há quanto tempo não se construía um edifício de concreto aparente? Não pelo fato de ser de concreto, mas por ser a construção ela mesma”. É justamente isso que distingue o Huma Klabin da celebrada leva de prédios feitos por bons arquitetos e respeitáveis incorporadoras dos últimos dez anos: estrutura, acabamento, volumetria e expressão nascem da qualidade técnica e da racionalidade dos sistemas construtivos associados.

Mesmo em um contexto e época profícuos em boa arquitetura residencial, o Huma Klabin expressa verdadeiramente sua estrutura, seu material, seu modo de construção, alinhando-se sem tergiversações e com hoje rara honestidade aos cânones transmitidos no salão caramelo e nos corredores da FAUUSP. Este é o primeiro aspecto que justifica a excepcionalidade e a relevância do edifício.

Mas a equipe do UNA não teve pressupostos especiais e facilitadores. O projeto trabalha com as regras do mercado imobiliário, lidando com os números de apartamentos, área construída, área de cada unidade, valores de custo e de venda. Os cálculos para viabilização econômica existem tal como se demanda a qualquer outro edifício da iniciativa privada. A excepcionalidade do projeto não é resultante de prerrogativas diferenciadas. Opera-se com as regras dadas pelo poder público, pelos agentes privados do mercado, pela cidade.

A relação franca com a urbe permeia cada ambiente construído. A rua em que está é uma via pacata e fundamentalmente residencial do bairro da Vila Mariana; e em um ponto alto: observa-se ao longe a várzea do rio Tamanduateí, próxima ao riacho do Ipiranga e o parque da Independência; por outro lado, em sequência, o Parque da Aclimação, o Banespão (edifício Altino Arantes) e a Serra da Cantareira delineando o horizonte. Mais próximo há edifícios, casas, antigas vilas, comércio pequeno mas numeroso da avenida Lins de Vasconcelos, por onde também passam linhas de ônibus – uma vida de bairro aceita pela arquitetura do Huma Klabin.

No prédio projetado pelo UNA, desde o momento em que se abre a porta do apartamento e se espera o elevador, o morador está num corredor aberto, podendo sentir o passar do vento, escutar os sons da vida citadina e olhar desimpedidamente para a cidade nas duas extremidades do corredor. Semelhante situação pode se descrever do térreo elevado – o pavimento das atividades coletivas -, que se posiciona na cota das copas das árvores da rua.

Porém, a primeira singela generosidade urbana é o recuo da frente do edifício, incorporado ao espaço público. Ali foi feito um pequeno jardim com um banco no qual qualquer transeunte pode sentar: não há grades, não há restrições. A face frontal do prédio é um grande plano de concreto que se observa desde a cobertura, a descer sem fenestrações até o embasamento – ali, com uma abertura única, um recorte no plano de concreto ocupado por uma caixilharia metálica pintada de grafite composta por dois planos formando um “V”; neles estão o portão da garagem, a guarita para porteiro e a porta do pedestre.

Aproveitando a declividade da rua, o embasamento opera (pela legislação) como o primeiro “subsolo” dos dois que abrigam os estacionamentos para bicicletas e 63 carros. Tal embasamento ocupa praticamente todo o perímetro do lote, tendo estreitos afastamentos para a ventilação da garagem.

O primeiro recinto que o pedestre adentra após passar a fachada é um pequeno pátio seco a céu aberto: passa-se a porta metálica escura e têm-se dois planos de concreto aparente, a escada e, ao fundo, um hall de entrada com pé-direito duplo e mobiliário de área de jogos, tendo por trás um grande plano de vidro (voltado para a rampa de descida à garagem inferior), que concede transparência entre essa sala e a cidade, porém de modo diagonal e resguardado.

Ao subir os degraus da escada do pequeno pátio, permanecemos ao ar livre, e chegamos ao térreo elevado. Este é o pavimento dos espaços coletivos: sala de festas, sala de ginástica, sauna, lavanderia coletiva. A integração desses espaços em grande medida se deve aos poucos pilares de sessão circular que (conjuntamente com a parede linear de instalações) recebem as cargas estruturais do edifício, permitindo a fluidez entre os ambientes e os espaços externos.

Ao fundo do térreo elevado, sobe-se outra escadaria para atingir o solário e a piscina. O deck de madeira estende-se em uma passarela que conecta ao primeiro andar de apartamentos, que compartilham a mesma cota da piscina.

O esbelto prédio também tem sua morfologia diretamente resultante da forma da cidade, mais especificamente, da volumetria da vizinhança. Estando o lote envolto por altos edifícios, os arquitetos identificaram os recuos e as frestas por entre os prédios vizinhos. Assim, posicionaram as aberturas dos apartamentos para esses consolidados vazios. Cada unidade habitacional ganhou insolação, aeração e uma vista ampla e desimpedida para a paisagem urbana. Em conjunto, o resultado são apartamentos voltados para todos os lados. “Ficou com um prédio sem frente ou fundos”, nas palavras de Fernando.

A análise da planta do pavimento- -tipo demonstra cada andar com cinco apartamentos organizados em dois blocos, entremeados pelo corredor linear. Este ambiente de passagem distingue-se pelo piso de azulejo hidráulico – o mesmo pavimento da Casa Gerassi, em um elogio ao mestre Paulo Mendes da Rocha -, pelas placas em vibrante cor amarela que escondem os shafts de passagem das instalações, e pelo delicado projeto gráfico de João Nitsche. Um dos blocos contém, por andar, três apartamentos de um dormitório, cada um com 44 m². A estrutura permite a reunião de duas ou das três unidades residenciais contíguas.

O outro bloco tem, em cada pavimento, um apartamento de dois quartos, com 67 m², um apartamento de um dormitório, com 44 m², e também abriga a caixa de escada de incêndio e os dois elevadores.

As coberturas são dúplex, usufruindo de terraço descoberto e deck de madeira, acessíveis por escadas helicoidais nas varandas ou por escadas lineares de concreto acima do eixo dos corredores de acesso, dependendo da unidade. São quatro coberturas de apartamentos com 87 m² de área privativa e uma cobertura com 124 m² de área privativa. Há de se notar que um dos blocos tem 12 pavimentos, enquanto o outro contém um andar a menos – a motivação foi não transformar a área de máquinas dos elevadores e a caixa d’água em uma volumetria estranha acima do prédio.

Nos 52 apartamentos do Huma Klabin, as varandas vêm com esquadrias de alumínio com anodização em inox, guarda-corpos metálicos pintados em grafite escuro e cortina rolô externa, operável com um sistema automatizado. Essa tela protege de fortes incidências de sol em determinados períodos do dia, do vento excessivo e de intempéries. Provê uma certa privacidade ao interior do apartamento, ao mesmo tempo em que o tecido mantém um grau de passagem visual para a visualização da imagem diáfana da paisagem urbana para quem permanece no espaço íntimo. Igualmente importante é comentar sobre essas cortinas no conjunto do edifício, pois geram um jogo de variabilidade e unidade: impedem soluções diferentes de cada proprietário que queira fechar sua varanda, resultando num aspecto uniforme – ainda que os desejos cotidianos levem a graus de clausura e de abertura constantemente diferentes e mutáveis.

A intenção de projeto é de um edifício que “se coloca na paisagem como regra e não exceção”, declarou Fernando Viégas. Sua exemplaridade é inegável, mas somente os próximos anos nos indicarão se o Huma Klabin terá um grau de influência como regra para além daquela área na Vila Mariana. Fato é que se atesta a possibilidade de fazer boa arquitetura lidando com as regras do mercado imobiliário.

THE BUILDING, THE MARKET AND THE CITY
In Huma Klabin, structure, finishing, volumetrics and expression are born from the technical quality and rationality of the associated constructive systems. “Within the São Paulo City architectural tradition, how long has it been since a building was constructed in exposed concrete? Not by the fact of being concrete, but for being the construction itself,” questions Fernando Viégas, one of the four partners who compose the UNA Arquitetos office, responsible for the design of this residential building in São Paulo. The frank relationship with the urban city permeates each constructed environment. From the moment of opening the apartment door to wait for the elevator, the dweller standing in an open corridor is able to feel the wind blowing, hear the sounds of city life, and look uninhibitedly out on the city at the two ends of the corridor. A similar situation may be used to describe the elevated ground floor – the collective activities floor -, which is positioned at the tops of trees rising from the street. The first simple urban generosity is the front setback of the building, incorporated to the public space. There, a little garden was made with a bench on which any passer-by may sit: there are no bars, there are no restrictions. The morphology of the slender building also directly results from the form of the city, more specifically, from the volumetrics of the neighborhood. On being a lot encircled by tall building constructions, the architects identified the setbacks and the gaps in between the neighboring buildings. Thus, they positioned the openings of the apartments towards these consolidated empty spaces. Each residential unit gained sunlight, fresh air and a wide, uninhibited view to the urban scenery. All in all, the result is apartments that face out on all sides. “It became a building without a front or a back,” in Fernando’s words.

POR FRANCESCO PERROTTA-BOSCH FOTOS NELSON KON