Instituto de Arquitetura Avançada de Catalunha (Iaac), em Barcelona: as mais recentes tecnologias para criar as próximas megacidades

Assim como a Nova York retratada por Woody Allen em Manhattan (1979), Barcelona é a colagem de muitas imagens – românica, pulsante, turística, metrópole-metáfora das transformações da cultura contemporânea. E um pouco mais. A cidade berço da vanguarda na Espanha continua com visões muito próprias do que é viver a contemporaneidade. É capaz de misturar, sem qualquer problema, seu passado romano com o até hoje contemporâneo plano Cerdà – que, a partir de 1855, derrubou muralhas e expandiu a área urbana de olho no futuro.

A cidade que no século 19 era conhecida como a Manchester do sul europeu, em virtude de seu portentoso parque industrial têxtil, passou, nas décadas antes da virada do milênio, a ter bairros industriais esvaziados e a ver sua economia migrando da produção de bens primários para os de serviços.

É nesse contexto que Barcelona decidiu, já nos anos 2000, reinventar o que restara de seus bairros fabris e torná-los centros de inovação. Cerca de 200 hectares são objeto de uma política de incentivo à indústria criativa. É nesse contexto que se encontra o garboso galpão no antigo Poblenou, ocupado pelo Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha (Iaac).

Fundado em 2003 como uma instituição privada sem fins lucrativos, o Iaac é uma das escolas de arquitetura mais avançadas da Europa quando o assunto é tecnologia. Sua abordagem dos chamados recursos de ponta não visa à estética como o objetivo primeiro. Antes disso, imagina as soluções do futuro para os problemas de hoje. Assim, sua prática busca uma abrangência multidisciplinar, estabelecendo diálogos com biólogos e outros cientistas, com programadores e, também, com artistas.

Três cursos dentro do Iaac
Para o Iaac, as novas tecnologias de projeto e de fabricação visam a produzir soluções otimizadas do ponto de vista da performance para que o habitat do futuro seja sustentável. Com base nesta filosofia, a escola oferece três cursos. O primeiro, e mais antigo, é o Master em Arquitetura Avançada, que acena com cinco linhas de pesquisa. Nelas, os participantes podem desenvolver seus próprios interesses: cidades inteligentes, edifícios autossuficientes, matéria digital, design com a natureza e interação avançada. Segundo os docentes do Iaac, o paradigma moderno da habitação como máquina de viver é superado pela ideia do edifício como organismo em constante interface com seu entorno. Dessa forma, o espaço construído deve se adaptar constantemente às mudanças no ambiente – sendo em seus fluxos de energia, matéria ou informação.

Essa linha de pensamento surgiu no final dos anos de 1990 do casamento da computação digital (capaz de lidar com formas curvas e complexas) com o pensamento deleuzeano (que propõe fluxos e dobras que se tornaram analogias para a arquitetura). O instituto se posiciona como uma plataforma de pesquisa para responder às demandas da sociedade contemporânea, produzindo soluções ao mesmo tempo economicamente viáveis e comprometidas com a preservação do meio ambiente. Assim, o Iaac proporciona conhecimentos técnicos e teóricos para responder a pleitos cada vez mais complexos do ambiente urbano.

O segundo programa, Master em Cidades e Tecnologia, em parceria com a escola de arquitetura Balwant Sheth, da Índia, foca no estudo da habitabilidade das cidades do século 21 e no papel exercido pela tecnologia. O intuito é formar os “change makers” para atuar junto às instituições governamentais, às comunidades e à indústria. O programa advoga para novas organizações econômicas e diferentes maneiras de administração para a criação da cidade do amanhã.

Projetos utópicos dos anos de 1960 do Superstudio e do Archigram abordaram como a arquitetura e a cidade poderiam responder às inovações provenientes das tecnologias de informação e comunicação. No entanto, produziram projetos especulativos impossíveis de serem construídos. O Iaac, pelo contrário, estuda como as atuais tecnologias podem lidar com o crescimento das megacidades esperado já para os anos vindouros. Seu intuito é urgente: o instituto espera formar os atores que tirarão do papel as próximas megacidades. A terminologia utilizada se distancia da arquitetura como disciplina – com suas preocupações como estética, o meio do desenho ou efeitos espaciais – e se aproxima da arquitetura como uma prática guiada a resolver problemas sociais e ambientais.

O último programa é o Open Thesis Fabrication. Este curso faz a ponte entre a pesquisa acadêmica e a indústria, com parceiros em Barcelona e em outros centros europeus. Os estudantes são introduzidos à fabricação digital e, utilizando impressoras 3D, usinagem controlada por computadores e robôs, desenvolvem protótipos de produtos. As pesquisas variam de mock-ups para o turismo espacial, novos materiais para a construção e até pequenos robôs capazes de fabricar edifícios em escala real. A ideia é aprender fazendo e, para isso, a escola tem parceiros de renome internacional, como a Kuka e ABB, que fabricam robôs, a D-Shape, que desenvolve impressoras 3D de enormes dimensões, ou a Cricursa, que produz vidros para as fachadas de edifícios icônicos espalhados pelo mundo.

Aliás, boa parte das pesquisas do Instituto explora novas maneiras de construir edifícios. Para tal, a escola conta com um dos laboratórios de fabricação digital mais bem equipados, o Fab Lab Barcelona. Na realidade, ele faz parte da rede MIT Fab Lab, uma malha global de espaços de fabricação e inovação iniciados no Centro para Bits e Átomos do Massachusets Institute of Technology.

Uso constante de laboratório de fabricação digital
Uma característica essencial do ensino no Iaac, segundo Orion Campos, recém-mestre pelo Instituto, é a importância do laboratório no desenvolvimento do projeto. “Compartilhar o edifício com um dos mais importantes e maiores Fab Labs do mundo incentiva o uso e oferece a infraestrutura necessária para que a maioria dos projetos passe pelo crivo final de um protótipo funcional”, explica Orion. “Ele é idealmente em escala 1:1, que comprova que as pesquisas teóricas, a geometria descritiva e as pesquisas de materiais apresentadas possam resultar em um objeto físico, seja com o objetivo de ser uma possível arquitetura, uma obra de arte, ou apenas uma exploração de materiais e formas.”

Dentro do Fab Lab de Barcelona é possível obter o certificado da Fab Academy. Trata-se de um curso de cinco meses, em que os participantes desenvolvem conhecimentos técnicos e administrativos para dirigirem laboratórios do gênero pelo mundo, como os que estão sendo abertos pela prefeitura em São Paulo. O curso ensina como administrar um Fab Lab, como operar softwares de desenho, impressoras e scanners 3D, fresadoras e máquinas de corte, além de programação e desenvolvimento de circuitos eletrônicos. O intuito é sempre trabalhar com softwares livres e compartilhar na rede global de Fab Labs os conhecimentos gerados. Segundo a graduada Sara Ezz El Arab, “a experiência foi intensa, mas, acima de tudo, divertida. Toda semana você é exposto a algo novo e aprende como fazer quase tudo”.

Ideias em teste prático
A escola promove excelentes parcerias com o governo espanhol e com a prefeitura de Barcelona, e este ano iniciou a ideia do Fab City. O objetivo é estudar se esses laboratórios de tecnologia digital são capazes de produzir, além de pequenos objetos, transformações da escala urbana. Um dos desdobramentos foi a criação do Green Fab Lab em um dos espaços utilizados pelo Iaac, o campus de Veladura dentro do Parque Nacional Collserola. Ali, as pesquisas giram em torno de como aprender com a natureza para melhorar o futuro. O objetivo dos projetos é criar comunidades autossustentáveis com laboratórios de produção de energia, alimentos e outros objetos. A mímese dos processos naturais é vista como um possível processo para lidar com questões culturais como a arquitetura.

Para colocar suas ideias em teste, o Iaac costuma construir protótipos em escala real, aproveitando as grandes dimensões de seus campi e equipamentos. O primeiro protótipo, a Casa Fab Lab, foi produzido para o concurso Solar Decathlon. Seu princípio é a flexibilidade de sua geometria de acordo com o contexto, local de fabricação e implantação da casa, tendo como critérios a disponibilidade de materiais e mão de obra, superando, assim, o paradigma fordista da produção em série. Em vez de o protótipo ser repetido de maneira idêntica no Rio de Janeiro e em Oslo, cada casa tem um desenho único seguindo as regras de um algoritmo.

“A pré-fabricação não é, como na lógica tradicional industrial, a repetição de um mesmo padrão. Mas sim a repetição do quase igual. O que definia esse novo padrão era sua fórmula, não suas medidas brutas. Assim, na cabeça dos jovens ali fervilharam possibilidades, e possíveis aplicações futuras, principalmente de mercado”, conta a arquiteta Maria Claudia Levy, que participou do projeto.

O Pavilhão Endesa é um protótipo para uma fachada que responde às condições ambientais. A solução pode ser utilizada em diversas escalas e, segundo seus autores, parte da máxima “A forma segue a energia” de modo que, quando orientada à direção com maior insolação, é mais fechada e, ao facear a direção oposta, é mais aberta.

O Pavilhão Fab Condenser é o mais sofisticado arquitetonicamente. Ao contrário dos anteriores, que são provas de ideias para lidar com energia, este pavilhão produz certo estranhamento arquitetônico. Seu embasamento faz com que o objeto se recuse a ser parte de um sítio específico e sua pele produz um jogo ambíguo entre superfície e volume e entre dentro e fora. Este pequeno edifício construído em menos de dez dias é capaz de levantar questões da arquitetura como parte do campo cultural, além de demonstrar a maestria tecnológica do Instituto.

Outro ponto que diferencia o Iaac no cenário internacional é seu constante ritmo de publicações – boa parte produzida em conjunto com a excelente editora Actar. Desde o onipresente Dicionário de arquitetura avançada, escrito pelos fundadores da escola, suas publicações compilam projetos, entrevistas e estudos urbanos. Recentemente, a escola passou a publicar uma revista online gratuita, a Iaac Bits. Grandes nomes da arquitetura internacional desfilam entre seus colaboradores, com destaque para Peter Trummer, Bernard Tschumi e Caroline Bos.

Não só nas publicações se veem figurões. O antigo galpão da escola, além de abrigar todo o maquinário hightech, é famoso por receber palestras de gente do quilate de Greg Lynn, Elizabeth Diller, Kengo Kuma e Hernan Diaz Alonso que, após a exposição de seus trabalhos e ideias, juntam-se aos alunos para confraternizações.

Tendo recebido nos últimos dez anos mais de 500 alunos provenientes de vários países, a escola é um ponto de encontro entre quem pensa e faz o futuro das edificações e cidades.

VICTOR SARDENBERG é mestrando pela Stäedelschule Architecture Class e arquiteto e urbanista pela Universidade Mackenzie. É coautor do blog Arquiteturas Avançadas, no portal da revista AU, e arquiteto no escritório Franken Architekten. Lecionou workshops pelo mundo pela SAC, Architectural Association, UFRJ, UFMS, PUC-RJ e Unicamp e trabalhou como arquiteto no escritório SUBdV Architecture. Seu trabalho foca nas novas possibilidades estéticas trazidas pela computação ao âmbito arquitetônico e artístico

POR: VICTOR SARDENBERG