A parte Norte do Complexo Olímpico Deodoro – com canoagem slalom, ciclismo BMX e mountain bike – passa a ser o segundo maior parque da cidade, atrás apenas do Aterro do Flamengo

“Da celebração efêmera ao desfrute do cotidiano.” O motto proferido por Héctor Vigliecca sintetiza o intuito central dos arquitetos no Parque Radical, trecho norte do Complexo Olímpico de Deodoro. Envolto em bairros com os menores Índices de Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro e extremamente carentes de serviços públicos, não seria cabível que o custoso investimento fosse destinado exclusivamente às semanas da Olimpíada e da Paralimpíada. O destino do projeto não pode se limitar ao usufruto dos competidores e espectadores que vêm de longe, mas deve contemplar igualmente a população das cercanias que passará a ter acesso livre ao novo segundo maior parque da cidade – atrás apenas do Aterro do Flamengo. O Parque Radical dá uma inédita perspectiva de lazer e atendimento social a moradores da zona Oeste carioca e da Baixada Fluminense.

Selecionado por um concurso público internacional em 2013, o projeto do consórcio capitaneado pelo escritório Vigliecca & Associados reúne diversos equipamentos esportivos da Olimpíada de 2016. A parte sul da área militar de Deodoro – sítio onde se implanta o Complexo Olímpico – é destinada ao Centro de Hipismo. Na zona central, são implantados a Arena da Juventude, o Centro de Tiro, o Estádio de Deodoro e o Centro de Hóquei sobre Grama. É na parcela mais ao norte que se concentram os esportes radicais do programa olímpico: canoagem slalom, ciclismo BMX e mountain bike.

ACOMODAÇÕES TOPOGRÁFICAS Em primeira medida, o desafio projetual consiste em conciliar as especificidades e requisitos das competições olímpicas com a ambiência futura de um parque público de 490 mil m2, sendo 60% em área verde composta tanto por preservação da vegetação existente quanto pela compensação ambiental para novas massas arbóreas. Movimentações de terra adequaram a topografia para as necessidades do grande canal de Canoagem Slalom e da pista de BMX, com três percursos que se iniciam na mesma cota junto à entrada do Parque Radical e sutilmente se separam em níveis diferentes, como fitas que conduzirão os futuros frequentadores do parque aos diferentes equipamentos.

O caminho baixo é uma faixa que se alarga para dar origem ao back of house – área de apoio para a Olimpíada, composta por uma grande superfície asfaltada onde se implantarão estruturas provisórias da organização e da transmissão do evento -, e posteriormente será readequado para receber instalações esportivas de uso cotidiano, como ciclovia, quadras poliesportivas, quiosques, áreas verdes de piquenique e ócio.

Por sua vez, o caminho intermediário direciona o visitante ao núcleo do Parque: uma praça rodeada por uma infraestrutura a articular as distintas cotas e equipamentos do parque. Este nó infraestrutural é composto por uma larga escadaria sob a ponte de acesso direto ao slalom, cujo espaço inferior é, em parte, ocupado por vestiários, salas administrativas e técnicas – otimizando os mesmos serviços para duas modalidades olímpicas -, e contém a passagem à península da rampa de largada do BMX. Apoio aos atletas e a chamada “família olímpica”, essa área estende- -se em um segundo eixo a 90 graus da ponte, o qual se integra com a topografia – aflorando somente acima da cota do monumental tanque d’água, em uma parte do edifício que será temporária para os Jogos.

O pavimento do caminho intermediário terá diversas cores de acordo com o projeto gráfico da Olimpíada, e será mantido posteriormente para manter na memória os dias que os olhos do mundo estiveram voltados para aquele até então recôndito trecho do Rio.

Por fim, o caminho alto sobe o morrote existente, deixando o espectador no ponto mais alto da arquibancada com 8 mil assentos, a qual será desmontada após o evento, dando lugar a patamares para que as pessoas se sentem sobre a grama – arquibancada natural – e admirem todo o percurso do slalom, o parque e as belas cadeias de montanhas que envolvem a região.

Somente a área de Mountain Bike está fora desses três vetores descritos, já que considerável parte dos 19,2 mil m² e 4,9 km de extensão de pista de terra retornará à posse do exército, não estando contido no parque público a ser gerido pela prefeitura.

SALTOS E CORREDEIRAS Pertencente ao programa olímpico desde Pequim em 2008, o BMX é uma modalidade do ciclismo praticada em uma pista de piso de saibro e composta por acentuadas ondulações e curvas. O desenho do circuito foi feito pelo Vigliecca & Associados com consultoria da empresa Elite Trax.

A escolha da área de 4 mil m² para a implantação do Centro de BMX teve como parâmetro a situação dos ventos predominantes, já que intensas movimentações naturais de ar prejudicam a prática e a performance dos atletas.

A rampa de largada é o elemento arquitetônico do percurso de competição. Nela, forma e função são, de fato, indissociáveis. A estrutura metálica segue a curvatura da superfície forrada de madeira em pronunciado declive, a fim de dar o impulso inicial da corrida. A partir de então, íngremes ondulações a cada 10 m marcam o percurso composto por uma sucessão de saltos entremeados por curvas de 180 graus em superfícies inclinadas com fina camada asfáltica. Com esta lógica foram feitos dois circuitos: o feminino com 350 m de comprimento e o masculino com 400 m.

Para evitar a erosão do solo, grama sintética cobre as laterais da pista até o espaço onde serão instaladas arquibancadas temporárias para 7,5 mil pessoas nos Jogos Olímpicos. Como o circuito olímpico de BMX é perigoso para amadores, pretende-se no legado fazer uma pista para iniciantes, mantendo a pista profissional existente.

A Canoagem Slalom impressiona pela magnitude do reservatório artificial para cerca de 25 mil m3 de água. Fazendo uso de caiaques ou canoas, os atletas remam por uma sequência de corredeiras, num percurso definido por balizas e obstáculos, em uma competição que visa a atravessar o caminho d’água no menor tempo possível e sem cometer penalidades. Desde Munique em 1972, este esporte integra a Olimpíada, sendo que a partir de Sidney, em 2000, tornou-se obrigatória a construção de canais artificiais para a competição, a fim de que se tenha mais controle e equilíbrio de condições dos canoeiros, e mais parâmetros para avaliação da competição. Se, por um lado, tal medida é salutar para a prática, a isonomia e a lisura das provas, por outro, transformam o Slalom na competição que demanda o maior custo de construção de seu equipamento esportivo se feita a comparação relativa com o número de atletas que usufruirão do local de disputa durante os Jogos Olímpicos.

Para além do investimento econômico, é digno de nota a complexidade projetual dessa estrutura, o que levou o consórcio encabeçado pelo escritório Vigliecca & Associados a fazer uma parceria com o Whitewater Parks International, a mesma empresa responsável pelos canais da Canoagem Slalom de 2012 em Londres. O processo de concepção incluiu modelos eletrônicos e uma maquete física em escala 1:13 feita em meados de 2014 na Universidade Técnica da República Tcheca. Neles foram feitos testes hidráulicos para avaliar a velocidade da correnteza e o sinuoso trajeto a ser usado pelos atletas, com avaliações da profundidade do canal, da quantidade e posicionamento das barreiras móveis, e cálculos de quantidade de água a ser bombeada para a atividade esportiva. O resultado desses estudos foi a otimização do sistema de funcionamento: reduzindo a quantidade de água necessária para o pleno uso, diminuindo ao mínimo possível a diferença de altura entre o começo do percurso e o grande reservatório de água, e mitigando o gasto energético de bombeamento e o volume de obra executado.

Constituído por placas de concreto pré-moldado, o complexo aquático é composto pelo reservatório e dois canais: o maior com 280 m de comprimento é destinado às competições, e o menor, para treinamentos, tem 210 m. A profundidade destes canais varia de 1,80 m a 2,40 m, sendo que na laje de fundo há uma sequência de trilhos, que operam como guias de fixação dos obstáculos móveis de fibra a serem instalados a cada competição.

O LEGADO Quando as obras foram concluídas no final de 2015, moradores do bairro vizinho de Ricardo de Albuquerque começaram a invadir a área do ainda não inaugurado Parque Radical para banhar-se no monumental “piscinão” em fins de semana de intenso calor. O custoso equipamento esportivo encontrou sua finalidade de lazer antes mesmo que fosse permitido. De vilão orçamentário, o Slalom passou a ser o mais democrático espaço edificado para a Olimpíada.

A esperteza propagandística do poder municipal do Rio logo tirou proveito, abrindo o reservatório de água para o público e para as lentes da imprensa. Fato é que a apropriação popular durante o verão foi comovente: milhares de pessoas das classes sociais menos favorecidas – e que antes precisavam deslocar-se quilômetros para ir até a praia – passaram a ter um excepcional local de lazer na vizinhança. Felizmente, o “desfrute cotidiano” ultrapassou a “comemoração efêmera”.

RENEWING CURRENTS
Surrounded by boroughs with the lowest Human Development Indexes in Rio de Janeiro, the Radical Park project, in the Northern section of the Deodoro Olympic Complex, contemplates the outskirting population, which will soon gain free access to the new second largest park in the city after the Games. Selected by an international public recruitment competition in 2013, the consortium project captained by Vigliecca & Associados unites diverse sporting facilities of the Olympic Games. The northernmost part concentrates radical sports: slalom canoeing, BMX biking and mountain biking. Earthwork adapted the topography to the large Slalom Canoeing waterway and the BMX track, with three walkways that are initiated together on the same elevation at the entrance of the Radical Park and are subtly separated into levels, with lines that lead the attendees to the facilities. The BMX Center starting ramp is the architectonic element of the competition course. Here, form and function are, indeed, inseparable: the metal structure follows the curve of the wooden-lined surface in steep decline, with the purpose of providing the initial boost to the race. The Slalom Canoeing waterway impresses by the magnitude of the artificial reservoir holding around 25,000 m3 of water. The conception process included electronic models and a physical 1:13 scale model made at the Czech Technical University. The result of these studies was system optimization, reducing the amount of water for full use and mitigating the power energy expense of pumping. When the works were completed at the end of 2015, residents from the neighboring borough invaded the area of the still uninaugurated Radical Park to soak in the monumental “giant swimming pool” on intensely hot weekends. The expensive sporting facilities encountered their leisure purpose before this was permitted and came to be the most democratic building space for the Olympic Games.