Debate: vidros para fachadas

O empreendimento comercial Teoemp, localizado no Largo da Batata, em São Paulo, possui uma fachada curva com vários tipos de vidros em sua composição. Entre eles estão os vidros low-e de cor prata, modelos extraclear, de tons mais claros, e cinza azulados, combinados com shadow-box de ACM em alguns pontos para melhorar o controle térmico no interior da edificação. A laje em “L” é protegida por uma pele curva que forma um átrio central.

A escolha pela utilização de vidros em fachadas de edifícios está amparada em uma série de justificativas: melhor apreciação da vista e da interação entre o espaço interno e externo, maior incidência de luz natural no interior da edificação e até minimização dos processos executivos em obra, incluindo a fácil manutenção das peles de vidro depois de instaladas. Por essas e outras, o material está cada vez mais presente nas fachadas de diversas edificações.

Mas não são apenas esses aspectos que devem amparar a escolha da melhor solução para o projeto das fachadas. Ao optar pelo vidro, o projetista deve levar em conta todo um leque de especificações visando ao melhor desempenho dos fechamentos externos.

Num país tropical como o Brasil, o calor é um dos artifícios que requer atenção de arquitetos e paisagistas, e uma espécie de inimigo para um material como o vidro, que possui deficiências quanto às questões térmicas. “Antigamente se pensava em conforto térmico fazendo reflexão, mas isso deixava perceptível todas as imperfeições do vidro, além de espelhar todo o calor para alguém”, pontua o arquiteto Sérgio Conde Caldas.

Hoje em dia, os avanços tecnológicos na produção dos vidros para revestimento têm assegurado mais desempenho aos projetos. Segundo o arquiteto e proprietário da Ca2 Consultores Ambientais Associados, Marcelo Nudel, atualmente é possível encontrar uma gama de tecnologias de conforto solar que permite aos arquitetos uma escolha ampla de cores, de níveis de refletividade interna e externa e de níveis de transparência.

Um dos exemplos mais conhecidos de vidros de alto desempenho são os que possuem a tecnologia low-e, que reduz o ganho de carga térmica e proporciona transparência e baixos níveis de refletividade. Outro modelo é o chamado vidro duplo ou vidro insulado que pode oferecer isolamento térmico e acústico. “Na Austrália, por exemplo, esses vidros já são muito utilizados principalmente pela grande variação de temperatura no continente em que o país está localizado”, exemplifica Marcelo.

O desempenho está ligado aos custos, e se um é alto, o outro também será. O vidro insulado, por exemplo, tem um sobrecusto se comparado ao laminado, mas Marcelo explica que altos investimentos valem a pena em médio prazo, principalmente se o proprietário do edifício vai ocupá-lo. “Nesse caso, o investimento inicial se paga com o tempo: será consumida menos energia e haverá influência de forma indireta na produtividade das pessoas que estão eventualmente trabalhando, tratando-se de um edifício comercial.” É importante lembrar que a fachada representa uma porcentagem do total de custo de obra, e o vidro representa uma porcentagem do total do custo da fachada.

COMBINAÇÕES POSSÍVEIS
Além dos materiais de alto desempenho, os arquitetos lembram que também é possível combinar os vidros com outros materiais, criando sombreamentos e, consequentemente, melhorando o desempenho térmico das fachadas. Um exemplo é a combinação de vidros com brises, que, de acordo com Sérgio, valorizam ainda mais as fachadas e amenizam o calor produzido pelo sol da tarde.

Além dos brises, outros materiais também têm sido cada vez mais combinados com os vidros em fachadas, como o granito, o ACM, o porcelanato, laminados arquitetônicos, cristalados, entre outros. “Esses materiais podem ser inseridos em um único sistema de fachada e entregues na obra praticamente acabados, restando apenas o processo de montagem”, explica Crescêncio Petrucci Júnior, da Crescêncio Petrucci Consultoria e Engenharia. Ainda de acordo com Marcelo Nudel, essas novidades acompanharam a realidade dos greenbuildings e as certificações ambientais.

ESPECIFICAÇÃO
Na hora de especificar a melhor solução, Marcelo explica que é preciso considerar qual a melhor combinação que se consegue dentro do vidro oferecido no mercado e dentro do orçamento pretendido pela obra, que combinem um controle solar adequado para eficiência energética e conforto térmico. “Os fatores principais são o desempenho térmico, o fator solar e quantidade de calor que vai entrar, a transmitância luminosa e a refletividade interna e externa, que podem afetar questões de conforto visual interno e o entorno”, pontua.

Para entender se o vidro está cumprindo com tais requisitos, são feitas simulações computacionais de energia, de conforto térmico e de luz natural. Esse processo indica qual é a melhor composição das várias opções de sistemas a serem adotados na obra, tais como ar-condicionado, iluminação, eficiência da fachada, entre outros.

Muitas vezes existem conflitos entre desejo estético para o projeto e as questões técnicas envolvidas na escolha do vidro, conforme relata Crescêncio. “Um exemplo claro é que muitos arquitetos desejam vidros com alta transparência, porém fatores que condicionam o desempenho em relação ao controle térmico e ofuscamento dos ocupantes não podem ser desprezados na escolha do vidro e essas características muitas vezes são antagônicas.”

Contratar uma consultoria especializada em desempenho de fachadas auxilia tanto na especificação do vidro quanto de sua estrutura.

FICHA TÉCNICA

LOCAL São Paulo
ÁREA CONSTRUÍDA 27.126,00 m²
CONCLUSÃO DA OBRA 2015
ARQUITETURA Aflalo/Gasperini Arquitetos
FACHADAS Arqmate (consultor) e Algrad (montagem)
VIDROS Glassec e Viracon
REVESTIMENTOS DE AÇO CORTÉN Plasmont
PERFIS DE ALUMÍNIO Kawneer (Alcoa)
PERFIS METÁLICOS Metalúrgica Bassano (fabricação e montagem)
ACM Algrad

DEBATE
Evolução constante
Indústria brasileira continua investindo em vidros de alta qualidade

Fotos: Marcelo Scandaroli
1. LAMARTINY GOMES, gerente de produtos do segmento comercial da Guardian 2. CLAUDIA MITNE, diretora de marketing e produtos da Glassec Viracon 3. MÁRCIO MARCON TAKARA, gerente técnico comercial da Brazilglass 4. NILSON ANTÔNIO RAMALHO, gerente comercial da Brazilglass 5. REMY DUFRAYER, gerente de desenvolvimento de mercado da Cebrace 6. LEANDRO GONÇALVES, gerente de projetos da Divinal 7. LUIZ EDUARDO CASTRO, gerente regional de vendas da AGC 8. CARLOS DE ALMEIDA, diretor da Ativa Aluminium 9. CARLOS ALBERTO GARCIA, coordenador e especialista em materiais da Aflalo/ Gasperini Arquitetos 10. MARCOS ALFREDO MENDES ALDRIGHI, arquiteto e sócio do Piratininga Arquitetos Associados 11. CAIO DOTTO, sócio titular do Mindlin Loeb + Dotto Arquitetura 12. SILVIO RICARDO BUENO DE CARVALO, gerente técnico da Abravidro (Associação Brasileira de Distribuidores e Processadores de Vidros Planos) 13. MARCELO DE MELLO AQUILINO, pesquisador do Laboratório de Conforto Ambiental e Sustentabilidade dos Edifícios do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT)

Como está o acesso a novas tecnologias para a aplicação de vidro em fachadas? 
REMY DUFRAYER Nos últimos cinco anos a tecnologia evoluiu bastante. Saímos de vidros convencionais, que são os de proteção solar, para os vidros mais modernos, os seletivos, também chamados low-e, que normalmente permitem mais entrada de luz e menos neutralidade. Em função do cenário da construção civil atual, esses produtos acabaram perdendo um pouco do seu nicho para soluções convencionais e mais baratas, que não devem na questão de performance, mas esteticamente trazem uma linguagem totalmente diferente. 
NILSON RAMALHO Estamos vivendo o momento das fachadas unitizadas, e hoje todas as empresas de alumínio auxiliam para agilizar e ter uma distribuição mais rápida. Hoje o vidro já sai da fábrica pronto para ser instalado. 
LAMARTINY GOMES Mas a especificação do produto se perde no elo arquiteto/ construtor. Muitas vezes, em obras de todos os portes, nas regiões Sul e Sudeste, o arquiteto especifica uma bela solução, e na hora da compra isso é ignorado. O pessoal faz o orçamento e depois devolve a especificação para o arquiteto fazer algo mais simples. 
CLAUDIA MITNE A indústria investiu muito nos últimos anos: a tecnologia e as normatizações foram muito desenvolvidas. Os processadores têm grande preocupação em conseguir dimensões de vidros grandes e produtos diferentes que vão garantir o que o arquiteto deseja quanto ao aspecto. Temos que nos adaptar ao momento econômico do Brasil e isso não significa que vamos perder a qualidade. 
SILVIO CARVALHO Existem produtos de alta tecnologia para serem aplicados às diversas exigências que os projetos têm cobrado das indústrias. Os processadores estão muito bem equipados, investiram em um momento em que a demanda havia aumento. Hoje, infelizmente, a situação não é a mesma, mas toda a indústria está preparada para colocar produtos de qualidade na construção. Nós contamos com escritórios que têm utilizado cada vez mais vidros nas novas edificações. As próprias indústrias têm especialistas em algumas regiões pra auxiliar arquitetos e engenheiros que não tiveram acesso a informações sobre determinados produtos, para fazerem a especificação adequada e conseguirem o maior benefício que o vidro tem a oferecer, dentro do limite econômico que temos vivido.
MARCELO AQUILINO Não se pensa somente em material, temos que pensar também no desempenho do edifício. Você pode trabalhar com o melhor vidro do mundo, mas ele tem que te dar um desempenho estrutural, térmico, acústico, lumínico e de durabilidade. No entanto, falta esse conhecimento principalmente para quem está projetando. Os cursos de arquitetura são pouco embasados na questão do conforto, tampouco de desempenho.
CARLOS DE ALMEIDA Falta comunicação mais aprofundada entre os setores, já que o vidro é a melhor plástica de um edifício. O ACM veio para cumprir algumas metas, mas ele se perdeu na oportunidade que já teve por conta de limpeza, por exemplo. Já o vidro continua, e com uma relação forte com o alumínio.

Como fica o desempenho do edifício que utilizou um vidro de alta performance no projeto e precisa ter os custos da obra readequados?
MARCOS ALDRIGHI
 Estamos em um país em que planejamento e projeto não se adaptam muito bem. Por várias vezes, as especificações da obra são alteradas sem justificativas. Hoje nos falta engenharia. 
MÁRCIO TAKARA Muitas construtoras grandes querem diminuir o custo de administração no controle de recebimento de vidro e estocagem e está passando isso para um serralheiro, então eles não estão comprando os vidros incolores, por exemplo, que são para obras residenciais. O que acontece: eles não estão comprando de empresa de transformação de vidro, mas estão comprando vidro em chapa, que nem é lapidado, muitas vezes. Já vi acidentes ocorrerem na obra, e depois nos chamam para ajudá-los a descobrir o porquê do acontecido.

A indústria nacional supre bem a demanda dos projetos nacionais ou às vezes é preciso importar?
CLAUDIA
 Nós entendemos que o mercado nacional atende à demanda com produtos similares aos que têm lá fora. 
NILSON Por ser de porte médio, em nossa empresa não entra praticamente nada importado.

O Brasil também exporta tecnologia?
REMY
 Existem produtos desenvolvidos no Brasil que não foram desenvolvidos em outros lugares no mundo. Dificilmente se exporta, porque o grande mercado consumidor não necessariamente tem o mesmo clima que o Brasil tem. Mas existem soluções que foram feitas no País já no passado ou recentemente, que poderiam ser utilizadas em qualquer lugar.

Como funciona a relação entre arquitetos e projetistas na hora de projetar? É importante contar com uma consultoria na hora de especificar?
CARLOS ALBERTO GARCIA
 O consultor equaliza, direciona e coloca em ordem as propostas. Todas as consultorias direcionadas ao vidro com quem trabalho possuem um caderno com as dimensões do vidro, espessuras etc. Todos os vidros são especificados. Com as consultorias, o trabalho do arquiteto fica fácil. 
CAIO DOTTO A divulgação, a comunicação entre as partes e a multidisciplinaridade da nossa profissão (arquitetura) são extremamente importantes. O ideal seria que tivéssemos uma situação em que sentássemos numa mesa para projetar com os engenheiros, com os nossos fornecedores e com quem vai construir. 
LEANDRO GONÇALVES Uma sugestão é fazer fóruns, principalmente com os escritórios de arquitetura. Nós sabemos que a realidade das pequenas e médias construtoras permitem que, muitas vezes, recebamos planilhas orçamentárias, cujos conteúdos não são conhecidos por quem te passou os valores. Muitas vezes o dimensionamento dos painéis da fachada vai dar um péssimo aproveitamento e quem projetou nem pensou nisso.
MARCELO A consultoria é fundamental e os produtores precisam ter seus produtos e soluções devidamente laudadas. 
CARLOS DE ALMEIDA A consultoria ajuda a equilibrar o bate-papo com o arquiteto e/ou com o construtor. O arquiteto tem um papel extremamente importante, e no meio do caminho, a consultoria transforma isso em valores.

As especificações de vidros em fachadas em residências têm aumentado?
LUIZ EDUARDO CASTRO
 Há um aumento grande, principalmente para as residências de alto padrão. Em prédios com fachadas que não precisam tanta reflexão, por exemplo, tem se usado vidros de baixa refletividade e bastante neutros.
REMY O produto de proteção solar que é utilizado em fachadas de edifícios comerciais tem migrado também para os residenciais, ou seja, o conforto utilizado com o vidro de proteção solar num ambiente corporativo tem a mesma performance num ambiente residencial. 
MARCELO Nos residenciais existe uma variedade grande de vidros, e nesse tipo de edificação, o peso maior é no fator acústico.

TECNOLOGIA & MATERIAIS
Vidros para fachadas

Divulgação: Guardian BrasilCONTROLE SOLAR
Produzida com a tecnologia True Color, a linha SunGuard foi incorporada com os modelos de novos vidros de controle solar: Neutral (indicado para casas e prédios residenciais), Blue (vidro azul) e Chrome (prata por fora e neutro por dentro). Os produtos estão disponíveis nas espessuras 3 mm, 4 mm, 6 mm, 8 mm e 10 mm, e nas dimensões de 2.200 mm ou 2.400 x 3.210 mm (ou de até 2.600 x 3.600 mm sob consulta).
W www.guardianbrasil.com.br

Divulgação: CebraceCONTROLE SOLAR 
A família de vidros Cool Lite é dividida nas linhas SK, K e S, que oferecem variedade de cores e espessuras, além de garantir controle térmico em projetos comerciais como shoppings, hotéis e edifícios. Indicados para fachadas e coberturas, esses vidros têm a função de filtrar os raios solares de forma seletiva, controlando a entrada de luz e calor nos ambientes.
W www.cebrace.com.br

Divulgação: AGC do BrasilVIDRO LOW-E 
O Sunergy, da AGC do Brasil, é um vidro refletivo com aparência neutra, de baixa reflexão. Está disponível em duas versões: monolítica, com 4 mm de espessura, e laminada, com 8 mm, nas cores incolor, verde, fumê, azul e bronze. Outras opções de laminados podem ser desenvolvidas conforme a necessidade do projeto.
W www.agcbrasil.com

Divulgação: GlassecCONTROLE ACÚSTICO E SOLAR
O GA Ins 128 é o vidro insulado laminado de controle solar da Glassec Viracon e está enquadrado na categoria low-e. Segundo a empresa, o produto colabora para o desempenho acústico e para a proteção contra raios UV das fachadas. Disponível em diversas cores e configurações de acordo com o projeto.
W www.glassecviracon.com.br

 

FACHADA UNITIZADADivulgação: SchuecoA TropTec UC 64 SG.NI, fachada unitizada da Schüco, conta com o exterior 100% em vidro, três profundidades padrões (100 mm, 119 mm e 135 mm), larguras frontais reduzidas e diferentes tipos de vidros (simples, laminados ou insulados) com espessuras variadas. Disponível com viga simples ou multiapoiada.
W www.schueco.com.br.

 

Divulgação: LLumarPELÍCULA
A película de segurança e de controle solar da LLumar reduz em até 83% o calor proveniente da radiação solar e bloqueia até 99% dos raios UV, informa a empresa. Em caso de quebra de vidro, o produto também garante que o material não se estilhace.
W www.llumarbrasil.com.br