James Stirling: O Moderno Questionador

Polêmico, talentoso e sem apego a nenhum estilo ou forma de fazer arquitetura, o inglês James Frazer Stirling (1926/1992) não foi apenas um dos mais influentes arquitetos ingleses do século 20, mas também um dos responsáveis pela ampliação do vocabulário moderno na segunda metade do século. Alguns críticos acreditam que James Stirling tenha sido um dos grandes nomes da linguagem pós-moderna em arquitetura, junto ao desconstrutivismo de Peter Eisenman, o historicismo de Michael Graves e o simbolismo de Robert Venturi. Essa avaliação, contudo, provou-se generalista ao unir pesquisas tão diferentes em um só rótulo, como crítica à simplicidade demasiada e à rigidez do pensamento moderno.

No caso de James Stirling, o rompimento com o vocabulário estritamente moderno coincide com sua genealogia inglesa. O modernismo chamado heroico, das primeiras décadas do século 20, era visto pelos habitantes da ilha britânica como uma ameaça à soberania cultural do país. Uma ameaça vinda do continente, tendo em Le Corbusier e na Bauhaus os símbolos de imposição cultural. A verdade é que os ingleses não estavam prontos para abrir mão de uma tradição em arquitetura e em preservação de patrimônio que datava da época vitoriana. Para os ingleses, a arquitetura moderna já tinha acontecido como investigação do campo da técnica, nas obras de John Ruskin e William Morris.

Na década de 1950, Londres era um local de efervescência cultural e intensos debates nas escolas de arquitetura, principalmente na Architectural Association (AA). Alguns jovens arquitetos, como Peter e Alison Smithson, procuravam novas formas ligadas à cultura popular e mais engajamento com a moral construtiva moderna. Outros, como Colin Rowe e Reyner Banham, buscavam ampliar e tencionar os limites do vocabulário moderno. Mas nenhum arquiteto teve a eloquência de James Stirling na produção de uma arquitetura moderna, mas que desde o começo questionava os cânones dessa linguagem. Não à toa, James Stirling é conhecido como o grande arquiteto moderno (e pós-moderno) da Inglaterra. Foi com ele e com suas experiências que portas se abriram na crítica e no gosto popular para as gerações futuras, como a de Norman Foster e de Renzo Piano, ícones da arquitetura hightech, ou Colin Saint-John Wilson e David Chipperfield, em interpretações da tectônica na arquitetura inglesa.

De maneira simplista, podemos definir em duas fases a carreira de Stirling, sendo a primeira representada por sua parceria com James Gowan (entre 1956 e 1963). Recém- -formados, os dois trabalharam no escritório de Lyons, Israel & Ellis de 1954 até 1956, quando começaram a parceria. Essa fase da carreira de Stirling pode ser chamada de reinterpretação do modernismo, enquanto a segunda fase, a partir de 1964, na qual forma sociedade com seu antigo assistente, Michael Wilford, pode ser interpretada como o campo de experimentações pós-modernas. Uma constante, no decorrer de sua carreira, foi o desprendimento com uma linguagem única, e o interesse por misturar anseios futuristas com retomadas de motivos históricos. Como James Gowan interpretou uma vez, tratava-se de “a style for the job”, ou “um estilo para cada projeto”.

UMA RELEITURA DO MODERNISMO
Segundo o historiador Anthony Vidler, a partir da análise formalista das proporções da arquitetura moderna de Le Corbusier, percebemos a primeira das experimentações do arquiteto inglês. Sua percepção dos limites rígidos da forma purista de Corbusier é explorada nos apartamentos em Ham Common (1958), um conjunto bem amarrado de blocos residenciais, que ao mesmo tempo é uma releitura do primitivismo das Casas Jaoul (1954/1956) de Corbusier, mas com a linguagem claramente inglesa do brutalismo. As lajes de concreto armado aparente marcam horizontalmente a estrutura e segmentam os níveis da edificação formada por volumes brancos de alvenaria recortados por janelas eminentemente padronizadas, piso a teto. Outro exemplo de como Stirling conseguiu dominar o vocabulário moderno com clareza está presente em um de seus primeiros projetos, uma casa de veraneio para ele próprio, de 1948, na qual apresenta o controle de planta com pátio interno e materiais industrializados, como o alumínio e a madeira laminada, com embasamentos construídos em pedra, que elevam a casa do solo e que nos remetem à arquitetura de Paul Rudolph (seu contemporâneo e colega) ou de Marcel Breuer.

Já nessa primeira fase de formação, Stirling trazia para a discussão a crítica à cidade funcional, apresentando um ideal mais agrário para a imagem da máquina de morar corbusiana. Apresentando sua proposta da Maison Dom-Ino Rígida (1951), criticava os limites da apropriação da indústria pela arquitetura moderna. No projeto da Vila Rural de Habitação Popular, proposta no Ciam 10 (1956), em Dubrovnik, Croácia, Stirling apresenta uma releitura do conceito de produção de habitação em massa, sem o fetiche da industrialização seriada repetitiva. Apoiando-se em técnicas rudimentares de telhados com inclinações de 30% e alvenaria estrutural, propôs a apropriação de técnicas modernas de urbanização com a utilização de materiais e técnicas locais, que permitisse uma gama de variações em cima do mesmo tema e melhor identificação da comunidade com o espaço urbano, contrastando de maneira clara com o conceito corbusiano de tabula rasa.

ENTRE A TÉCNICA E A HISTÓRIA
Apesar de ter sido laureado com o prêmio Pritzker, em 1981, e de ter seu nome atrelado ao principal prêmio de arquitetura moderna na Inglaterra, criado em 1992, logo após seu falecimento, Stirling não é unanimidade nem ao menos em seu país. Segundo a resenha do jornalista Rowan Moore para uma exposição na Tate Gallery em homenagem ao arquiteto em 2011, Stirling era visto pela crítica geral, durante as décadas de 1960 e 1970, como um arquiteto renomado, cujas obras não funcionavam. Um dos casos mais divulgados pela crítica de arquitetura foi a chamada tríade vermelha, uma série de três edifícios – a Biblioteca da Universidade de Cambridge (1968), a Faculdade de História também em Cambrigde (1968) e o Edifício Florey, na Queen’s College (1971) – nos quais é predominante o uso do tijolo vermelho, típico da paisagem inglesa, e o vidro encaixilhado de alumínio. Os três edifícios são conhecidos como a transição da fase brutalista para as primeiras experimentações no vocabulário construtivista (segundo Reyner Banham) e, malgrado sua construção repleta de problemas de execução e erros conceituais no sistema de controle ambiental, seriam pioneiros estudos de caso para a arquitetura hightech.

Não que outros arquitetos que ousavam e experimentavam tal como Stirling não enfrentavam fracassos no plano técnico – como podemos ver na crítica atual ao conjunto construído do brutalismo inglês, e no processo de demolição do conjunto Robin Hood Gardens projetado pelo casal Smithson – mas entre a realidade construtiva e o plano conceitual, suas obras eram muito mais ousadas. Combinado a uma experimentação em diversos campos, que parecia para muitos uma frivolidade em abandonar ideias ainda não maturadas para perseguir outras propostas, Stirling ganhava tantos admiradores quanto críticos ferrenhos.

Enquanto muita crítica fora feita em sua terra natal, outros arquitetos europeus e estadunidenses apreciavam sua produção. Rafael Moneo disse, em meados de 1980, que não poderia pensar “em outro arquiteto cujo trabalho ilustrasse um ciclo inteiro da recente história da arquitetura tão eloquente quanto Stirling”. Colin Rowe aponta Stirling como um dos arquitetos para quem a arquitetura moderna era um assunto importante, e nunca simples de lidar. Parece que foram Robert Maxwell e Anthony Vidler, críticos de arte e arquitetura formados no campo inglês pós-guerra, que conseguiram explorar de maneira mais contundente sua produção. Vale a pena destacar o recente trabalho de Anthony Vidler, James Frazer Stirling: notes from the archive, publicado em 2010 e fruto de exposição em 2011, no qual o crítico e historiador de arquitetura traz à luz um variado material de arquivo para reinterpretar a obra de Stirling, destruindo conceitos pré-estabelecidos pela crítica rasteira. Em sua monografia, Vidler aponta para a percepção de Stirling sobre a cidade como museu.

Em sua pesquisa sobre o historicismo do século 19, Stirling chega à conclusão que a mudança de cultura e de valores na história está baseada na crença de que, sob todas as coisas, existe uma única lei natural. Em outras palavras, existia, desde a formação do iluminismo e do pensamento moderno, um fio condutor disfarçado por baixo de uma avalanche de transformações sociais e culturais. Nesse sentido, modernidade e pós-modernidade são parte do mesmo processo. Para o arquiteto, o conflito constante entre a constância e a ruptura sistemática não teria outro local mais eloquente como alegoria do que o museu. O espaço interior de um museu seria a alegoria da sociedade na história recente: edifícios equipados com a mais avançada tecnologia de controle ambiental reencenam os primórdios da modernidade. Stirling leva essa teoria em prática em três projetos para museus na Alemanha: o Nordheim-Westphalen, em Dusseldorf (1975), o Wallraf-Richartz, em Colônia (1975), e a Staatsgalerie, em Stuttgart (1977/1984).

A CIDADE-MUSEU
Foi entre as décadas de 1970 e 1980 que Stirling teve sua produção mais ligada ao movimento pós-moderno. Um dos elementos dessa identificação foi a retomada do passado como elemento de projeto. É nesse ponto que se diferenciou das gerações modernas. Nesses projetos, mesmo que paradoxalmente, Stirling se alimentava da lógica da construção racional e da utilização dos materiais e técnicas avançadas, típicas da atitude moderna de projeto. E é no projeto da Staatsgalerie de Stuttgart, o único de seus três projetos para museus construído, que Stirling demonstra sua teoria sobre o trajeto dentro de um museu como alegoria da experiência espacial no percurso da cidade.

A promenade architecturale – a valorização da arquitetura pela experiência do usuário em percurso dentro da obra – resgatada por Le Corbusier, é reinterpretada por Stirling. Em recente monografia sobre a obra da dupla James Stirling e Michael Wilford, chamada Style is the man, Charles Jencks analisa como eles reinterpretam a percepção da arquitetura pelo percurso, revelada pela representação dos projetos da dupla – como a produção de vistas axonométricas inferiores, também chamadas de perspectiva da minhoca, que explora o cânone de representação de Auguste Choisy, no começo do século 20, e demonstra a mudança de percepção da arquitetura. Do plano bidimensional, com o qual a arquitetura neoclássica das escolas de Belas Artes estava em pesquisa, parte-se para a leitura de um ambiente tridimensional e sem fachada predominante.

Se na obra de Corbusier isso ficou claro, principalmente pela atividade dos críticos e historiadores, no caso de Stirling isso é didaticamente explicitado por suas perspectivas vistas de baixo. São representações que chamam a atenção por sua beleza e capacidade de explicar uma experiência espacial sem fazer uso de perspectivas geradas por computador. Essa experimentação no campo da representação e o flerte constante com a riqueza da arquitetura neoclássica são em parte o efeito da presença do então jovem arquiteto Leon Krier, a partir de 1968. Krier redesenhou a maioria dos projetos de Stirling e Wilford, e consolidou a estética predominante do escritório.

Seria fácil alinhar sua produção com a de Philip Johnson, longevo arquiteto estadunidense que flertou com estilos. Ou com o brasileiro Ruy Ohtake, que saiu da estética brutalista para encarar uma releitura do modernismo de formas livres a partir dos materiais industrializados. Mas após a investigação profunda de sua produção, ficou claro que a experimentação de Stirling não se tratou de uma investigação tão errática e estética quanto a de Johnson, nem com a súbita sensação de liberdade que teria alcançado Ruy Ohtake, que por sinal encontrou sua linguagem final.

No caso de Stirling, trata-se de uma interpretação constante de algo volátil: para o arquiteto inglês, o pensamento moderno era algo complexo que se transformou de maneira radical no decorrer da segunda metade do século 20, e a arquitetura que se entende como moderna deve acompanhar essa transformação constante.

LUIZ FLORENCE é arquiteto e urbanista formado pela FAUUSP em 2005, onde recebeu o título de mestre em 2014. É um dos sócios e fundadores do escritório 23 Sul, trabalhando desde 2006 em projetos de infraestrutura urbana e equipamentos públicos, e professor de Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo na Universidade São Judas Tadeu desde 2015

IMAGENS
1/2/3/4/5/6/7 divulgação James Stirling & Partner 8 Andrew Dunn 9 acervo do museu10 Michael Wilford & Partners 11/12 Steve Cadman

BIBLIOGRAFIA
JENCKS, Charles. “Style is the Man”. In: The aArchitectural Reviewreview, Nno. 1.411, Setembro setembro 2014, pp. 96-103.
MAXWELL, Robert. “Situating Stirling”. The Architectural architectural Reviewreview, 30 de março de 2011. Disponível em: http://www.architectural-review.com/rethink/viewpoints/situating-stirling-robert-maxwell/8613204.fullarticle
MOORE, Rowan. “James Stirling: visionary architect, and a very naughty boy”. In: The Guardian, 20 de Março março de 2011. Disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/2011/mar/20/james-stirling-tate-britain-drawings
VIDLER, Anthony. James Frazer Stirling: notes from the archive. London: Yale University Press, 2012.
VIDLER, Anthony. Histories of the Immediate Present: Inventing Architectural Modernism. Cambridge: The MIT Press, 2008.

POR: LUIZ FLORENCE