Juan Herreros: sobre o ensino, a prática e a cidade híbrida

Costumeiramente, vê-se com bons olhos a presença de arquitetos da prática compondo a lista de membros do corpo docente de uma universidade. A priori, esta é a informação de grande valor para apresentar o arquiteto espanhol Juan Herreros, sócio-fundador do Estudio Herreros e professor das Universidades de Madri e de Columbia, em Nova York. A questãochave, no entanto, está presente na sua afirmação: “Os projetos dos meus alunos não se parecem com o que produzo no meu escritório”. A frase é tão óbvia quanto estranha para os corpos docentes de várias faculdades de arquitetura brasileiras. Para Juan, dar aulas não é doutrinar, não é a sobreposição do desenho do professor em cima do que é feito pelo aluno. O ensino é associado ao diálogo.

Diálogo que Juan Herreros se dispôs a ter com a revista AU durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, em companhia de seus

alunos da Universidade de Columbia, para a comemoração dos cinco anos do Studio X e a abertura da exposição Lutar, Ocupar, Resistir. As alternativas habitacionais dos movimentos sociais. Nessa conversa, o arquiteto enfatiza a importância da ideia do híbrido: a mescla de programas, funções, períodos históricos e classes sociais nos edifícios e cidades.

Tendo projetado em locais tão diferentes quanto Coreia do Sul, Panamá, Noruega, Marrocos e Colômbia, o arquiteto espanhol também explica o que entende por prática global. Prossegue questionando a “mistificação do detalhe construtivo” e reconhecendo as virtudes da matéria industrial, o que o faz contrapor-se ao “entendimento épico da prática da arquitetura” na qual o arquiteto deve intervir em cada centímetro. Assim, alerta sobre o papel do arquiteto na contemporaneidade: projet

 

ar e construir não são o suficiente.

Como a prática arquitetônica informa o ensino, e vice-versa?
Há cerca de 20 anos existe essa nova corrente nas universidades: priorizam-se professores que são arquitetos com uma prática. Nós vamos para a faculdade a fim de convertê-la em um laboratório de nossas ideias e, ao mesmo tempo, conseguir material intelectual para informar nossa prática. Nesse sentido, o interesse de arquitetos no mundo acadêmico ocorre para obter algo do mundo real: algo que as contingências do escritório impossibilitam penetrar; algo conceitualmente mais interessante na realidade. Nós, arquitetos, não projetaríamos como tal se não ensinássemos e vice-versa: não ensinaríamos como tal se não tivéssemos uma prática. A diferença entre a Europa e os Estados Unidos é que, no velho continente, o ensino está mais vinculado à prática e, na América, a academia é mais experimental, conceitual e interessada na construção da narrativa dos projetos. Portanto, no meu caso, sou um professor diferente ensinando nos Estados Unidos porque tenho uma bagagem prática, próxima à obra e ao cotidiano do projeto; por sua vez, em Madri, incito meus alunos a elaborar uma sólida argumentação dos seus projetos e não somente uma boa solução técnica. Após mais de 30 anos dando aula, minha performance no espaço acadêmico é muito similar à minha performance no escritório. No estúdio, deixo os instrumentos de desenho nas mãos dos meus colaboradores e exerço a crítica sobre esse trabalho. O mesmo ocorre quando estou na universidade: eu não desenho nela. A dissolução da autoria das ideias em um grupo dirigido por uma pessoa é muito interessante como espaço de ensino.

Para tantas e tão distintas decisões que um arquiteto deve tomar na sua prática, é preciso um diálogo amplo com diversos agentes. De que maneira a noção de diálogo pode ser ensinada ou praticada nos círculos universitários?
O diálogo é um instrumento de desenho. Não o utilizo somente como uma forma de encontrar acordos. A capacidade da 

 

conversação pode gerar diferentes visões de uma ideia, e meu papel é detectar as ideias pertinentes. Transmite-se isso aos alunos quando o professor se abre a um diálogo sem impor suas palavras, ideias, técnicas, experiência ou soluções pré-concebidas, mas como alguém que se apresenta disposto ao diálogo. Esse diálogo pode indicar argumentos de desenho: não ideias pré-concebidas, mas ideias surgidas da conversa. Por isso, os projetos dos meus alunos não se parecem com o que produzo no meu escritório.

Que questões arquitetônicas mais urgentes você leva à sala de aula?
É necessário entender o projeto de arquitetura como um instrumento social, técnico e político. Isso é uma obviedade, mas é importante que jovens arquitetos desenhem sua própria prática, estabelecendo que tipo de arquiteto querem ser e que compromissos querem estabelecer nesses três aspectos: o social entendido como as pessoas; o técnico, como a cultura de compartilhamento das especialidades de todas as atividades, sejam criativas ou mundanas; e a política entendida como a evidência de que convivemos com pessoas de diferentes realidades e fazemos parte de algo maior do que nosso pequeno estúdio.

Dos seus projetos habitacionais ou edifícios híbridos com outros programas somados às residências, quais aspectos-chave servem de lição para problemas habitacionais com os quais você está tendo contato no Brasil?
Qualquer organismo, se for diversificado, será suficientemente resistente para confrontar momentos difíceis. São fundamentais as diversidades programáticas, de tipos de usuários, de situações geradoras. A partir de uma certa escala, os edifícios são organismos que construímos para serem capazes de atravessar o tempo. Grandes construções incapazes de aceitar mudanças do tempo acabam por sucumbir. O conceito de hibridização é algo a se colocar em pauta, com as lutas contra a monofuncionalidade dos bairros, contra os bairros de uma única classe social, contra os edifícios de uma única função, contra prédios residenciais que não se mesclam com programas produtivos, contra os arquitetos de um único projeto. Afinal, híbrido é aquele que gera algo diferente ao juntar partes de diferentes origens. Híbrido é reunir usos, é a ideia de convivência de programas e situações muito diversas. Esta é a grande chave para aceitar a enorme velocidade das transformações na cidade.

Você acredita que em conjunturas de crise, como Europa ou Estados em 2008 ou o Brasil atual, grandes edifícios de uso misto têm uma perda de volume de encomendas, e também de relevância?
Em tempos de recessão econômica, a mais interessante operação arquitetônica é a correção dos edifícios existentes. Embora seja uma opção desejável, antes de construir novos edifícios híbridos temos de perguntar a nós mesmos como hibridar a cidade existente com enxertos de novidade que possam atualizar seus conteúdos decadentes. O ponto é o quanto edifícios existentes podem ser reorganizados nas cidades, onde podemos instalar novos programas e dotar de novas utilidades: trabalhar com, abaixo, contra, entre, sobre; criando uma nova cidade hibridizada com a existente. Isso é diferente de adicionar novas peças e deixar para trás um território esgotado. Aqui e em outros países, grandes porções da história e da essência das cidades têm sido destruídas em prol da criação de novos fragmentos urbanos. O nosso erro é a obsessão por criar edifícios e expandir a cidade. Temos de controlar as cidades fractais: redensificar, reprogramar, requalificar, reenergizar. Esses são instrumentos mais ambiciosos com os quais os arquitetos devem se sintonizar caso queiramos recuperar um lugar de real responsabilidade na construção da nova cidade. É algo que só faremos se conseguirmos dar dignidade ao passado que herdamos e construir sobre ele um presente comprometido, a partir do qual possamos olhar para o futuro com otimismo.

É importante que jovens arquitetos desenhem sua própria prática, estabelecendo que tipo de arquiteto querem ser e que compromissos querem estabelecer nesses três aspectos: o social, o técnico e o político

Imagens divulgação: Estudio Herreros

Como você descreve sua atividade projetual quando muitos de seus projetos estão distantes da sede do escritório? Como é a lógica de projeto longe do locus?
Todos usam a palavra global. É um mantra um pouco desgastado de conteúdo. Para mim, global é uma forma de pensar, que difere de ser internacional. Muitos arquitetos que trabalham em diferentes países não estão contribuindo na construção de um pensamento global. A ideia de pensamento global significa, para mim, a visão do estrangeiro que é capaz de detectar valores que a cultura local já não aprecia. No esforço de entender o contexto, o arquiteto global é capaz de reescrever a contextualização dos lugares que operam, selecionando as variáveis atrativas e utilizando a matéria existente no lugar. Isso justifica o fato de pequenos escritórios terem hoje uma capacidade de penetração verdadeira em lugares desconhecidos ou longínquos, enquanto as grandes corporações apenas exportam o pior de suas metrópoles para outros lugares. É um fenômeno interessante desses concursos internacionais ganhos por escritórios pequenos, que encontram uma sensibilidade local nesse sentido.

Para esta prática global, que conformação você considera mais apropriada para o seu escritório responder às demandas atuais?
No estúdio, somos cerca de 20 pessoas. Cada projeto tem um arquiteto-diretor e enviamos uma pessoa para trabalhar in loco nos lugares onde temos projetos importantes, a fim de estabelecer os vínculos entre o estúdio e o local de projeto. Funcionamos como um sistema de compartilhamento de informações e decisões coletivas, de maneira que todos os arquitetos do estúdio têm responsabilidades específicas em determinado projeto, ao mesmo tempo que participam de um coletivo opinativo com grande capacidade de modelar os demais projetos.

Imagens divulgação: Estudio Herreros
Um conjunto de habitação, escritórios e hotel em Oslo, Noruega, é um exemplo de projeto híbrido que ressignifica espaços urbanos. O projeto vencedor de concurso pelo Estudio Herreros fica em região central da cidade, e pretende também facilitar a mobilidade por meio de modais não poluentes, como a bicicleta e trajetos a pé – uma vez que o conjunto possui a maioria dos serviços, comércios e atividades de lazer necessários ao dia a dia

Observando seus projetos desde o Estudio Gordillo (2000), parece recorrente o uso de materiais industriais, de pré-fabricação. Qual é a motivação desta característica?
Fui professor de sistemas construtivos antes de ser professor de projeto. Desenvolvi uma posição muito crítica contra a mistificação do detalhe construtivo, como algo que nos leve a não olhar as qualidades do espaço ou o projeto de modo geral. Promovi uma reação contra o elogio aos detalhes ao escrever o artigo Detalles constructivos y otros fetiches perversos. Sempre reagi contra a ideia de controle total pelos arquitetos, que, na tentativa de projetar tudo, acabam por rejeitar a indústria, pois supostamente nós saberíamos fazer melhor em toda hora, lugar e centímetro. Esse entendimento épico da prática da arquitetura é uma maneira de colocar muita importância na criatividade, e sobrepõe-se à realidade. Quando o texto foi escrito, dizíamos que eram “sistemas contra detalhes”: não estávamos interessados em detalhes e em particularidades, mas em criar sistemas. A mistificação da construção é, para mim, algo muito estranho, por exemplo, quando vejo jovens arquitetos construindo casas de concreto incrivelmente esmiuçadas artesanalmente, usando materiais sofisticados, caros, que demandam tempo de execução e levam ao sofrimento das pessoas que habitam ou trabalham nos edifícios. Rejeito essa ideia de que alguém deve sofrer pelos meus projetos. A indústria existe para criar mais linguagens, sistemas que podem ser usados por todos. Como arquitetos, podemos ser copiados: podemos inventar algo que, nas mãos de outros colegas, é transformado em uma coisa diferente.

Este modo de projetar tem relação com a não presença do arquiteto-autor no canteiro de obras?
Eu quase diria que este é o segredo. Não somos obcecados por desenhar detalhes construtivos completamente estranhos ao lugar de projeto. Um arquiteto precisa levar a um sítio sua ideia de arquitetura, mas também tem que ver o que há nele, com que se pode trabalhar ali. É necessário um certo frescor e adaptabilidade.

Por fim, como definiria a atividade do arquiteto nos tempos atuais?
A prática da arquitetura está mudando. Ideias a respeito do controle e de deixar marcada uma forte personalidade nos projetos são cada vez mais difíceis. Para alguns arquitetos, é complicado aceitar essa situação de certa renúncia à autoria. Temos que ensinar nossos estudantes a colaborar no meio de vários agentes. Nós não mais tentamos fazer tudo e convencer todos de que estamos certos. Antes, o trabalho dos arquitetos era projetar e construir. Qualquer coisa externa a estas duas tarefas era um trabalho secundário. Hoje, somente uma parte da atividade dos escritórios é constituída pelo que será edificado; grande parte do trabalho é constituída por atividades difíceis de falar por não serem fotografáveis. Em tantos países com sólida tradição arquitetônica, os jovens escritórios estão editando alguma publicação, fazendo o design de algum pequeno objeto, organizando seminários, ensinando, entrando em concursos, e construindo dois ou três prédios. Não estão fazendo os primeiros itens que pontuei por falta de projetos a construir, mas porque a parte especulativa da nossa profissão é muito importante. As atividades que informam o ato da construção estão se transformando nas mais relevantes para os escritórios. Posso dizer que os escritórios que restringem seu foco em edificar não estão no sentido certo da história.

POR: FRANCESCO PERROTTA-BOSCH FOTO: RAFAEL SALIM