Como trabalhar com projeto de baixa renda

No Brasil, principalmente entre famílias da classe baixa, é comum que os moradores acabem reformando ou construindo suas próprias casas apenas com a ajuda de mestres de obra ou de pedreiros, segundo pesquisa divulgada pelo CAU/ BR em 2015 (AU 259). Para grande parte dos brasileiros, contratar um arquiteto custa caro. Além disso, para Caio Santo Amaro, arquiteto da Peabiru e professor da FAUUSP, a profissão e toda a formação do arquiteto são baseadas em um trabalho mais voltado para a elite, o que acaba afastando os profissionais da população mais carente. “No próprio curso de graduação ainda há a imagem de que um arquiteto bem-sucedido é aquele que pode manter um escritório, que desenvolve projetos autorais. Isso, além de ser uma ideia falsa, afasta a profissão das reais demandas e necessidades da sociedade”, afirma o arquiteto.

NOVO CAMPO DE TRABALHO
Apesar das dificuldades, o segmento residencial de baixa renda é um campo de atuação que pouco a pouco começa a se expandir. Para o presidente do CAU/BR, Haroldo Pinheiro, a arquitetura direcionada a projetos sociais é uma tendência não só no Brasil, mas no mundo, e um caminho para novos profissionais, que seguramente têm um novo campo de atuação.

Para os arquitetos do escritório Terra e Tuma, a demanda por projetos nesse segmento é urgente. “Precisamos olhar a precariedade das construções e das infraestruturas do País como uma grande oportunidade, principalmente para os arquitetos mais jovens, que já não encontram um mercado promissor como o dos últimos anos”, observa Pedro Tuma.

QUEM CONTRATA
Para trabalhar com projetos direcionados à baixa renda, os arquitetos podem atuar basicamente por meio de concursos e licitações, como os que buscam projetos para urbanização em assentamentos precários, e pela iniciativa privada, atendendo a incorporadoras, entidades e clientes diretos. Além disso, prefeituras e associações de classe também costumam organizar e contratar projetos.

ESTRUTURA NECESSÁRIA
Para quem deseja atuar com projetos de baixa renda, é importante ficar atento à estrutura do escritório. Para as profissionais do Habitar Arquitetas Associadas, uma equipe enxuta, parcerias com outros arquitetos e um bom planejamento são ações indispensáveis. “Aqui no escritório, preferimos contar com a colaboração de parceiros arquitetos nos momentos de maior demanda”, conta a arquiteta do Habitar, Renata Coradin.

Dicas para atuar com projetos de baixa renda

Ilustração: Daniel Beneventi

ASSISTÊNCIA TÉCNICA GRATUITA
Também é possível atuar com assistência técnica gratuita para a construção de moradias destinadas à população com renda de até três salários mínimos, um serviço assegurado pela Lei 11.888, de 24 de dezembro de 2008. Classifica-se como assistência técnica todos os trabalhos de projeto, acompanhamento e execução da obra a cargo dos profissionais das áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia necessários para a edificação, reforma, ampliação ou regularização fundiária da habitação.

No entanto, a lei ainda é pouco conhecida entre os profissionais, possivelmente pela ausência de patrocínio dos órgãos públicos para liberar verbas aos projetos. “Abrimos um edital para patrocinar projetos desse tipo para comunidades que queiram construir moradias dignas, fugindo da saída comum da autoconstrução. Em 2015 foram contemplados quatro projetos, o maior deles no ABC Paulista, região Metropolitana de São Paulo, beneficiando quase 100 famílias”, conta Haroldo.

Foi com respaldo nessa lei que a Associação Oeste de Diadema, em São Paulo, contratou profissionais para projetarem o Canhema II, com 98 moradias de interesse social, projetadas pela equipe do Habitar Arquitetas Associadas.

PRIMEIROS PASSOS
Desmistificar a máxima de que existem diferenças conceituais entre projetos para baixa e alta renda é o primeiro passo para um bom projeto. Assim como em qualquer outra obra, é preciso planejar para que os custos sejam compatíveis com as necessidades do cliente. “Os mesmos conceitos e materiais que compõem a casa na Vila Matilde (AU 259) estão presentes na Casa Maracanã, na Lapa, ambas em São Paulo. São os mesmos blocos, mesmas lajes, mesmos fornecedores de caixilhos, de louças, de metais, de tubos e de conexões. É possível realizar projetos muito sofisticados com uma boa lógica construtiva”, pontua Danilo Terra, do Terra e Tuma.

Também é preciso estar atento à capacidade que o cliente tem de construir. “O contratante precisa apresentar todas as condições básicas para o desenvolvimento do projeto, como documentação do terreno, programa e dimensionamento da casa/edifício compatível com o valor do investimento disponível para a obra, projetos e aprovações”, diz a arquiteta Fernanda Sakano, do Terra e Tuma.

PROJETO ENXUTO
Com orçamento geralmente curto, é condição baratear os custos da obra sem deixar de lado a qualidade do projeto. Projetar para esse segmento significa focar em resultados que considerem desempenho tecnológico com baixo custo e racionalização das estruturas, viabilizando a construção e atendendo simultaneamente à viabilidade financeira, à qualidade dos espaços para o usuário final e à inserção urbana de maneira adequada.

Para Caio Santo Amaro, projetos de arquitetura direcionados para a baixa renda devem ser trabalhados como qualquer outro. “Os profissionais não devem enxergar a arquitetura para baixa renda como uma boa ação e sim como uma especialização. É como trabalhar com projetos de hospitais, de centros culturais, de casas de alto padrão. As preocupações com entendimento do problema, contatos com clientes em potencial, formação de redes com outros profissionais e outras ações são muito semelhantes em termos de mercado de trabalho.”

POR: FERREIRA DUARTE