Olimpíada 2016: Arena da Juventude e Centro de Hóquei, por Vigliecca & Associados

Meio templo, meio hangar. Assim, a Arena da Juventude remete, concomitantemente, ao classicismo e à indústria. Externamente, a configuração assemelha-se à de um templo grego: uma sequência de delgadas colunas metálicas circunda a área fechada do ginásio, conformando um peristilo contemporâneo. Entretanto, no seu comedimento de elementos, é possível associar o novo equipamento olímpico a um grande galpão, constituído por elementos industriais pré-fabricados, alguns deles encontráveis em catálogos de materiais de construção, e que, por fim, resultaram em uma obra de rápida montagem e execução.

Distante do epicentro do megaevento global de agosto próximo (o Parque Olímpico da Barra da Tijuca) e sem alarde na cobertura da imprensa acerca da preparação dos Jogos, há algo de surpreendente ao avistar a Arena da Juventude às margens da avenida Brasil carioca. Para quem passa de carro, o elegante e austero edifício é um prenúncio de transformações da pouco cuidada zona Oeste do Rio. Com projeto do escritório Vigliecca & Associados, a Arena está na parte central do Parque Olímpico de Deodoro, que também conta com o Parque Radical e com os Centros Olímpicos de Hipismo e de Tiro Esportivo.

MÚLTIPLOS MODOS DE USAR
Com distintos graus de transformação, a tônica nos equipamentos olímpicos é projetar duas configurações arquitetônicas: a primeira para a Olimpíada, a segunda para o legado. No caso da Arena da Juventude, tal diretriz estratégica proveniente dos órgãos governamentais e do Comitê Olímpico é potencializada, pois haverá dois arranjos espaciais ao longo das duas semanas dos Jogos Olímpicos.

Na primeira semana do evento, o ginásio sediará a primeira fase dos jogos de basquete feminino, que demanda uma quadra de 28 m por 15 m, a qual será envolvida por quatro lados de arquibancadas (três provisórias e uma fixa) que permitirão um público de 5 mil pessoas. Na semana final da Olimpíada, o edifício abrigará a competição de esgrima, inserida no programa do Pentatlo Moderno: a área de competição necessária é muito mais comprida, requerendo a permanência das duas arquibancadas longitudinais (uma provisória e uma fixa) com 4 mil cadeiras. Esta configuração permanecerá até o fim da Paralimpíada para a disputa da Esgrima em Cadeira de Rodas. Terminadas as competições, a Arena passa a ser um centro de formação e treinamento de atletas ligado ao Exército Brasileiro – proprietário do terreno e que já usa outras instalações de Deodoro para esta finalidade -, com sete quadras poliesportivas e 2 mil lugares na arquibancada fixa que ocupa uma das laterais.

Se, por um lado, a mutabilidade da Arena da Juventude pode ser observada nas suas diferentes configurações espaciais, por outro também se modifica a solução de conforto ambiental interno. Durante a Olimpíada, é obrigatório o uso de ar- -condicionado e iluminação artificial, cujo rigoroso controle de medição atende aos padrões da transmissão televisiva mundial. Contudo, os altíssimos custos de manutenção de equipamentos de refrigeração e luz não são justificáveis para o futuro uso cotidiano. Por isso, o escritório fundado pelo arquiteto uruguaio Héctor Vigliecca planejou o edifício com ventilação natural cruzada: as duas fachadas laterais contêm uma miríade de painéis pivotantes compostos por armação metálica e telha metálica termoacústica tipo sanduíche. O sistema de ventilação de ar completa-se com os lanternins na cobertura, operando tanto para exaustão do ar quente quanto para entrada de iluminação natural.

Tal esquema de conforto ambiental natural efetiva-se somente com a expansão da laje metálica plana de cobertura para além do perímetro da área do ginásio. Isto é, a justificativa técnica para o peristilo é o impedimento da incidência direta dos inclementes raios solares de Deodoro sobre as fachadas, mitigando o aquecimento do interior.

Nota-se também que as áreas sombreadas no piso equivalem à circulação dos usuários, sendo que as duas laterais são compostas por rampas cuja ampla largura torna o ato da entrada na Arena em uma experiência mais cerimoniosa: o chão ascendendo tenuemente, tendo, de um lado, a arquitetura e a expectativa pelo embate esportivo que se presenciará, e, do outro lado, admira-se a paisagem de baixada circundada, ao longe, por vistosos maciços e serras. Além de encaminhar o público às arquibancadas, tal inclinação sutilmente separa os fluxos, deixando o térreo da parte posterior da Arena (chamado back of house) para uso exclusivo dos atletas, imprensa, pessoal de apoio, organização e transmissão dos Jogos Olímpicos.

MÚLTIPLAS PRÁTICAS ESPORTIVAS
Na frente da Arena da Juventude está a grande praça de acesso, que é a área de domínio comum dos diversos equipamentos olímpicos adjacentes: Estádio de Deodoro, Centro Aquático de Deodoro e Centro Olímpico de Hóquei sobre Grama. Em virtude de seu caráter articulador, tal espaço central e aberto terá especial papel no dia de disputa do Pentatlo Moderno. Um dos mais antigos esportes a compor a Olimpíada, esta competição é composta por cinco modalidades: esgrima (Arena da Juventude), natação (Centro Aquático), hipismo e o evento combinado com tiro esportivo e corrida (Estádio).

O Estádio de Deodoro é uma estrutura totalmente temporária, a qual também abrigará o Rúgbi na Olimpíada e o Futebol de Sete na Paralimpíada. Findas as competições, as arquibancadas serão desmontadas e a área retornará a ser um grande gramado para o jogo de polo. A mesma lógica de estrutura efêmera destinada ao público espectador acontece no Centro Aquático de Deodoro.

Separada da Arena da Juventude por um pequeno rio, a outra estrutura permanente deste trecho do Complexo de Deodoro é o Centro de Hóquei sobre Grama. É composto por dois campos de jogo (91,4 m x 55 m), um campo de aquecimento (metade do campo principal, ou seja, 45,7 m x 55 m) e um edifício pavilhonar longilíneo, o qual faz a conexão coberta entre as três canchas e abriga os vestiários, centro médico, salas de apoio e administrativas.

O terreno de perímetro irregular gera vários espaços intermediários que, para a Olimpíada, serão asfaltados para o uso de equipes da organização e da transmissão pela imprensa; após o evento, uma parcela considerável desse asfaltamento será retirada para restituir grande parte do espaço de mata ciliar do rio adjacente.

A única arquibancada permanente sobressai-se como frente principal em virtude dos 20 conjuntos de apoio estrutural compostos, cada qual, por três fustes metálicos dispostos na diagonal, de modo a se entrecruzarem. Isto é, esse conjunto de três sustentáculos opera como um único pilar receptor de carga estrutural. O resultado visual é a pulverização de pontos de apoio sob o plano de concreto. Contudo, cabe ressaltar que tal proliferação estrutural não se converte em um aglomerado randômico, mas origina conjuntos equilibrados de formas geométricas piramidais perceptíveis pelas “arestas verticais”, quer dizer, pelas hastes metálicas.

Nos intermezzos desses pontos estruturais, encontram-se as quatro escadas de acesso aos 2,5 mil assentos permanentes e os quatro quiosques metálicos – cada um com sanitários e uma pequena venda – que se atracam sob os fundos da arquibancada. Esse primeiro campo de hóquei é também circundado por outras três arquibancadas provisórias com 5,3 mil cadeiras, totalizando um público de 7,8 mil pessoas.

O segundo campo de hóquei não tem estrutura permanente para o público, mas sim 4,1 mil assentos provisórios para o período olímpico. Sempre posicionados no sentido Norte-Sul para atender à correta orientação solar, cada campo de hóquei tem seu piso composto por uma sobreposição de estratos materiais: de baixo para cima, superpõem- -se duas distintas camadas de asfalto com 35 mm de espessura, uma manta de borracha amortecedora de impactos denominada shock-pad, e a grama sintética de cor azul royal, seguindo a padronização do hóquei. Esta descrição do pavimento de jogo revela um pouco da precisão e apuro das exigências técnicas dos comitês mundiais de cada esporte, as quais passam a ser parte fundamental do projeto arquitetônico.

POR FRANCESCO PERROTTA-BOSCH FOTOS LEONARDO FINOTTI